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gnosis:puech:mani:cosmologia-antropologia

Cosmologia e Antropologia

Henri-Charles Puech. Sur le manichéisme et autres essais. Paris: Flammarion, 1979.

  • II — Os fundamentos teóricos da salvação: mito cosmológico e antropológico.
    • A mitologia maniqueísta fundamenta teoricamente o problema da salvação ao articular cosmologia, antropologia e soteriologia em uma mesma rede de correspondências entre universo, homem e divino.
      • O mito apresenta a salvação como resposta à condição da Luz aprisionada no mundo e no corpo.
      • O universo e o homem são concebidos como realidades paralelas, nas quais o macrocosmo e o microcosmo repetem a mesma estrutura dramática.
      • Reitzenstein é mencionado pela noção gnóstica do “Salvador-Salvo”, pela qual o ser que salva e o ser salvo pertencem à mesma substância luminosa.
      • A ação divina não se desenvolve por hierarquia descendente rígida, mas por evocações, hipóstases e personagens que expressam uma única Entidade sob formas sucessivas.
  • O mito cosmológico parte de uma dualidade radical entre duas Naturezas ou Substâncias eternas, a Luz e a Matéria, sem origem comum e sem redução possível de uma à outra.
    • A Luz é associada ao Bem, a Deus e ao Pai da Grandeza.
    • A Matéria é associada ao Mal, ao Príncipe das Trevas e ao domínio dos elementos obscuros.
    • A superioridade da Luz não implica vitória inevitável, pois sua bondade pacífica pode torná-la vulnerável à violência agressiva da Obscuridade.
    • A oposição entre Bem e Mal é apresentada como fronteira ontológica, espacial e dinâmica.
  • A ruptura da dualidade primitiva nasce do movimento desordenado da Matéria, cuja expansão violenta a conduz ao contato com a Luz.
    • A Matéria é descrita como desejo inconsciente, apetite de prazer e impulso cego de apropriação.
    • A Luz desperta a cobiça do Príncipe das Trevas e de seus demônios por sua estranheza e esplendor.
    • A invasão demoníaca é interpretada como projeção mítica do desejo obscuro diante da pureza luminosa.
    • O Mal não procede da Luz, mas tenta devorá-la, assimilá-la e prendê-la.
  • A primeira resposta da divindade consiste na evocação do Homem Primordial, que combate as Trevas e inaugura o drama soteriológico.
    • O Pai da Grandeza não combate diretamente, mas evoca a Mãe da Vida, da qual procede o Homem Primordial.
    • O Homem Primordial desce com seus cinco Filhos, identificados ao ar, ao vento, à luz, à água e ao fogo.
    • A derrota do Homem Primordial e a devoração de seus Filhos pelos demônios explicam a origem da mistura entre Luz e Trevas.
    • Teodoro bar Konai é mencionado ao conservar a fórmula segundo a qual Deus decide combater por si mesmo por meio dessa manifestação.
  • A derrota do Homem Primordial deve ser compreendida como sacrifício voluntário e estratégia de salvação, pois a Luz engolida pelas Trevas torna-se instrumento de sua futura derrota.
    • A alma luminosa entregue aos demônios limita os estragos do Mal e prepara a libertação posterior.
    • A Vida divina envenena a Matéria, pois as Trevas não conseguem assimilar uma substância estranha à sua natureza.
    • O episódio mostra que Deus deve salvar sua própria alma misturada aos demônios.
    • A substância luminosa aprisionada torna-se simultaneamente objeto e meio da redenção.
  • O resgate do Homem Primordial fornece o protótipo de toda salvação futura, pois nele a alma desperta, responde ao chamado e retorna ao Reino da Luz.
    • O Espírito Vivo, o Grande Arquiteto, o Grande Ban, o Espírito Vivente e seus cinco Filhos participam da operação libertadora.
    • O Homem Primordial é encontrado no abismo das Trevas, absorvido por elas com seus cinco filhos.
    • O chamado e a resposta são personificados como divindades e figuram o despertar da consciência.
    • O verso traduzido declara: “Salve a ti, ser bom no meio dos maus; e luminoso no meio das Trevas; Deus que resides entre animais de cólera que não conhecem sua honra.”
    • O Homem Primordial responde: “Vens com a Paz, tu que trazes uma mensagem de quietude e de salvação.”
