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CERINTO

Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.

  • Capítulo VI: Cerinto
  • 1. Os adversários nas Epístolas Joaninas
  • O autor joanino, embora tenha sido considerado herege por alguns cristãos, também enfrentou adversários internos que se separaram de seu grupo e foram chamados de anticristos.
    • Em 1 João 2:18—19, afirma-se: “Muitos anticristos surgiram; por isso sabemos que é a última hora. Eles saíram de nós; pois, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; mas saíram para que ficasse claro que todos eles não são dos nossos”.
    • Em 1 João 2:22—23, afirma-se: “Quem é o mentiroso senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o Anticristo, aquele que nega o Pai e o Filho. Todo aquele que nega o Filho não tem o Pai”.
    • Em 1 João 4:1—5, ordena-se que os espíritos sejam provados, pois muitos falsos profetas saíram pelo mundo.
    • Em 1 João 4:2—5, todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus, enquanto todo espírito que não confessa Jesus não é de Deus e pertence ao espírito do Anticristo.
    • Em 2 João 7—11, muitos enganadores são descritos como aqueles que não confessam a vinda de Jesus Cristo em carne.
    • Em 2 João 7—11, quem vai além e não permanece na doutrina de Cristo não possui Deus, enquanto quem permanece nela possui o Pai e o Filho.
    • Em 2 João 7—11, recomenda-se não receber em casa nem saudar quem não traz essa doutrina, pois quem o saúda participa de sua obra má.
  • As passagens joaninas contra os adversários são obscuras e não provam de modo absoluto que se trate de docetistas.
    • A expressão “confessar que Jesus veio em carne” pode significar simplesmente confessar Jesus como Cristo encarnado.
    • O oposto de confessar que Jesus veio em carne aparece como não confessar Jesus, negar que Jesus é o Cristo ou negar o Filho.
    • Esses modos de negação podem designar simplesmente a incredulidade e não necessariamente o docetismo.
    • Em João, “Cristo” é quase sinônimo de “Filho de Deus”.
    • Confessar Jesus como Cristo encarnado equivale a confessá-lo como Filho de Deus encarnado.
    • A advertência “Todo aquele que nega o Filho não tem o Pai” aplica-se sobretudo aos judeus incrédulos.
    • Em 1 João 5:1, afirma-se: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo nasceu de Deus”.
    • Em 1 João 4:15, afirma-se: “Todo aquele que confessa que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus”.
    • Em 1 João 5:5, afirma-se: “Quem vence o mundo senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?”.
    • Em João 20:31, declara-se que o Evangelho foi escrito “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus”.
  • Algumas passagens só se explicam adequadamente se os adversários tinham sido cristãos próximos ao autor joanino.
    • A expressão “eles saíram de nós” pressupõe antiga pertença ao grupo.
    • A advertência contra quem “vai além e não permanece na doutrina” pressupõe contato com cristãos que se afastaram.
    • A recomendação de não receber esses homens em casa seria incompreensível se eles não tivessem sido aparentemente próximos do autor joanino.
    • Algumas passagens se dirigem melhor contra judeus incrédulos.
    • Outras só se compreendem como dirigidas contra cristãos considerados hereges.
  • A acusação joanina pode referir-se a dois tipos de docetismo, conforme se entenda que os adversários negavam a carne de Jesus Cristo ou negavam que Jesus, como Cristo, veio em carne.
    • Se a acusação for não confessar que Jesus Cristo veio em carne, trata-se de docetismo semelhante ao de Saturnilo.
    • Nesse caso, o herege afirmaria que Jesus não teve carne real, mas apenas aparência de carne.
    • Se a acusação for não confessar que Jesus, como Cristo, veio em carne, pode tratar-se de incredulidade ou de docetismo semelhante ao de Cerinto.
    • Nesse segundo caso, o herege afirmaria que Jesus e o Cristo não eram idênticos, embora Cristo falasse e agisse por meio de Jesus.
  • Cerinto, segundo Irineu, ensinava uma distinção profunda entre Jesus e Cristo.
    • Em Contra as Heresias 1,26,1, Irineu afirma que Cerinto ensinava que Jesus era homem como os outros.
    • Jesus seria filho de José e Maria.
    • Por ser mais justo e sábio que os outros, Cristo teria descido sobre Jesus no batismo.
    • A partir de então, Jesus teria anunciado o Pai desconhecido e realizado milagres.
    • No fim, Jesus teria morrido e ressuscitado.
    • Cristo teria retornado ao Pai.
    • Cristo não poderia sofrer nem morrer por ser ser puramente espiritual.
    • Em certo sentido, para Cerinto, Jesus não era o Cristo.
    • Cristo seria Espírito puro e Filho de Deus, enquanto Jesus seria puramente humano.
    • Ao mesmo tempo, Cerinto não afirmava que o corpo de Jesus fosse apenas aparência.
  • O docetismo talvez tenha surgido ainda durante a vida do autor joanino, possivelmente com Cerinto na mesma região.
    • Irineu situa Cerinto na Ásia, isto é, na província de Éfeso.
    • Segundo a tradição, o Quarto Evangelho foi escrito na mesma província da Ásia Menor.
