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SIMÃO O MAGO

Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.

Capítulo I: A “gnose” de Simão, o Mago

1. Simão como cismático antes que herege

  • Os textos de Nag Hammadi não permitem determinar com segurança quando o gnosticismo nasceu nem como era em seu início.
    • Não se conhece a data em que os textos de Nag Hammadi foram escritos.
    • Sabe-se apenas que são anteriores a meados do século IV.
    • Em sua forma atual, a maior parte desses textos parece relativamente tardia.
    • Para o período mais antigo, no qual o gnosticismo deve ter surgido, as fontes principais continuam sendo os heresiólogos e sobretudo o Novo Testamento.
    • O Novo Testamento é mais confiável que Irineu e os demais heresiólogos para o que se refere ao primeiro século.
    • O gnosticismo costuma ser situado, ao menos em sua formação, na segunda metade do primeiro século.
    • Os textos do Novo Testamento também foram escritos nesse período.
    • As obras heresiológicas disponíveis não são anteriores à segunda metade do segundo século.
  • A investigação do gnosticismo exige tratar do Novo Testamento, embora seus problemas sejam extremamente complexos.
    • Quase cada passagem do Novo Testamento recebeu vasta discussão.
    • Mesmo um estudo prolongado não garante conhecimento exaustivo de tudo que foi escrito sobre cada passagem.
    • Não se pode formar uma ideia do gnosticismo sem tocar no Novo Testamento.
    • Quem estuda o Novo Testamento também precisa falar do gnosticismo, ainda que nem sempre o tenha estudado em profundidade.
    • O estudo das epístolas paulinas e dos escritos joaninos obriga a tomar posição sobre a origem do gnosticismo.
    • A interpretação muda conforme se considere o gnosticismo anterior, posterior, independente ou derivado do cristianismo.
    • Do mesmo modo, quem estuda o gnosticismo precisa falar do Novo Testamento.
  • A hipótese de um surgimento do gnosticismo no vale do Lico a partir de Colossenses é improvável.
    • Com base no Novo Testamento, pensou-se que o gnosticismo teria aparecido primeiro na Samaria e no vale do Lico.
    • A hipótese do vale do Lico apoia-se na Epístola aos Colossenses.
    • A teoria segundo a qual Colossenses combate gnósticos é apenas uma hipótese.
    • Essa hipótese é muito improvável.
    • Tudo indica que a epístola combate o cristianismo judaico, não uma forma de gnosticismo.
  • A tradição que faz da Samaria o primeiro lugar do gnosticismo depende sobretudo de Simão, o Mago, mas essa tradição é incerta.
    • O gnosticismo samaritano foi considerado uma das formas mais antigas, talvez a mais antiga, de gnosticismo vinculável a lugar, tempo e indivíduo definidos.
    • Essa consideração depende das tradições sobre Simão, o Mago.
    • A doutrina de Simão, se é que ele ensinou alguma, dificilmente já apresentava os traços característicos do gnosticismo.
    • Entre esses traços estaria a distinção entre o Deus dos cristãos e o Deus do Antigo Testamento.
    • Quando Irineu descreve os anjos simonianos como criadores do mundo, provavelmente julga com base em sistemas posteriores.
    • Os anjos aos quais Simão se referia, caso falasse de anjos, poderiam ser anjos governantes semelhantes aos do judaísmo e do cristianismo primitivo.
    • Justino favorece essa interpretação.
    • A desvalorização do Criador, e não do mundo, parece desconhecida nas obras do primeiro século.
    • Essa desvalorização não é afirmada nem combatida nessas obras.
  • A Apophasis Megale não prova que Simão distinguisse Deus e o Criador.
    • Hipólito, no século III, atribui a Apophasis Megale a Simão.
    • A obra provavelmente não é de Simão.
    • Ela pode ter sido escrita em uma escola simoniana no século II ou no início do século III.
    • Nela não há evidência de distinção entre Deus e o Criador.
  • O mito da Mãe atribuído por Irineu a Simão pode não conter nada propriamente gnóstico.
    • O mito pressupõe uma visão pessimista do mundo.
    • Esse mesmo pessimismo aparece em Paulo e João.
    • Apesar do pessimismo, o ato da criação não é desvalorizado.
    • A Mãe cria em obediência ao Pai.
    • A ideia de Deus criar por meio da Mãe, isto é, do Espírito, não é estranha ao cristianismo.
    • No Veni Creator, o Espírito é chamado Criador.
  • A figura de Simão foi talvez considerada pai do gnosticismo por causa de sua proximidade com temas paulinos.
    • Quase todas as ideias atribuídas a Simão pelos heresiólogos têm relação com Paulo.
    • O mito da Mãe pode ser compreendido a partir de ideias paulinas.