    • A pergunta traduzida prossegue: “Como estão nossos Pais, os Filhos da Luz em sua cidade?”
  • A redenção é descrita como despertar do nous, pelo qual a alma reconhece a si mesma, retoma posse de sua natureza e se regenera.
    • O Espírito Vivente transmite à alma o poder vital, o pneuma e os cinco dons da vida.
    • A Mãe, a Mãe dos Viventes, o Apelo e a Resposta constituem figuras do mesmo processo salvífico.
    • Os Apóstolos da Luz e os enviados de Mani reproduzem no mundo o chamado revelador.
    • O Apelo representa a Voz misteriosa que desperta a alma, enquanto a Resposta exprime a adesão confiante da alma chamada.
  • O salvamento do Homem Primordial não é apenas episódio mítico, mas modelo simbólico que assegura a todos os seres a possibilidade de redenção.
    • O rito da dexiosis, ou aperto de mãos de reconhecimento, figura a passagem do domínio das Trevas à Região da Luz.
    • A Resposta recebida pelo Homem Primordial torna-se modelo da resposta que cada salvo deve oferecer.
    • A Mãe de Vida, o Espírito Vivente e o Pai da Grandeza participam da libertação como figuras de uma única economia divina.
    • A descida final do Homem Primordial ao fundo das Trevas arranca as raízes do Mal e enfraquece a Matéria.
  • A continuação do mito descreve a libertação progressiva da Luz ainda presa no mundo, sobretudo por meio do Demiurgo, do Terceiro Enviado e dos astros.
    • O Espírito Vivente, ajudado por seus cinco Filhos, castiga os Arcontes demoníacos e organiza o mundo com suas peles, ossos e carnes.
    • Parte da substância luminosa liberta forma o sol e a lua.
    • Outra parte, menos afetada, constitui as estrelas.
    • A porção mais contaminada permanece presa em plantas, corpos e demônios, exigindo operação salvífica mais longa.
  • O Terceiro Enviado mobiliza uma economia cósmica de purificação, pela qual a Luz enterrada na Matéria é extraída, refinada e sublimada.
    • O vento, a água e o fogo funcionam como rodas do mecanismo cósmico de libertação.
    • O sol e a lua servem como instrumentos principais de ascensão da substância luminosa.
    • A Coluna de Luz conduz a substância libertada nos quinze primeiros dias do mês.
    • A lua torna-se cheia ao receber essa carga e transfere a Luz ao sol nos quinze dias seguintes.
  • O mesmo mecanismo de salvação possui uma face ambígua, pois os demônios reproduzem sexualmente a prisão da Luz e originam a humanidade decaída.
    • A Virgem de Luz provoca os Arcontes para que expulsem a Luz engolida.
    • Os vegetais nascem da semente demoníaca caída sobre a terra.
    • Os abortos das diablesas geram as árvores, que prendem ainda mais a substância luminosa.
    • Az, a Concupiscência, concentra a maior parte da Luz e produz uma criação inferior para mantê-la cativa.
    • Adam, Eva, Gehmurd e Murdiyanag aparecem como nomes ligados à descendência humana.
  • A salvação de Adão ocupa lugar central porque nele se concentra uma parte decisiva da Luz aprisionada pela Matéria.
    • Teodoro bar Konai e o fragmento de Turfan S 9 conservam versões importantes desse episódio.
    • Az ou a Concupiscência fabrica o corpo de Adão como prisão da alma luminosa.
    • Jesus é enviado como salvador, identificado em alguns textos ao Jesus Esplendor, ao Nous ou ao Filho de Deus.
    • Jesus desperta Adão do sono de morte e lhe revela sua condição verdadeira.
    • Adão vê sua própria alma exposta aos dentes da pantera, dos elefantes, dos devoradores, dos cães, misturada e aprisionada em tudo o que existe.
  • A iluminação de Adão mostra que a salvação é conhecimento de si, reconhecimento da origem divina e ruptura com a ignorância corporal.
    • Adão descobre que não foi Ohrmizd quem criou seu corpo de carne nem sua alma.
    • A alma recebe conhecimento, retidão, inteligência e ressurreição.
    • A ciência de Ohrmizd, o Bom Senhor, é acolhida por Adão juntamente com os mandamentos da Justiça e da Paz.