    • Se o autor do Quarto Evangelho conheceu algum docetismo, provavelmente conheceu o de Cerinto.
    • Também é possível que o autor joanino tenha tido contato com círculos de Antioquia ou Samaria e conhecido docetismo semelhante ao combatido por Inácio de Antioquia.
    • A variante muito antiga de 1 João 4:3, “todo espírito que anula Jesus”, ajusta-se bem a Cerinto.
    • Cerinto distinguia tão profundamente a natureza divina e a natureza humana em Jesus Cristo que fazia dele duas pessoas.
    • Essa distinção podia parecer anular a unidade do Salvador.
  • Cerinto teria ensinado não apenas um docetismo cristológico, mas também uma doutrina segundo a qual o mundo foi criado por uma potência separada do Deus supremo.
    • Segundo Irineu, o mundo não foi criado pelo “primeiro Deus”.
    • O mundo teria sido criado por “uma certa potência fortemente separada e distante dessa primeira autoridade suprema que está acima do universo”.
    • A potência criadora não conheceria o Deus que está acima de tudo.
    • Cerinto poderia ter sido o primeiro gnóstico propriamente dito, caso tenha separado o verdadeiro Deus da potência criadora e declarado que essa potência não conhecia o verdadeiro Deus.
    • Irineu não afirma que Cerinto identificava essa potência com o Deus do Antigo Testamento.
    • Se essa identificação não existisse, faltaria ao criador de Cerinto um traço essencial do Demiurgo gnóstico.
    • A hipótese de que a potência criadora fosse o Deus do Antigo Testamento continua possível, pois seria difícil explicar de outro modo a ignorância dela em relação ao Deus supremo.
  • A doutrina cerintiana da criação é difícil de explicar se o Deus do Antigo Testamento permanecia para Cerinto como verdadeiro Deus.
    • A má administração do mundo não bastaria para condenar o ato criador em si.
    • Cerinto talvez tenha julgado a criação indigna de Deus, como talvez fizeram os magharianos.
    • Os magharianos afirmavam que Deus não criou diretamente o mundo, mas mandou um anjo criá-lo.
    • No caso maghariano, o anjo conhece Deus e lhe obedece.
    • Assim, Deus continua sendo criador em intenção, mesmo sem criar diretamente.
    • A comparação com Simão, o Mago, também é insuficiente.
    • Em Irineu, o Pensamento de Deus em Simão conhece a vontade do Pai e dá origem a anjos e potências que fazem o mundo.
    • Em Cerinto, falta a figura intermediária do Pensamento, que explicaria por que os criadores não conhecem Deus.
    • Os anjos de Simão eram provavelmente administradores, e Deus continuava sendo o Criador.
  • A potência criadora de Cerinto talvez só possa ser compreendida como o Deus do Antigo Testamento, embora Irineu não o diga expressamente.
    • A distinção entre Deus criador e Deus verdadeiro provavelmente não é anterior ao fim do primeiro século.
    • Essa distinção se liga à ideia de que o Deus revelado pelo Salvador ainda não fora revelado nem conhecido no Antigo Testamento.
    • Se o criador de Cerinto não conhece Deus, provavelmente é uma potência que conhece e ensina, não uma força material inconsciente.
    • Por isso, a potência criadora separada de Deus parece só poder ser o Deus do Antigo Testamento.
    • Irineu, contudo, não afirma isso claramente.
    • No caso de Saturnilo, Irineu afirma explicitamente que o Deus dos judeus é contado entre os anjos criadores.
    • A ausência dessa precisão em Cerinto torna a doutrina mais incerta.
  • A doutrina atribuída a Cerinto pode ter sido sugerida por um cristianismo muito próximo dele, especialmente o joanino.
    • Surge a questão de saber se Cerinto encontrou tais ideias em um gnosticismo anterior.
    • Também se pode perguntar se uma doutrina cristã próxima não lhe sugeriu tais formulações.
    • Irineu relata o encontro lendário entre o autor joanino e Cerinto nos banhos públicos.
    • Segundo o relato de Irineu, o autor joanino, ao reconhecer Cerinto, saiu correndo dos banhos e gritou: “Fugi, para que o teto não caia, pois Cerinto, o inimigo da verdade, está aqui”.
    • O relato talvez seja apenas lenda, pois tudo o que Irineu diz sobre o autor joanino deve ser tratado com cautela.
    • Mesmo como lenda, ele mostra que, para Irineu, o autor joanino e Cerinto se conheciam.
  • A cristologia do Quarto Evangelho contém uma dualidade que poderia ter favorecido a interpretação cerintiana.
    • No Jesus de João há dualidade mais profunda do que no Jesus dos Sinóticos.
    • Por um lado, Jesus aparece como homem semelhante aos demais, nascido em Nazaré e considerado filho de José e Maria.
    • Por outro lado, Jesus é identificado com o Logos eterno que desceu do céu.
    • O comportamento de Jesus no Quarto Evangelho parece muitas vezes o de um Deus que caminha acima da terra, e não sobre ela.
    • Käsemann caracteriza a cristologia joanina como um docetismo ainda “ingênuo”, não reconhecido como perigo.