    • A doutrina simoniana da salvação, tal como descrita por Irineu, tem ligação ainda maior com a doutrina paulina.
    • Segundo Irineu, os anjos mencionados por Simão eram poderes dominadores do mundo e autores da Lei.
    • Por isso, os discípulos de Simão não deveriam obedecer à Lei.
    • Eles deveriam considerar-se livres para fazer o que quisessem.
    • Irineu acrescenta em latim: Secundum enim ipsius gratiam salvari homines, sed non secundum operas iustas.
    • A frase significa: “Pois os homens são salvos por sua graça, e não por obras justas”.
    • Essa é, em certo sentido, a doutrina paulina, exceto pelo fato de que, para Paulo, a salvação ocorre pela graça de Jesus Cristo.
  • A afirmação de que Simão teria reivindicado salvar por sua própria graça é pouco provável.
    • No relato de Irineu, são atribuídas a Simão características manifestamente cristológicas.
    • Caso haja algum elemento de verdade nessa atribuição, é mais provável que seus discípulos o tenham colocado no mesmo nível de Cristo.
    • É menos provável que Simão tenha colocado a si mesmo nesse nível.
    • A hipótese mais provável é que cristãos ortodoxos ou cristãos judaicos encontraram uma obra simoniana e pensaram que palavras dirigidas a Cristo eram dirigidas a Simão.
    • Também poderiam ter pensado que palavras pronunciadas por Cristo eram pronunciadas por Simão.
  • A afirmação de que Simão teria reivindicado ser Deus Pai é ainda mais difícil de aceitar.
    • Observou-se certa semelhança entre o nome Simão e um dos nomes atribuídos a Deus.
    • Essa semelhança poderia explicar a notícia de Justino segundo a qual quase todos os samaritanos veneravam Simão como Deus supremo.
    • Sem essa explicação, a afirmação de Justino seria surpreendente, mesmo admitindo grande veneração dos discípulos por Simão.
  • A tradição sobre Simão parece ligada ao paulinismo e à polêmica judaico-cristã contra Paulo.
    • Algumas obras pseudo-clementinas mostram que, em certos círculos judaico-cristãos, o nome de Simão podia encobrir o de Paulo.
    • Paulo era atacado sob o nome de Simão.
    • Em algumas partes do romance clementino, Simão representa Paulo.
    • Em outras partes, representa Marcion, que queria ser discípulo de Paulo.
    • Surge a questão de saber se a confusão de Simão com Paulo, e às vezes com Marcion, também aparece em Irineu.
  • R. M. Grant considera possível que parte do relato de Irineu sobre o simonianismo derive de ataques ebionitas contra Paulo.
    • Grant pergunta se as informações de Irineu realmente se referem aos simonianos ou se vêm de ebionitas que usaram Simão para atacar Paulo.
    • O uso de Simão como máscara de Paulo aparece nas Homilias e Reconhecimentos Clementinos e em suas fontes.
    • Essas fontes remontam ao século II.
    • Irineu parece conhecer algo semelhante a essas fontes quando afirma que Simão passou a disputar avidamente com os apóstolos após o episódio de Atos.
    • Grant julga mais provável que os simonianos tenham sido, em certa medida, paulinos radicais.
    • Segundo essa hipótese, os ebionitas reconheceram depois esse fato e atacaram Paulo por meio de Simão.
  • Simão pode ter sido considerado pai de todas as heresias porque foi assimilado a Paulo.
    • Se Simão for visto apenas como o mágico de Atos 8:9—24 ou como chefe de uma pequena seita, é difícil fazê-lo carregar tal responsabilidade.
    • Os simonianos provavelmente nunca passaram de um pequeno grupo, situado principalmente na Samaria e sem grande influência externa.
    • Por meio de Menandro, que ensinou em Antioquia, o simonianismo poderia ter influenciado Saturnilo e Basilides.
    • Outros gnósticos muito antigos mencionados pelos heresiólogos, como Cerinto, não parecem ligados a Simão.
    • Mesmo havendo continuidade entre Simão, Saturnilo e Basilides, elementos novos e não simonianos foram introduzidos.
    • Entre esses elementos estão influências que parecem vir do Quarto Evangelho.
    • Se a questão é Paulo, já não seria absurdo fazê-lo pai de todas as heresias gnósticas.
    • Os filhos do paulinismo frequentemente modificaram as ideias de seu pai.
    • Os gnósticos também podem ser filhos do pensamento joanino.
    • O Evangelho de João e Cerinto podem, de certo modo, ser vinculados à corrente paulina.
    • Langerbeck mostrou que as doutrinas dos grandes gnósticos eram basicamente um paulinismo radical.
    • A Segunda Epístola de Pedro, obra apócrifa talvez tardia, atribui a heresia, isto é, o gnosticismo, a uma interpretação equivocada das epístolas de Paulo.