    • O corpo mortal é rejeitado, e Adão é conduzido ao Paraíso, Reino dos Bem-aventurados.
  • O episódio de Adão repete o salvamento do Homem Primordial e confirma o tema maniqueísta do Salvador-Salvo.
    • O elemento a salvar é parte consubstancial de Deus.
    • O salvador de Adão salva a si mesmo ao libertar a substância luminosa aprisionada.
    • Jesus, chamado Deus do Nous por Alexandre de Licópolis, representa o princípio intelectual que desperta a alma.
    • A inteligência revela à alma sua origem, sua queda e sua destinação.
    • A abertura dos olhos de Adão significa o acesso à ciência universal.
  • A revelação entregue a Adão contém doutrina cosmológica, soteriológica e prática, pois ensina a origem do mundo, o destino da alma e as prescrições de renúncia.
    • O Fihrist é mencionado por preservar ensinamentos sobre o Paraíso, os deuses, o Inferno, o Diabo, a Terra, o Céu, o Sol e a Lua.
    • A renúncia ao corpo funda a conduta prática, inclusive a recusa de Eva como figura da propagação do mal.
    • A salvação de Adão é chamada de despertar, regeneração, ressurreição e ascensão ao Reino da Luz.
    • A conversão e iluminação de Mani repetem, na história humana, o modelo mítico da salvação primordial.
  • A história do mundo desenvolve duas ações paralelas, a propagação da mistura entre Luz e Obscuridade e o progresso da libertação da substância luminosa.
    • A alma do mundo é chamada de anima generalis e aparece espalhada por corpos, plantas, sementes, troncos e frutos.
    • A Alma Vivente é frequentemente figurada como Jesus Patibilis, o Jesus sofredor presente na matéria.
    • Agostinho transmite a imagem de Jesus, Vida e Salvação dos homens, suspenso em toda árvore.
    • Fausto, citado por Agostinho, interpreta a ligadura mística de Jesus a toda cruz como expressão da paixão cósmica.
  • O mundo é simultaneamente prisão demoníaca, lugar de sofrimento e oficina de cura na qual a Luz é purificada e reconduzida à sua pátria.
    • A imagem da “prisão” descreve o domínio das Trevas sobre as almas luminosas.
    • A imagem do “hospital” indica que o universo oferece remédio, promessa de saúde e esperança de alegria.
    • A máquina cósmica gira enquanto Jesus ordena, a lua se enche, a noria eleva as almas e a Coluna de Luz as conduz ao Paraíso.
    • A substância divina libertada da Obscuridade faz a vida da Matéria esgotar-se progressivamente.
  • A Revelação acompanha a libertação cósmica e histórica por meio de enviados que despertam a humanidade em diferentes épocas.
    • Seth, Enos, Henoc, Nicoteu, Noé, Sem, Abraão, Zoroastro, Buda, Jesus e Mani são enumerados como mensageiros ou profetas.
    • Mani aparece como o selo dos profetas e anunciador da Verdade total e direta.
    • Os enviados são representantes do Nous e substitutos da figura mítica de Xrostag.
    • A salvação anunciada por eles depende da iluminação interior que torna a alma capaz de escolher entre Bem e Mal, Verdade e Erro, Luz e Trevas.
  • A missão de Mani acelera e encerra a história reveladora, conduzindo o drama cósmico ao momento escatológico da Grande Guerra.
    • A Grande Guerra marca o fim do curso histórico e o encerramento do mundo presente.
    • A Matéria será sepultada numa grande fossa escavada no centro do Novo Eon.
    • A restauração final separará novamente as duas Substâncias e restabelecerá a dualidade primitiva.
    • O Mal perderá definitivamente sua capacidade de ataque e subversão.
  • A antropologia maniqueísta define o homem como mistura factual de Luz e Obscuridade, cuja composição varia segundo graus diversos de conhecimento e cativeiro.
    • A união entre as duas substâncias é percebida como consequência do comércio sexual e da geração.
    • A inserção da Luz nas Trevas produz inconsciência, hábito e ignorância quase absolutos.
    • A alma não se divide em duas almas substanciais, mas aparece em duas condições opostas.
    • A oposição concreta se dá entre o moi originariamente puro e o corpo vivificado pela mistura com a alma.