    • L. Schottroff nega que se trate propriamente de docetismo, pois a humanidade de Jesus não é questionada.
    • Schottroff mostra, porém, que o divino e o humano em Jesus joanino são como dois planos paralelos e distintos.
    • De um lado, há um homem que nasce, vive e morre como todos.
    • De outro, há um ser divino que habita nele, não sofre mudança ou limite real e não é verdadeiramente tocado pelo mundo.
    • Essa forma de docetismo coincide com o que Irineu atribui a Cerinto.
  • O docetismo de Cerinto poderia derivar do Evangelho de João, embora o autor joanino pudesse condenar uma dedução excessiva de suas próprias ideias.
    • O autor joanino poderia ter combatido ideias derivadas das suas, mas levadas além delas.
    • João às vezes supõe união muito íntima entre o Jesus divino e o Jesus terreno.
    • João 1:14 afirma: “E o Logos se fez carne”.
    • L. Schottroff tem dificuldade em explicar esse versículo segundo sua teoria.
    • Käsemann critica a exegese tradicional que faz de João 1:14 o centro do Quarto Evangelho.
    • Mesmo assim, João 1:14 permanece no texto e não pode ser eliminado.
    • Não é convincente afirmar, com Käsemann, que não há teologia da cruz em João.
    • Para João, a cruz é vitória de Cristo, mas isso também ocorre em Paulo.
  • O Quarto Evangelho admite tensões e contradições que Cerinto talvez tenha simplificado logicamente.
    • João mantém escatologia presente e escatologia futurista.
    • João opõe filhos de Deus e filhos do mundo como se houvesse duas origens primordiais.
    • João também afirma que alguém pode tornar-se filho de Deus.
    • João afirma que o Logos se fez carne.
    • João diz que é preciso renascer para ser salvo, como se tudo no ser humano tivesse de mudar.
    • João também sugere que o salvo pertence a Deus desde o princípio e estava destinado à salvação.
    • O pensamento joanino não pode ser reduzido a sistema.
    • A opinião atribuída a Cerinto simplificaria a cristologia joanina por uma lógica estrita que não corresponde ao estilo de João.
    • Ainda assim, tal opinião pode ter surgido de reflexão sobre o Evangelho.
  • A doutrina cerintiana da criação é muito mais difícil de deduzir do Quarto Evangelho do que sua cristologia.
    • A doutrina atribuída a Cerinto contradiz o início do Evangelho: “O Logos estava com Deus… todas as coisas foram feitas por meio dele”.
    • Cerinto, mesmo contradizendo certas afirmações de João, pode ter dependido dele.
    • Ele talvez tenha levado às últimas consequências a atitude anticosmica e antijudaica joanina.
    • Em João 17:25, o mundo não conheceu Deus.
    • Em João 14:17, o mundo não pode receber o Espírito da verdade.
    • Isso ainda não basta para dizer que o criador do mundo não conhece Deus.
    • Uma conclusão mais extrema poderia surgir da união entre antijudaísmo e atitude anticosmica.
    • João afirma frequentemente que os judeus não conhecem Deus.
    • Os judeus pensam conhecer um Deus essencialmente criador do mundo.
    • Poder-se-ia concluir primeiro que esse criador não é o verdadeiro Deus e depois que ele não conhece o verdadeiro Deus.
    • Se foi o criador quem instruiu os judeus por sua Lei e não os instruiu sobre o verdadeiro Deus, seria porque não o conhecia.
  • A doutrina da criação atribuída a Cerinto também contradiz João e talvez não seja tão antiga quanto seu docetismo.
    • João afirma que o Antigo Testamento dá testemunho de Cristo.
    • João não pensa que o Antigo Testamento ignorasse completamente a verdade sobre Deus.
    • Cerinto teria ido muito além de João na crítica ao judaísmo.
    • João ataca os judeus de seu tempo, mas não o Antigo Testamento.
    • Irineu não apresenta em Cerinto um antijudaísmo profundo e apaixonado como o que aparece em Saturnilo.
    • A doutrina da criação permanece fluida.
    • Ela não afirma que o Criador seja o Deus do judaísmo.
    • Ela também não afirma que ele seja um anjo.
    • A doutrina parece posterior ao docetismo atribuído a Cerinto.
    • Se João conheceu o docetismo de Cerinto, não parece ter conhecido sua doutrina da criação.
    • Se a conhecesse, teria ficado tão indignado com ela quanto com o docetismo.
    • Nenhuma outra obra do Novo Testamento parece conhecer claramente essa doutrina.
    • Inácio de Antioquia conhece o docetismo, mas não demonstra claramente conhecer essa doutrina da criação.
    • Irineu talvez tenha confundido Cerinto com uma escola posterior derivada dele.
    • Irineu ou sua fonte talvez tenham deformado e exagerado as ideias de Cerinto sobre esse ponto.
  • 3. Tradições contraditórias sobre Cerinto
  • As tradições antigas sobre Cerinto são confusas e contraditórias, o que torna incerto o retrato histórico apresentado por Irineu.