  • A própria existência histórica de Simão pode ser questionada, embora seja mais simples admitir que ele existiu.
    • F. Chr. Baur julgou que Simão nunca foi mais que uma caricatura de Paulo.
    • A principal razão para crer em sua existência é que, no primeiro século, Simão era conhecido por Lucas, autor dos Atos dos Apóstolos.
    • A descrição lucana não parece aplicável diretamente a Paulo.
    • Lucas descreve um mágico samaritano convertido por Filipe que tenta comprar dos apóstolos o poder de conceder o Espírito Santo.
    • À primeira vista, parece impossível que essa história tenha sido inventada para se referir a Paulo.
    • Mesmo assim, vários elementos da descrição poderiam ser aplicados a Paulo por seus adversários.
    • Para os judeus, “samaritano” podia ser sinônimo de herege ou pecador.
    • Em João 8:48, Cristo é chamado samaritano por seus inimigos.
    • Paulo, que realizava milagres, poderia ter sido considerado mágico, assim como Cristo também foi.
    • A tentativa de comprar o direito de dar o Espírito Santo poderia significar o desejo de chefiar sua Igreja e introduzir novos convertidos na recepção do Espírito sem recorrer sempre a Jerusalém.
    • Em troca, Paulo poderia ter prometido enviar dons aos “pobres”, ebionim, como a comunidade judaico-cristã de Jerusalém chamava a si mesma.
    • Foi exatamente isso que Paulo fez.
    • A discordância entre Simão e Pedro poderia refletir a discordância entre Pedro e Paulo em Gálatas 2:11—14.
    • Filipe era um “helenista”, assim como provavelmente Ananias, que introduziu Paulo na comunidade cristã de Damasco.
    • Os cristãos de Antioquia, entre os quais Paulo deve ter recebido formação cristã, também vieram do ambiente helenista.
    • Depois da morte de Estêvão, Filipe talvez fosse o helenista mais conhecido, e conversões realizadas por seu grupo poderiam ser atribuídas a ele.
  • A possibilidade de Lucas ter recebido diretamente de Filipe a tradição sobre Simão não pode ser provada.
    • Se Filipe tivesse contado a Lucas que batizou Simão, Lucas não poderia estar enganado nesse ponto.
    • Nesse caso, Simão teria existido de fato.
    • Contudo, a dependência direta de Lucas em relação a Filipe é apenas uma possibilidade.
    • A semelhança entre a acusação contra Simão e a promessa paulina de enviar dinheiro aos ebionim levanta suspeitas.
    • Em Gálatas 2:10, a promessa de Paulo faz parte do acordo que lhe permitiu organizar suas Igrejas com liberdade.
    • Entre os direitos exercidos por Paulo estava a imposição de mãos para participação no Espírito, conforme Atos 19:6.
    • A confusão de Simão com Paulo pode já estar presente no relato de Atos.
    • Lucas talvez não tenha percebido que seu mestre Paulo era alvo indireto de uma tradição difamatória.
    • Lucas recolheu muitas tradições em círculos judaico-cristãos e pode tê-las reproduzido sem compreender plenamente seu sentido.
    • Ele parece ter desejado reconciliar paulinismo e cristianismo judaico.
    • Por ser favorável aos dois lados, talvez não tenha percebido como um lado via o outro.
  • O relato de Atos sobre a coleta paulina diverge da explicação de Paulo em Gálatas.
    • Em Gálatas, Paulo apresenta a promessa de enviar dons como parte do acordo com Tiago, Pedro e João.
    • Em Atos 11:28—30, Lucas diz que Paulo e Barnabé foram intermediários de uma oferta voluntária enviada pela Igreja aos cristãos de Jerusalém durante uma fome no Império.
    • Lucas pode ter ignorado a Epístola aos Gálatas ou lembrado mal seu conteúdo.
    • Esse erro sobre o motivo da coleta ajuda a explicar por que ele não percebeu que a acusação contra Simão também poderia ser feita contra Paulo.
    • Se o relato de Atos sobre Simão se referia de fato a Paulo, os cristãos judaicos negavam que tal acordo tivesse sido aceito.
    • Eles teriam afirmado que Paulo propôs o acordo, mas que os apóstolos não o aceitaram.
  • As tradições posteriores sobre Simão podem ser explicadas com mais facilidade como polêmica judaico-cristã contra Paulo.
    • Quando retratam Simão como viajante e missionário que foi a Roma, aproximam-no de Paulo.
    • Paulo foi viajante, missionário e também foi a Roma.
  • Há razões para admitir que Simão existiu, embora a cautela permaneça necessária.
    • A existência do nome Simão levanta a questão de como os simonianos teriam recebido esse nome se ele fosse apenas personagem fictício de Atos.