  • A divisão entre homem velho e homem novo expressa a tensão entre a alma aprisionada e o nous salvador.
    • O homem velho corresponde ao corpo, à carne, à prisão, ao esquecimento, à embriaguez, à inconsciência e à morte.
    • O homem novo corresponde ao moi vivo, desperto, renovado e devolvido à pureza originária.
    • O Khuastvanift é mencionado por distinguir o “antigo eu” e o “este eu aqui”.
    • A articulação maniqueísta difere da divisão tricotômica gnóstica entre corpo, alma e espírito.
  • O homem novo é a alma revelada a si mesma pelo nous, que a liberta da mistura e a arma com capacidades luminosas.
    • A escolástica posterior compara o homem novo aos cinco elementos luminosos, aos cinco membros, às cinco faculdades, aos cinco dons, às virtudes e às potências luminosas.
    • Os termos nous, ennoia, phronesis, enthymesis e logismos indicam dons intelectuais e espirituais concedidos à alma.
    • A Grande Pensée aparece como princípio que intervém tanto na angústia do Homem Primordial quanto no desejo humano de salvação.
    • O instinto de vida opõe-se ao instinto de morte que domina a alma no corpo carnal.
  • A formação de Adão torna o homem o centro do processo salvífico, pois nele se reúne a maior porção da Luz decaída e engolida.
    • O homem carrega em si a história do mundo e o peso do drama cósmico.
    • A alimentação participa da libertação, pois o homem purifica partículas luminosas contidas nos alimentos e permite sua ascensão ao Lugar do Repouso.
    • O corpo humano torna-se uma oficina auxiliar da salvação.
    • A humanidade resume o universo como microcosmo e participa da intenção divina de libertar a Luz.
  • A consubstancialidade entre homem, mundo e divindade confere à alma humana um papel central na paixão e na salvação universais.
    • A alma de Adão, transmitida aos descendentes, é fragmento orgânico de Deus.
    • A alma humana prolonga a crucificação cósmica do Jesus Patibilis.
    • Yiso ziwa, o Jesus luminoso, reúne todos os “moi-viventes” e é chamado de “Moi-Luz”, “Moi Superior” e “Moi no moi-luz de todo Vivente”.
    • A salvação pessoal participa da libertação universal, pois cada alma salva reintegra uma parte da substância divina.
  • A condição humana permanece paradoxal porque a alma é simultaneamente serva e soberana, criatura decaída e substância preciosa destinada à Luz.
    • A alma está presa ao corpo, submetida aos demônios e esquecida de si mesma.
    • A mesma alma é pérola, joia e fragmento divino de valor inestimável.
    • O sofrimento conserva a esperança de salvação, pois a parte divina em cada homem não pode ser destruída.
    • Entre Deus e a alma existe ligação indissolúvel, pela qual cada alma é passível de reintegração.
  • As “Palavras do Moi-Vivente” denunciam, por meio de contrastes simétricos, a ingratidão humana diante da alma luminosa que sofre no mundo.
    • O verso traduzido declara: “Compras-me como escravo de ladrões, e me temes e me imploras como a um senhor.”
    • O verso traduzido declara: “Escolhes-me como aluno fora do mundo dos Verídicos, e me prestas homenagem como a um mestre.”
    • O verso traduzido declara: “Golpeas-me e me atormentas como a um inimigo, e me libertas e me reanimas como a um amigo.”
    • O verso traduzido declara: “Entretanto, meus Pais são bastante poderosos e fortes para testemunhar a gratidão por tuas mãos.”
    • O verso traduzido declara: “E, em recompensa por um único dia de jejum, para te dar a Alegria eterna.”
    • O verso traduzido declara: “E, para te obter a parte que é tua graças a mim, eles inverterão os deuses para teu encontro.”
    • O verso traduzido declara: “E a parte de penas e preocupações que carregas e suportas por minha causa, eles a circundarão.”
  • A alma humana dividida entre ignomínia e grandeza possui a vocação de despertar, libertar-se da crucificação e retornar à Vida e à Luz.
    • A alma é escrava e soberana, aluna e mestra, crucificada e destinada à ressurreição.
    • A abjeção presente não anula sua nobreza originária.
    • A salvação consiste em sair da mistura, recuperar o conhecimento e reintegrar-se à substância luminosa.
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