    • Em algumas tradições, Cerinto aparece como ultra-joanino e gnóstico.
    • Em outras, aparece como cristão judaico.
    • Às vezes, como em Irineu, ele é inimigo do autor joanino.
    • Em outras tradições, ele se confunde com o próprio autor joanino.
    • Em Irineu e em Pseudo-Tertuliano, provavelmente dependente do Syntagma de Hipólito e inspirado por Irineu, Cerinto parece gnóstico.
    • Heresiólogos posteriores combinam os dados de Irineu com um retrato muito diferente, o de Cerinto como cristão judaico.
    • Cerinto teria defendido a necessidade da circuncisão para os cristãos.
    • Teria se oposto a Pedro por batizar Cornélio, um pagão.
    • Teria se oposto a Paulo por não circuncidar Tito.
    • Os cerintianos teriam rejeitado as epístolas de Paulo.
    • Irineu apresenta Cerinto como principal adversário de João e afirma que João escreveu o Evangelho contra ele.
    • Na mesma época de Irineu, cristãos da Ásia Menor afirmavam o contrário: que o Quarto Evangelho não era de João, mas do herege Cerinto.
  • A pessoa e a doutrina de Cerinto já pareciam incertas quando se começou a falar dele.
    • É difícil saber se Cerinto foi o primeiro gnóstico propriamente dito ou um representante de cristianismo judaico ainda mais intransigente que o de Tiago, irmão do Senhor.
    • É difícil saber se ele foi o inimigo combatido por João nas epístolas e no Evangelho ou o próprio autor chamado João.
    • As tradições sobre Cerinto só aparecem muito tempo depois da época em que ele teria vivido.
    • Inácio não o conhece.
    • Policarpo não o conhece.
    • Hegesipo não o conhece.
    • Justino não o conhece.
    • Entre os heresiólogos, Irineu é o primeiro a nomeá-lo, por volta de 185.
    • Irineu o conhece apenas vagamente e fala de “um certo Cerinto na Ásia”.
    • Irineu dá pouquíssimas informações sobre sua doutrina.
    • Clemente de Alexandria não fala dele.
    • Tertuliano não fala dele.
    • A Epístola dos Apóstolos, apócrifo antignóstico provavelmente do século II, menciona Cerinto.
    • Nessa obra, Cerinto é associado a Simão, o Mago, formando com ele um símbolo duplo da heresia.
    • A Epístola dos Apóstolos não dá detalhes sobre sua doutrina.
    • Cerinto já parece nela uma figura lendária.
  • A combinação entre Cerinto gnóstico e Cerinto cristão judaico não se explica pela simples derivação do gnosticismo a partir do judaísmo.
    • Alguns estudiosos modernos poderiam negar a contradição por considerarem que o gnosticismo deriva do judaísmo.
    • Contudo, não é possível que um cristão judaico ensinasse que o verdadeiro Deus não é o criador do mundo e que esse criador não o conhece.
    • A única ideia que vincularia Cerinto ao cristianismo judaico é a tese de que Jesus teria sido inicialmente apenas homem como os outros.
    • Essa ideia também explica por que Irineu fala dos ebionitas logo depois de Cerinto.
    • Fora essa cristologia, os ebionitas nada têm em comum com o Cerinto descrito por Irineu.
    • Essa cristologia pode ser deduzida, de certo modo, do Evangelho de João.
    • Por isso, é mais natural vincular Cerinto ao autor joanino do que ao cristianismo judaico.
  • Os testemunhos que apresentam Cerinto como cristão judaico são tardios e menos confiáveis que os que o apresentam como gnóstico.
    • Esses testemunhos são essencialmente os de Epifânio e Filastro.
    • Filastro talvez apenas reproduza Epifânio, como pensou Carl Schmidt.
    • Epifânio está longe de ser testemunha confiável.
    • Epifânio é propenso a negligências, confusões e erros.
    • Irineu é mais antigo e mais confiável.
    • A Epístola dos Apóstolos associa Cerinto a Simão, o Mago, o que dificilmente ocorreria se ele não fosse tido como gnóstico.
    • Os Alogi, segundo Epifânio, atribuíam as obras joaninas a Cerinto.
    • O testemunho mais antigo sobre os Alogi parece ser o de Irineu em Contra as Heresias 3,11,9.
    • Irineu acusa certos homens de rejeitar o Evangelho de João, provavelmente os mesmos que Epifânio depois chama de Alogi.
    • Eles rejeitavam a ideia do Paráclito e o espírito profético, sendo provavelmente adversários dos montanistas.
    • Epifânio diz que havia Alogi em Tiatira, cidade da Lídia onde o montanismo prosperou até depois de meados do século III.
    • Irineu não os trata como hereges, mas como infelizes.
    • Epifânio diz que concordavam com a Igreja em tudo, exceto quanto à autenticidade dos escritos joaninos.
    • Irineu afirma que rejeitavam o Evangelho de João, mas não diz que rejeitavam o Apocalipse.
    • Se os Alogi do tempo de Irineu ligavam obras joaninas a Cerinto, provavelmente atribuíam a ele o Quarto Evangelho antes que o Apocalipse.