    • Justino e as obras clementinas mencionam seu lugar de nascimento.
    • Se apenas Justino trouxesse esse detalhe, ele poderia ser tão suspeito quanto sua confusão entre uma estátua de Semo Sancus e uma estátua de Simão.
    • A redescoberta da estátua mostrou que Justino se enganara nesse ponto.
    • A concordância entre as tradições dá certo valor ao testemunho, embora uma possa depender da outra ou ambas de fonte lendária comum.
    • Duvidar da existência de Simão talvez seja ceticismo excessivo.
    • É mais simples pensar que Simão existiu.
  • Mesmo admitindo a existência de Simão, quase nada se sabe com segurança sobre sua doutrina.
    • Não se sabe se ele possuía doutrina própria além do que aprendeu do cristianismo.
    • É improvável que teorias como o mito da Mãe remontem ao próprio Simão.
    • A Apophasis Megale, citada por Hipólito no século III, não pode ser de Simão.
    • Essa obra está ligada a um conjunto de doutrinas relativamente tardias.
    • As informações de Epifânio, no fim do século IV, são ainda mais suspeitas que as dos séculos II e III.
    • Para o pensamento do próprio Simão, resta apenas aquilo que pode ser extraído de Atos.
    • O relato de Atos foi provavelmente escrito nos últimos quinze anos do primeiro século, talvez por volta do ano 90.
    • Ele pode ter sido influenciado por polêmica judaico-cristã contra o simonianismo e o paulinismo.
    • Também pode ser em parte lendário.
  • A expressão “a grande potência” em Atos não prova que Simão fosse gnóstico.
    • Haenchen sustentou que o modo como os samaritanos falam de Simão em Atos já implica gnosticismo.
    • Mesmo que os samaritanos o chamassem “a grande potência”, esse título não indicaria presença gnóstica no primeiro século.
    • A expressão parece antes judaico-cristã ou judaica.
    • Hegesipo, citado por Eusébio em História Eclesiástica 2,23,13, põe a expressão na boca de Tiago, o Justo, irmão do Salvador.
    • Nesse texto, a expressão significa “Deus”.
    • Em Atos, ela significa simplesmente que os samaritanos divinizavam Simão por causa das maravilhas realizadas por sua magia.
    • Divinizar um homem não implica ser gnóstico nem pertencer ao gnosticismo.
    • Se Simão se tomava por Deus, poder-se-ia concluir loucura, não gnosticismo.
    • Lucas diz apenas que Simão se apresentava como “alguém grande”.
    • A acusação de considerar-se Deus ou deixar-se divinizar é frequente entre cristãos e judeus.
    • Em Atos, essa acusação aparece também em relação a Herodes Agripa.
    • A fonte do relato é desfavorável a Simão e provavelmente exagera alguns elementos.
  • A frase sobre “a grande potência” é tão suspeita quanto o restante do relato de Atos.
    • Haenchen reconhece que o conhecimento sobre Simão é extremamente incerto.
    • Ele divide o relato de Atos em duas camadas sucessivas de tradição.
    • Pensa que o relato verdadeiro e mais antigo foi remodelado.
    • Mesmo assim, atribui confiança especial à frase sobre “a grande potência”.
    • Essa frase também é suspeita.
    • Ela implica hostilidade contra Simão e deseja retratá-lo como alguém que aceitou ser divinizado.
    • O uso da expressão “grande potência” trai origem judaico-cristã.
    • Os cristãos judaicos eram precisamente inimigos de Simão.
  • O pedido de Simão em Atos indica mais uma disputa de autoridade eclesial que simples magia.
    • Haenchen pensa que um mágico como Simão deveria ter pedido o Espírito para si, a fim de fazer milagres como Filipe.
    • Nesse caso, deveria ter dirigido seu pedido a Filipe, e a intervenção de Pedro pareceria inútil.
    • A observação mostra que Simão não era tanto um mágico quanto um chefe de Igreja.
    • Se fosse apenas mágico, bastaria possuir o Espírito.
    • O que ele desejava era o direito de dar o Espírito.
    • Ele provavelmente queria conceder aos cristãos da Samaria a participação no Espírito por si mesmo.
    • Em outras palavras, queria o direito de certa independência de sua Igreja em relação a Jerusalém.
    • Essa reivindicação era natural para um samaritano.
    • O pedido ocorre quando Pedro e João vão à Samaria controlar a obra de Filipe.
    • A visita de Pedro e João afirma a autoridade da Igreja de Jerusalém sobre os novos convertidos.
  • Simão pode ter representado uma tendência cismática samaritana dentro do cristianismo primitivo.
    • Simão era samaritano e fora convertido por um “helenista”.
    • Os helenistas não aceitavam o valor especial da Igreja de Jerusalém da mesma forma que os judaico-cristãos.
    • A pretensão de primazia da Igreja de Jerusalém lembrava a pretensão dos sacerdotes do Templo sobre judeus de todo o mundo.
    • A organização do cristianismo copiava de perto a organização do judaísmo.
    • Os helenistas talvez criticassem essa organização centralizada.
    • Os samaritanos nunca aceitaram essa centralização.
    • Simão, se existiu, foi talvez de tendência cismática, não propriamente heresiarca.
    • Assim como os samaritanos eram cismáticos dentro do judaísmo, os cristãos samaritanos podem ter desejado independência parcial de Jerusalém.
    • Os cristãos judaicos de Jerusalém podem ter visto nisso uma afronta profunda.
    • O simonianismo pode ter sido convertido em modelo do paulinismo, também detestado por eles.
    • O paulinismo parecia cisma porque libertava cristãos pagãos da Lei.
    • A Lei, como o Templo, constituía a unidade do judaísmo, da qual os cristãos judaicos não queriam separar-se.
    • Por romper a unidade, Paulo podia ser comparado a Simão.
  • A oposição a Paulo sob o nome de Simão permitia acusá-lo indiretamente.
    • Os cristãos veneravam Paulo.
    • Combatê-lo sob o nome de Simão permitia atribuir-lhe acusações que talvez não ousassem formular diretamente.
  • Nada característico da doutrina de Simão é conhecido com segurança.
    • Ele talvez tenha se interessado especialmente pelo Espírito.
    • Atos permite concluir apenas que o Espírito era para ele um poder sobrenatural que permitia, entre outras coisas, realizar milagres.
    • O Espírito também podia ser inspiração própria dos membros da Igreja e elemento de formação do grupo.
    • Essa concepção pouco difere do que o Espírito era para muitos cristãos.
    • Mesmo que o mito da Mãe remontasse a Simão, o que é muito improvável, ele não seria propriamente gnóstico.
    • A Mãe, isto é, o Espírito ou a Igreja, oprimida pelos anjos, isto é, pelo mundo, não constitui ideia propriamente gnóstica.
    • A Mãe não é forma do Demiurgo, porque cria por ordem de Deus.
    • Ela cria como a Sabedoria cria no Antigo Testamento, como o Verbo em São João ou como o Espírito no Veni Creator.
  • Não há razões sólidas para afirmar que o gnosticismo apareceu primeiro na Samaria ou em Colossos.
    • O Novo Testamento não fornece base firme para situar o primeiro gnosticismo na Samaria.
    • Há ainda menos razão para situá-lo em Colossos.
    • Os documentos mais antigos em que aparece uma tendência capaz de tornar-se gnosticismo são as epístolas de Paulo aos Coríntios.
    • Essa tendência surgiu entre os cristãos de Corinto.

2. Observações sobre o livro de Beyschlag

  • Karlmann Beyschlag oferece forte apoio à tese de que o Simão de Atos não era gnóstico.
    • O livro Simon Magus und die christliche Gnosis foi publicado em Tübingen em 1974.
    • A obra é muito rica em referências.
    • Para Beyschlag, o Simão descrito em Atos não era gnóstico.
    • O gnosticismo simoniano apareceu muito mais tarde, no século II.
    • Esse gnosticismo deve ser entendido como ramo da gnose cristã.
    • Não deve ser entendido como etapa preliminar anterior à gnose cristã.
    • O que é gnóstico no simonianismo deriva de uma gnose cristã posterior a Simão.
    • O que talvez não seja cristão ainda não é gnóstico.
  • A demonstração de Beyschlag é correta quanto ao caráter não gnóstico de Simão em Atos, mas seu retrato do Simão histórico é discutível.
    • A dependência do simonianismo gnóstico em relação ao cristianismo é adequadamente demonstrada por Beyschlag.
    • A hipótese de Beyschlag sobre o Simão histórico não parece necessária nem a mais provável.
    • Para Beyschlag, Simão foi um theios aner, isto é, um “homem divino” no sentido antigo da expressão.
    • Ele teria sido venerado como tal por uma população provavelmente pagã de Sebaste.
    • Essa hipótese suscita várias objeções.
  • A hipótese de uma veneração pagã de Simão não se ajusta ao contexto narrativo de Atos.
    • Na seção de Atos em que Simão aparece, ainda não se trata da pregação aos pagãos.
    • A pregação aos pagãos começa apenas nos capítulos 10 e 11.
    • Pedro batiza Cornélio nesses capítulos.
    • Os cristãos de Antioquia, rompendo o costume cristão primitivo de falar apenas a judeus, começam também a falar aos gregos.
    • O eunuco da rainha da Etiópia em Atos 8:26—34 era ao menos prosélito.
    • Ele fora a Jerusalém para adorar Deus e Filipe o encontra lendo o profeta Isaías.