    • Isso indica que o viam mais como gnóstico que como cristão judaico.
    • Os três testemunhos mais antigos — Epístola dos Apóstolos, Irineu e Alogi do tempo de Irineu — convergem para fazer de Cerinto um gnóstico.
  • A transformação posterior de Cerinto em cristão judaico pode ser explicada por sua cristologia e por sua associação posterior ao Apocalipse.
    • A primeira razão é a ideia, atribuída por Irineu, de que Jesus era simplesmente homem antes do batismo.
    • Mesmo se essa ideia vier de reflexão sobre João, ela aproxima Cerinto dos cristãos judaicos.
    • Irineu fala dos ebionitas logo depois de Cerinto por causa dessa semelhança.
    • Pseudo-Tertuliano faz de Ebion, suposto mestre dos ebionitas, o sucessor de Cerinto.
    • Essa ideia absurda talvez já estivesse no Syntagma de Hipólito.
    • Epifânio e Filastro, dependentes desse Syntagma, acabam fazendo de Cerinto uma espécie de ebionita.
    • Epifânio parece até confundir Ebion com Cerinto.
    • Lipsius já observara que a fonte de Epifânio sobre Cerinto devia tratar dos ebionitas, isto é, dos cristãos judaicos, e não de Cerinto.
    • A segunda razão é que os Alogi, que no tempo de Irineu talvez só atribuíam o Evangelho de João a Cerinto, logo passaram a atribuir-lhe também o Apocalipse.
    • Como a Igreja considerava o Evangelho e o Apocalipse obras do mesmo autor, os Alogi também os aproximaram.
    • Como os Alogi eram adversários do espírito profético e o Apocalipse é uma profecia, a atribuição do Apocalipse a Cerinto tornou-se conveniente.
    • Daí surgiu um duplo retrato: Cerinto gnóstico a partir do Quarto Evangelho e Cerinto cristão judaico a partir do Apocalipse.
    • Se há dois Cerintos, talvez seja porque há dois Joões.
    • Como a tradição da Igreja uniu os dois autores joaninos, os Alogi também os uniram.
  • A atribuição do Apocalipse a Cerinto favoreceu a construção de um Cerinto milenarista e judaizante.
    • A autoridade do Apocalipse foi longamente discutida na Igreja.
    • A ideia de que o Apocalipse fosse de Cerinto foi mais bem recebida que a atribuição do Quarto Evangelho a ele.
    • A partir do século III, houve tendência a descrever a doutrina de Cerinto com base no Apocalipse.
    • Caio, sacerdote romano do início do século III, atribui a Cerinto ideias encontradas no Apocalipse porque o considera seu autor.
    • Dionísio de Alexandria conhece a opinião de que o Apocalipse era de Cerinto.
    • Dionísio não ousa adotar essa opinião, mas se interessa por ela porque percebe que o Apocalipse dificilmente é do mesmo autor que o Quarto Evangelho.
    • Dionísio não parece saber, ou não considera importante, que os mesmos homens atribuíam também o Quarto Evangelho a Cerinto.
    • Teodoreto pensa Cerinto como milenarista porque se apoia no Caio de Eusébio ou em Dionísio de Alexandria.
  • A citação de Dionísio Bar-Salibi sobre Hipólito não prova com segurança que Hipólito já atribuísse a Cerinto todo o retrato judaico-cristão posterior.
    • Caio sabia que alguns atribuíam também o Quarto Evangelho a Cerinto e compartilhava essa opinião.
    • Hipólito defendeu contra Caio a autenticidade joanina do Evangelho e do Apocalipse.
    • Dionísio Bar-Salibi, no século XII, preserva notícia sobre essa controvérsia.
    • O trecho latino atribui a Hipólito a informação de que Caio dizia que o Evangelho e o Apocalipse não eram de João, mas do herege Cerinto.
    • O mesmo trecho afirma que Cerinto ensinava a circuncisão, irritou-se com Paulo por não circuncidar Tito, chamou o apóstolo e seus discípulos de falsos apóstolos e operários fraudulentos, ensinou que o mundo foi criado por anjos, e falou de comida e bebida materiais e muitas blasfêmias.
    • A partir das palavras “e o bem-aventurado Hipólito levantou-se”, o texto já não é citação direta de Hipólito.
    • A descrição posterior pode resumir ideias encontradas por Dionísio Bar-Salibi em Epifânio e Eusébio.
    • Ainda assim, é possível que a heresia de Cerinto já tivesse sido ligada ao cristianismo judaico em Hipólito por causa da ordem das heresias em Irineu.
  • Pseudo-Tertuliano mostra confusão entre tradições gnósticas e judaico-cristãs sobre Cerinto.
    • Pseudo-Tertuliano parece seguir Irineu de modo confuso.
    • Atribui a Cerinto algumas ideias de Carpocrates, que em Irineu aparece imediatamente antes de Cerinto.
    • Atribui a Carpocrates algumas ideias de Cerinto.
    • Por isso, afirma que, para Cerinto, Cristo, isto é, Jesus, era apenas homem.
    • Esquece o Cristo divino que, segundo o Cerinto de Irineu, teria descido sobre Jesus.