    • Filipe parece dirigir-se não a pagãos, mas a judeus cismáticos de algum tipo, como eram a maioria dos samaritanos.
    • O episódio pode ter ocorrido em Siquém, não em Sebaste.
  • A comparação entre Atos 8 e Atos 12 indica que Lucas não via os admiradores de Simão como pagãos.
    • Em Atos 12, os que divinizam Herodes Agripa o chamam “deus” porque são pagãos.
    • Em Atos 8, os que divinizam Simão o chamam “a grande potência”.
    • Essa é uma expressão judaica, judaico-cristã ou samaritana para se referir a Deus.
    • Não é expressão pagã.
    • Beyschlag reconhece que o theios aner não era chamado assim.
    • A linguagem posta por Lucas na boca dos admiradores de Simão indica que ele não os considerava pagãos.
    • É pouco provável que uma população da religião samaritana divinizasse um homem.
  • A fonte lucana sobre Simão provavelmente é judaico-cristã ou deriva de um ambiente hostil a ele.
    • Na primeira parte de Atos, Lucas geralmente usa fontes judaico-cristãs.
    • A parte do relato em que Pedro e João aparecem visa glorificar os apóstolos de Jerusalém.
    • A expressão “a grande potência”, mesmo que seja samaritana, é ainda mais seguramente judaica e judaico-cristã.
    • Hegesipo atribui o uso dessa expressão a Tiago, irmão do Senhor.
    • Nos Evangelhos Sinóticos, o sumo sacerdote usa “a Potência” para Deus, ao menos em Marcos e Mateus.
    • Lucas acrescenta “de Deus”, como faz em Atos 8.
    • Isso sugere que sua fonte talvez trouxesse apenas “a grande potência”.
    • Na Bíblia, El significa Deus e também “Potência”.
    • Há mais razão para supor uma fonte judaico-cristã.
  • Mesmo que parte da tradição sobre Simão venha dos helenistas, ela continua marcada por hostilidade.
    • Haenchen considera possível que a primeira parte do relato derive de tradição preservada pelos helenistas.
    • A deificação de Simão por seus concidadãos lembra a de Herodes Agripa.
    • Herodes Agripa foi punido por permitir que a multidão o chamasse deus.
    • Em Atos 12, Lucas evita atribuir ao próprio Herodes Agripa a pretensão de ser deus.
    • Lucas coloca o título divino na boca do povo, como faz no caso de Simão.
    • A intenção das duas fontes é criticar alguém que aceita ser posto em pé de igualdade com Deus.
    • O relato inteiro contém hostilidade contra Simão.
  • A hostilidade da fonte permite duvidar de que Simão tenha reivindicado ser Deus ou deus.
    • O Simão histórico provavelmente não afirmou ser Deus ou deus, assim como Herodes Agripa provavelmente também não.
    • Os admiradores de Simão, pertencentes segundo Lucas à religião samaritana e tão monoteístas quanto os judeus, provavelmente não lhe deram título que o igualasse a Deus.
    • A acusação vem dos adversários de Simão e dos simonianos.
    • No fim do primeiro século, havia hostilidade contra Simão e os simonianos entre cristãos ligados à comunhão das Igrejas.
    • A acusação de aceitar ser divinizado, e talvez a acusação de magia, pode ser atribuída a essa hostilidade.
  • Atos não menciona gnosticismo na passagem sobre Simão.
    • Na época de Atos, o gnosticismo mal havia aparecido.
    • Se há alguma alusão ao gnosticismo em Atos, ela se refere a Éfeso, não à Samaria.
    • Em Atos 20:29—30, Paulo prediz aos anciãos de Éfeso o aparecimento de “lobos ferozes”.
    • Paulo diz que, dentre eles mesmos, surgirão homens que falarão coisas perversas para arrastar discípulos.
    • Se isso se refere aos gnósticos, Lucas situa o gnosticismo depois de Paulo, e não durante sua vida.
  • A hostilidade contra Simão em Atos decorre mais de risco de cisma do que de heresia gnóstica.
    • Simão não pede simplesmente o Espírito Santo para fazer milagres.
    • Ele pede o direito de dar o Espírito Santo pela imposição das mãos.
    • Em outras palavras, pede o poder de confirmar.
    • De fato, pede ser bispo, isto é, ter na Samaria os mesmos poderes dos apóstolos em Jerusalém.
    • Aos olhos dos apóstolos, o perigo não é a heresia, mas o cisma.
    • O perigo também é permitir que um grupo cristão se organize com certa autonomia.
    • Simão não pede autonomia completa, pois oferece dinheiro.
    • Ele oferece precisamente o que Paulo oferecerá para obter o direito de pregar o Evangelho à sua maneira entre os pagãos.
    • Em Gálatas 2:10, Paulo recorda a condição concedida: “Somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer”.
    • Lembrar-se dos pobres significava enviar dinheiro à comunidade de Jerusalém.
    • Os pobres, ebionim, eram os cristãos judaicos depois chamados ebionitas.
  • A oferta de Simão pode ser entendida à luz do acordo entre Paulo e Jerusalém.
    • O exemplo de Paulo mostra que os apóstolos podiam aceitar dons em troca de certa autonomia.
    • Os dons indicavam que a autonomia não era completa.
    • Assim como o imposto do Templo ligava os judeus do mundo inteiro a Jerusalém, a coleta ligava todos os cristãos à Igreja-mãe.
    • Se Simão é personagem fictício que representa Paulo na fonte de Lucas, os apóstolos nunca teriam aceitado tal contrato.
    • Nesse caso, Paulo teria interpretado erroneamente seu acordo com eles.
    • A coleta de Paulo teria sido feita em vão.
    • O dom da coleta não diminuiu a hostilidade dos cristãos judaicos contra Paulo.
    • A prova imposta por Tiago a Paulo causou sua prisão.
    • Se os romanos não o tivessem protegido ao prendê-lo, essa prova poderia ter causado sua morte.
  • Se o relato se refere de fato a Simão, a recusa apostólica pode ter sido motivada pela proximidade da Samaria e por sua tradição separatista.
    • Talvez tenha sido a primeira vez que os apóstolos receberam tal pedido.
    • Naquele momento, o cristianismo ainda não se espalhara por toda a Palestina.
    • Poderia parecer natural não conceder autonomia, mesmo limitada, a Igrejas tão próximas de Jerusalém.
    • A condição samaritana de Simão também pode ter sido decisiva.
    • A pretensão samaritana de independência religiosa sempre fora insuportável aos judeus da Judeia.
    • Os apóstolos podem ter visto no pedido dos cristãos samaritanos o mesmo espírito separatista que os judeus atribuíam à Samaria havia séculos.
    • Assim como havia um duplo judaísmo por causa dos samaritanos, temia-se a instituição de um duplo cristianismo.
    • Simão foi visto como separatista ou cismático.
    • A principal acusação contra ele não foi inicialmente ser pai da simonia.
    • Essa acusação só se tornou importante depois.
    • A acusação principal era ser pai da heresia, entendida antes de tudo como cisma e separação.
  • A gnosticização posterior de Simão não explica sozinha por que ele foi considerado pai de todas as heresias.
    • Beyschlag explica corretamente que o Simão histórico não gnóstico pôde ser gnosticizado posteriormente.
    • Também foram gnosticizados o apóstolo João, o apóstolo Tomé, Filipe, Maria Madalena e o próprio Jesus.
    • Isso não basta para explicar por que Simão foi considerado pai de todas as heresias.
    • A explicação provável é que a comunidade chefiada por ele tenha sido a primeira a desejar ampla autonomia.
    • Se essa demanda gerou separação real de Jerusalém, o simonianismo deu o primeiro exemplo de cisma.
    • O cisma é o caminho da heresia.
    • É possível que, em um grupo derivado da Igreja simoniana, no início do século II, tenham aparecido as primeiras doutrinas claramente gnósticas.

3. Como se pode explicar a imagem de Simão em Justino

  • A sugestão de Justino de que Simão reivindicava ser um deus deriva provavelmente da mesma tradição que sustenta o relato de Lucas.
    • Justino parece sugerir, mais do que afirmar claramente, que Simão reivindicava ser um deus.
    • O relato de Lucas mostra que, no fim do primeiro século, alguns cristãos diziam que antes da conversão Simão se apresentava como “alguém grande”.
    • Também diziam que seus admiradores o chamavam “a grande potência”, isto é, o divinizavam.
    • Simão provavelmente era uma pessoa importante e prestigiosa entre seus concidadãos.
    • Sem esse prestígio, seria difícil explicar seu pedido aos apóstolos em Atos.
    • Se ele pediu ser uma espécie de bispo, é natural que tenha sido acusado de orgulho.
    • Essa acusação seria ainda mais natural se, após a recusa apostólica, ele se tornou chefe de uma Igreja separada.
    • Para representar esse orgulho, pode-se ter dito que ele afirmava ser deus ou Deus.
    • Talvez Lucas atenue a acusação ao colocar o título divino na boca do povo.
    • Talvez atenue também ao acrescentar “de Deus” a “grande potência”, distinguindo o título dado a Simão de Deus propriamente dito.
  • O relato de Lucas podia facilmente ser entendido como se Simão se apresentasse como ser divino.
    • Apesar das atenuações, o relato de Lucas podia sugerir que Simão se apresentava como ser divino.