    • Liga Cerinto ao cristianismo judaico ao fazer de Ebion seu sucessor.
    • Ao mesmo tempo, atribui a Cerinto a ideia de que o mundo foi criado pelos anjos.
    • Também lhe atribui a ideia de que o Deus dos judeus é apenas um anjo.
    • Também lhe atribui a ideia de que a Lei vem dos anjos.
    • Essas ideias são claramente gnósticas.
  • Cerinto, se existiu, foi provavelmente mais gnóstico que cristão judaico.
    • O retrato do Cerinto cristão judaico parece obra de heresiólogos relativamente tardios.
    • Esses heresiólogos foram enganados pela proximidade entre o relato sobre Cerinto e o relato sobre os ebionitas em Irineu.
    • Também foram enganados pela cristologia de Cerinto, que o aproxima dos ebionitas, embora provavelmente derive de outra fonte.
    • Foram ainda enganados porque alguns cristãos, que talvez inicialmente atribuíssem apenas o Quarto Evangelho a Cerinto, passaram a atribuir-lhe também o Apocalipse e as ideias nele encontradas.
  • A oposição entre Cerinto e o autor joanino pode ser explicada pela semelhança entre suas doutrinas e pela radicalização cerintiana de temas joaninos.
    • A cristologia de Cerinto pode ter sido deduzida do Quarto Evangelho por alguém que buscava sistematizá-lo.
    • A ideia de que o mundo vem não do verdadeiro Deus, mas de uma potência inferior, pode ser dedução extrema da atitude anticosmica e antijudaica joanina.
    • Cerinto pode ter sido discípulo do autor joanino.
    • Ele teria ido além do mestre, deduzindo do ensinamento dele ideias que o próprio autor joanino não professava.
    • Seria natural que o autor joanino protestasse contra essa interpretação de sua doutrina e rejeitasse Cerinto com horror.
    • Isso explicaria ao mesmo tempo a hostilidade e a semelhança entre ambos.
    • O Quarto Evangelho não precisa ser entendido como escrito contra Cerinto.
    • Ele parece antes dirigido contra a incredulidade dos judeus ortodoxos.
    • A Primeira e a Segunda Epístola de João, provavelmente posteriores ao Evangelho, podem atacar interpretações docéticas que Cerinto alegava tirar dele.
    • Os Alogi talvez tenham atribuído as obras joaninas a Cerinto por perceberem a semelhança das doutrinas.
    • Também podem ter explorado essa semelhança para atacar o Evangelho de João por meio de Cerinto, como cristãos judaicos atacaram Paulo por meio de Simão.
  • 4. Algumas razões para duvidar de sua existência
  • O retrato coerente de Cerinto permanece incerto, pois sua doutrina combina elementos de épocas diferentes e só é testemunhada tardiamente.
    • O retrato reconstruído retorna em parte ao de Irineu.
    • Contudo, o retrato de Irineu é vago e abstrato.
    • A doutrina nele apresentada reúne duas ideias que não parecem pertencer exatamente ao mesmo momento.
    • Cerinto só é mencionado muito depois do tempo em que teria vivido.
    • Justino, que esteve em Éfeso, não o conhece.
    • Inácio de Antioquia conhece o docetismo, mas não menciona Cerinto.
    • Inácio também não demonstra conhecer hereges que distinguissem o verdadeiro Deus do Criador.
    • Na Epístola dos Apóstolos, talvez a obra mais antiga que o menciona, Cerinto já parece figura lendária e quase mítica.
    • Ele aparece como símbolo do herege, ao lado de Simão, o Mago.
  • A existência de Cerinto pode ser questionada porque Irineu lhe atribui ideias gerais dos gnósticos do século II.
    • Eugene de Faye observa que Irineu atribui a Cerinto ideias geralmente próprias dos gnósticos do século II.
    • Uma doutrina comum e banal na segunda geração gnóstica dificilmente teria sido preservada intacta por um século.
    • Uma ideia particular ou traço marcante poderia sobreviver à memória de seu autor.
    • Doutrinas inteiras, compostas por elementos comuns a sistemas posteriores, seriam facilmente confundidas com outros sistemas.
    • O relato de Filastro é cheio de confusões ainda mais estranhas.
    • O mesmo pode ser dito de Epifânio, de quem Filastro talvez dependa.
  • A ideia singular de que Cristo ainda não ressuscitou talvez derive de erro de interpretação de Epifânio.
    • Eugene de Faye considera essa ideia uma marca distintiva de Cerinto.
    • Caius, citado por Eusébio, afirma que Cerinto ensinava que, após a ressurreição, o reino de Cristo seria terreno.
    • Caius também afirma que a carne reviveria em Jerusalém e serviria às paixões e prazeres.
    • A “ressurreição” mencionada por Caius provavelmente se refere à ressurreição geral, não à ressurreição de Cristo.
    • Epifânio talvez tenha interpretado erroneamente essa palavra como se tratasse da ressurreição de Cristo.
    • Epifânio também se contradiz.
    • Em Panarion 28,6, afirma que, segundo Cerinto, Cristo ainda não ressuscitou.