    • Cristãos judaicos podiam reconhecer a expressão “a grande potência” na perífrase de Lucas.
    • Mesmo que Lucas ponha as palavras na boca do povo e não de Simão, muitos leitores podiam ignorar essa diferença.
    • A acusação podia facilmente recair sobre o próprio Simão.
    • Vários comentadores ainda fazem isso.
    • Lucas situa a glorificação de Simão no tempo anterior à conversão.
    • Depois da conversão, Lucas mostra Simão agindo com maior humildade diante dos apóstolos.
    • Essa nuance provavelmente passou despercebida para muitos leitores.
    • O fim do relato impressionou menos que o começo.
    • Escritores que citam o relato frequentemente desconsideraram ou transformaram essa nuance.
    • O erro de Justino sobre a estátua romana dedicada a Semo Sancus também pode ter contribuído.
    • A inscrição Semon; deo Sanco foi tomada por Justino como dedicação ao “deus Simão”.
    • Somado ao título “grande potência” entendido em seu sentido pleno, esse erro explica por que Justino pensou que Simão reivindicava ser deus ou Deus.
  • Justino provavelmente conhecia pouco de tradições diretamente simonianas ou samaritanas sobre Simão.
    • Embora samaritano, Justino parece retirar a maior parte do que diz sobre Simão dos Atos dos Apóstolos.
    • O que julgava saber talvez tenha vindo não de simonianos ou samaritanos, mas de cristãos judaicos.
    • Justino era de origem pagã.
    • Nasceu de pais cristãos em Nablus, nova cidade construída perto da antiga Siquém.
    • A população de Nablus provavelmente era majoritariamente pagã.
    • Justino provavelmente conhecia poucos compatriotas pertencentes à religião samaritana.
    • A afirmação de que quase todos os samaritanos consideravam Simão o primeiro Deus é questionável.
    • A comunidade romana provavelmente tinha tendência judaico-cristã, talvez já no tempo de Paulo.
    • Justino parece ter simpatia pelo cristianismo judaico, que não considera herético.
    • Ele pode ter tido ligações com cristãos judaicos do Oriente.
    • Deles pode ter aprendido tradições sobre os samaritanos em geral e Simão em particular.
    • Essas tradições teriam facilitado sua crença de que a estátua romana era de Simão e de que Simão fora a Roma.
    • As tradições conhecidas por Justino não precisam ser idênticas às pseudo-clementinas.
    • Há diferenças entre o que Justino diz sobre Helena e o que dizem as obras pseudo-clementinas.
    • Também há diferenças sobre Simão, pois as obras pseudo-clementinas o retratam menos como quem reivindica ser deus e mais como quem reivindica ser Salvador.
    • Mesmo diferentes das tradições clementinas, as tradições de Justino poderiam ser igualmente judaico-cristãs.
  • Justino não afirma de modo constante e preciso que Simão, Menandro ou Marcion reivindicavam ser deuses.
    • Em Apologia 1,26, Justino afirma primeiro que os demônios suscitam homens que reivindicam ser deuses.
    • Em seguida, fala de Simão, Menandro e Marcion, aparentemente os homens que teriam reivindicado ser deuses.
    • Nos parágrafos dedicados a cada um, ele não repete a acusação.
    • Nem mesmo no caso de Simão a acusação é repetida claramente.
    • Justino diz apenas que Simão foi tomado por deus, o que concorda com Atos.
    • O mesmo ocorre em Apologia 1,56 e no Diálogo 120.
    • Simão é tomado por deus, mas não se diz que ele mesmo tenha reivindicado isso.
    • Muito menos Justino diz que Menandro e Marcion reivindicaram ser deuses ou foram tomados por deuses.
    • A afirmação inicial torna-se duvidosa quando comparada com o restante do texto e com outros textos de Justino.
    • Heresiólogos posteriores exageraram o que Justino sugeriu.
    • Eles negligenciaram a diferença entre uma frase geral e vaga e afirmações mais constantes e precisas.
    • Desse modo, amplificaram as lendas.
  • A tradição heresiológica de que Simão e Menandro reivindicavam ser deuses não é tão sólida quanto Foerster pensava.
    • Foerster atribuiu grande valor à tradição em que Simão e Menandro aparecem como reivindicando divindade.
    • Ele observou que eram os únicos gnósticos dos quais isso era dito.
    • Concluiu que os heresiólogos não poderiam ter inventado esse traço com base em exemplos posteriores.
    • Contudo, o heresiólogo mais antigo, fonte de toda a tradição, não afirma isso claramente em seus textos mais precisos.
    • Quando Justino parece dizê-lo uma vez, aplica a acusação a três hereges, não apenas a Simão e Menandro.
    • A repetição de que Simão foi tomado por deus pode ser explicada por fatores diversos da veracidade histórica do fato.
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