    • Em Panarion 28,1, afirma que, segundo Cerinto, Cristo ressuscitou.
    • Não há razão suficiente para atribuir a Cerinto essa ideia singular.
  • Certas tradições heresiológicas aproximam Cerinto demais dos coríntios de Paulo, o que pode indicar confusão nominal.
    • Epifânio afirma que 1 Coríntios 15 foi dirigida contra Cerinto.
    • Segundo Epifânio, alguns cerintianos negavam a ressurreição.
    • Paulo diz algo semelhante sobre certos coríntios em 1 Coríntios 15:12.
    • Epifânio afirma também que havia entre os cerintianos um batismo pelos mortos.
    • Esse costume existia entre os coríntios, conforme 1 Coríntios 15:29.
    • Epifânio afirma que Paulo chamou Cerinto e seus discípulos de “falsos apóstolos e operários de iniquidade”.
    • Isso implica que 2 Coríntios também teria sido escrita contra Cerinto, conforme 2 Coríntios 11:13.
    • Teodoro Bar-Konai afirma que Cerinto pertencia a uma família judaica e vivia em Corinto.
    • Os vínculos entre Cerinto, Corinto, cerintianos e coríntios sugerem possível confusão por semelhança de nomes.
    • Essa confusão poderia ter surgido entre cristãos orientais que falavam línguas nas quais apenas as consoantes eram escritas.
    • Em grego, a confusão seria mais difícil, pois “coríntio” é korinthios, enquanto “cerintiano” é kerinthianos.
    • Em uma língua oriental, a confusão entre cerintianos e coríntios poderia ser mais fácil.
    • Epifânio, palestino e conhecedor de línguas semíticas, pode ter encontrado a confusão em suas fontes orientais.
    • Um heresiarca chamado Cerinto poderia ter sido criado a partir de “coríntios”, como o heresiarca Ebion foi criado a partir dos ebionitas.
    • O nome Cerinto poderia ter sido escolhido porque, em grego, Corinto era apenas nome de cidade, enquanto Cerinto também podia ser nome masculino.
  • A hipótese de uma ligação entre Cerinto e Apolo permanece especulativa, mas se apoia em alguns indícios.
    • Se Cerinto é nome formado a partir dos “hereges” coríntios, Apolo e Cerinto poderiam ser o mesmo homem.
    • Apolo poderia ter sido chamado “o coríntio” ou “Corinto” por adversários que queriam recordar sua intervenção infeliz em Corinto.
    • Essa hipótese é muito arriscada e não necessária.
    • Hipólito, no Elenchos, afirma que Cerinto foi “instruído no Egito” ou “instruído na escola dos egípcios”.
    • Em tudo mais, Hipólito segue Irineu sobre Cerinto.
    • A informação sobre o Egito é a única diferença e aparece toda vez que Hipólito fala de Cerinto.
    • Hipólito, portanto, considerava essa informação certa.
    • Carl Schmidt explica a notícia pelo desejo de Hipólito de ligar heresias gnósticas à filosofia grega, cultivada principalmente no Egito.
    • O testemunho de Hipólito não é desprezível, pois no Elenchos ele é mais erudito que no Syntagma.
    • Ele pode ter lido a informação em Caius, em algum Alogi ou em Praxeas, adversário dos montanistas.
    • A notícia de origem egípcia não contradiz Irineu, pois alguém de origem egípcia poderia ter ensinado na província da Ásia.
    • Apolo também era de origem egípcia.
  • A atribuição do Quarto Evangelho a Cerinto pelos Alogi pode aproximar-se da hipótese de uma ligação com Apolo, mas permanece incerta.
    • Se “cerintianos” for deformação de “coríntios”, e se Cerinto foi derivado desse nome, a afirmação dos Alogi se aproximaria da hipótese de uma autoria ligada a Apolo.
    • Se Cerinto for deformação de algum apelido dado a Apolo, a aproximação também seria possível.
    • Essas especulações são provavelmente arriscadas demais.
    • A dúvida sobre a historicidade de Cerinto baseia-se sobretudo no fato de que os heresiólogos só o conhecem muito tempo depois de sua suposta vida.
    • Também se baseia no fato de que se sabe muito pouco sobre ele.
    • A semelhança entre seu nome e Corinto apenas lança uma sombra sugestiva sobre possível invenção do heresiarca.
  • 5. Conclusão
  • A figura de Cerinto permanece cercada de obscuridade, e até sua existência pode ser posta em dúvida.
    • Cerinto pode ter sido inventado para explicar o nome de uma seita.
    • A própria seita é misteriosa, ao menos se tiver relação com os coríntios de Paulo.
    • Os coríntios parecem ter desaparecido muito rapidamente.
    • Também é possível que alguém de outro nome tenha recebido o nome Cerinto.
    • Se Cerinto existiu, não é impossível que tenha sido o autor do Evangelho de João, como sustentavam os Alogi.
    • Os Alogi vinham da mesma região de onde procede o Evangelho.
    • A hipótese que liga Apolo ao Quarto Evangelho não pode ser assegurada.
    • O autor poderia ter sido um certo Cerinto.
    • Se a atribuição a João apóstolo é impossível e se se busca uma tradição antiga alternativa, a atribuição a Cerinto ao menos existe na Antiguidade.
    • A atribuição a João, o presbítero, por exemplo, não possui o mesmo tipo de testemunho antigo.
  • Renan considerou possível, ainda que obscura, a ligação de Cerinto com os escritos joaninos.
    • Renan escreveu que Cerinto parece ser um dos artífices desses livros singulares.
    • Cerinto passa ao mesmo tempo por adversário que os escritos joaninos querem vencer e por verdadeiro autor desses escritos.
    • A obscuridade da questão joanina é tamanha que não se pode dizer que essa última atribuição seja impossível.
    • Essa atribuição explicaria o mistério sobre onde esteve o Quarto Evangelho durante quase cinquenta anos.
    • Também explicaria a forte oposição feita a ele.
    • A paixão particular com que Epifânio combate essa ideia poderia sugerir que ela não era infundada.
  • A hipótese de Cerinto como autor do Quarto Evangelho é hoje geralmente rejeitada, mas essa rejeição talvez dependa de uma imagem exagerada dos hereges.
    • Se Cerinto fosse o autor do Quarto Evangelho, isso significaria que Irineu ou sua fonte simplificou excessivamente sua doutrina.
    • Significaria também que sua doutrina foi seriamente deformada.
    • O juízo sobre ele deveria então ser feito a partir do Quarto Evangelho.
  • Se Cerinto existiu e não escreveu o Quarto Evangelho, ainda assim parece ter tido relação com seu autor.
    • O tipo de docetismo atribuído a Cerinto pode ser ligado a ideias joaninas.
    • Cerinto talvez tenha pertencido ao grupo que, segundo 1 João 2:18—19, separou-se do autor joanino.
    • Baseando-se no Quarto Evangelho, ele pode ter elaborado teorias talvez pioneiras sobre a distinção entre natureza divina e natureza humana em Jesus Cristo.
    • Pode ter distinguido essas naturezas tão fortemente que acabou criando duas pessoas.
    • Em uma primeira tentativa de formulação, não é surpreendente que o alvo tenha sido ultrapassado e precisasse de correção.
  • A teoria atribuída a Cerinto sobre a criação do mundo pode resultar de confusão de Irineu com gnósticos do século II.
    • Irineu provavelmente confundiu, nesse ponto, a doutrina de Cerinto com a dos gnósticos posteriores, como talvez fez no caso de Simão.
    • Cerinto, ou o grupo de discípulos separado do autor joanino, talvez se opusesse a esse autor apenas no docetismo.
    • Como o autor joanino, Cerinto talvez pensasse que o mundo não conhece Deus.
    • Também talvez pensasse que o mundo é dominado por uma potência muito diferente e distante do Pai.
    • Permanece duvidoso que essa potência fosse criadora para Cerinto.
    • Não há traço dessa doutrina entre escritores cristãos antes de cerca de 110.
    • Não há em Cerinto outros traços que confirmem, por exemplo, um antijudaísmo mais radical que o de João.
    • Ainda assim, essa doutrina poderia ter sido deduzida do Evangelho de João por alguém que levou ao extremo suas tendências anticosmicas e antijudaicas.
    • Ela talvez testemunhe o mesmo cuidado analítico e a mesma preocupação de distinguir claramente que aparecem na cristologia atribuída a Cerinto.
  • A possível doutrina cerintiana da potência criadora poderia ser uma tentativa de resolver tensões internas do Evangelho de João.
    • Quando Cerinto divide Jesus Cristo em duas pessoas, parece tentar esclarecer a doutrina joanina em que Jesus age às vezes como Deus e às vezes como homem.
    • De modo semelhante, ele poderia tentar explicar por que o mundo aparece em João ora como obra de Deus, ora como inimigo de Deus.
    • Em João 12:47, Cristo diz que veio salvar o mundo.
    • Em João 6:33 e 6,51, Cristo é associado à vida dada ao mundo.
    • Em João 17:9, Cristo afirma: “Não rogo pelo mundo”.
    • Para evitar essa contradição aparente, Cerinto talvez tenha distinguido entre o que é “de Deus” e procede diretamente dele e o que é “do mundo”.
    • O que é “do mundo” procederia de Deus apenas por intermédio do mundo.
    • Se o mundo está contra Deus, parece difícil dizer que ele procede diretamente de Deus.
    • Cerinto pode ter inventado um novo intermediário, uma potência criadora do mundo que não era Deus nem o Logos.
    • Essa potência seria distante e separada de Deus e do Logos, embora procedesse deles em última instância.
    • É provável que, para Cerinto, essa potência não fosse um princípio absoluto como um segundo Deus.
    • Ir tão longe equivaleria a chegar de uma vez ao maniqueísmo, que só apareceu no século III.
    • Quando Irineu fala de “primeiro Deus”, parece sugerir um segundo, mas essa linguagem heresiológica não é precisa.
    • Mesmo nos gnósticos do século II, a potência inferior não era propriamente um “Deus”.
    • Para nomear o suposto segundo Deus, Irineu usa o termo vago “potência”.
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