Action unknown: copypageplugin__copy
gnosis:pagels:evangelho-judas:sacrificio
Sacrifício
Elaine H. Pagels; Karen L. King. Reading Judas: the Gospel of Judas and the shaping of Christianity. New York: Viking, 2007.
- O autor do Evangelho de Judas traça sua caricatura selvagem dos “doze” como sacerdotes no altar conduzindo multidões ao erro e oferecendo sacrifício humano para apontar uma contradição que considera escandalosa: enquanto cristãos se recusam a praticar o sacrifício, muitos o reintroduzem no centro do culto cristão ao afirmar que a morte de Jesus é um sacrifício pelo pecado humano.
- O Evangelho de Judas também retrata a morte de Jesus como sacrifício — Jesus diz a Judas que ao entregá-lo “sacrificarás o ser humano que me carrega” — Evangelho de Judas 15, 4
- O que o autor considera errado não é em si a interpretação sacrificial da morte de Jesus, mas o ensinamento de bispos como Inácio e Irineu de que os que se “aperfeiçoam” pela morte do mártir garantem a ressurreição física — esses líderes estão errados tanto no “Deus” que adoram quanto em crer que o corpo físico ressuscitará à vida eterna
- A ignorância acerca da verdadeira natureza do universo torna as pessoas presa fácil do erro dos falsos deuses, e Jesus apareceu na terra para revelar a verdadeira natureza do universo e do tempo final a fim de que os que compreendem essas coisas se afastem da adoração de falsos deuses — com toda a sua violência sacrificial e imoralidade — e descubram sua verdadeira natureza espiritual.
- Jesus ensina a Judas que há um reino divino glorioso acima do mundo material e uma raça santa imortal acima da raça humana perecível — esses são “os mistérios do reino” — Evangelho de Judas 9, 20
- Quase metade do ensinamento de Jesus é dedicada a instruir Judas sobre a existência e a estrutura do reino celestial — sobre como este mundo e os deuses que o governam vieram à existência, e sobre o que acontecerá no fim dos tempos
- O Evangelho de Judas se abre com Jesus encontrando seus discípulos orando e dando graças enquanto abençoam o pão para o culto — mas ele ri deles, pois praticam a eucaristia para que “seu Deus receba louvor”, sem entender que adoram o deus errado.
- Jesus explica que não os está zombando — ri porque não entendem que estão praticando a eucaristia para um falso deus; eles erroneamente pensam que Jesus é filho do “Deus” deles — Evangelho de Judas 2, 6-9
- Quando Jesus tenta instruir os discípulos, todos exceto Judas resistem, irritando-se quando ele zomba de suas piedades e blasfemando contra ele — provando que o “Deus que está dentro de vós” é fácil de provocar — Evangelho de Judas 2, 12-15
- Apenas Judas é capaz de permanecer diante de Jesus e reconhecer quem ele é: “Sei quem és e de qual lugar vieste” — Evangelho de Judas 2, 16-22
- Jesus ensina a Judas que além do mundo visível existe um reino celestial onde um grande Espírito invisível habita numa nuvem infinita de luz, e que Deus primeiro criou o reino invisível celestial, preenchendo-o de seres divinos, luzes e reinos eternos chamados eons — cada um com miríades incontáveis de anjos.
- Em contraste com esse reino eterno de luz, o mundo visível existe apenas como uma espécie de escuridão e desordem primordiais
- Esse relato explica como o mal, a injustiça e o sofrimento vieram a existir num mundo criado por um Deus amoroso e onipotente: os anjos criados para governar este mundo participam da natureza do mundo que governam, sendo por isso limitados em poder e compreensão
- Como no Livro do Apocalipse, o Evangelho de Judas ensina que Deus fixou um limite para o tempo em que esses anjos inferiores governarão — no fim dos tempos os seres celestiais menores serão destruídos, junto com as estrelas, os planetas e as pessoas que eles desviaram do caminho.
- Apenas o autor do Evangelho de Judas, em toda a literatura cristã conhecida, afirma que os que cometem esses pecados o fazem em nome de Jesus — que são “cristãos”
- A forma como uma pessoa imagina Deus afeta a forma como vive: os “doze” acreditam que seu Deus exige sacrifício, não apenas a morte de Jesus, mas também a morte “sacrificial” de suas esposas e filhos — que representam os mártires do próprio tempo do autor encorajados pelos líderes da Igreja a morrer pela fé
- O problema fundamental, segundo o Evangelho de Judas, é que os “doze” — representantes dos líderes da Igreja — não sabem quem Jesus é nem quem é Deus, e acreditam erroneamente que Deus exige sofrimento e sacrifício.
- A questão que o autor levanta é: que tipo de Deus exigiria que alguém — quanto mais seu próprio filho — morresse em agonia antes de aceitar seus seguidores? Isso faria de Deus um ser incapaz ou relutante em perdoar a transgressão humana sem derramamento de sangue violento
- O Evangelho de Judas e outros textos recém-descobertos mostram que alguns cristãos argumentavam que as pessoas cometem um grave erro ao adorar um Deus tão limitado, irado e até cruel: quando Jesus zomba da eucaristia dos discípulos, o autor diz que eles não percebem que adoram em erro — não o verdadeiro Deus, mas, como Jesus lhes diz, “o vosso Deus” — Evangelho de Judas 2, 6-9
- O Evangelho de Judas não é a única voz dissidente — o Testemunho da Verdade, descoberto em Nag Hammadi em 1945, denuncia os que acreditam que confessar verbalmente ser cristão e entregar-se à morte humana garante a vida eterna, chamando-os de “mártires vazios” que testemunham apenas de si mesmos e não conhecem o verdadeiro Deus.
- O Apocalipse de Pedro ataca especialmente “os que se chamam bispos e diáconos, como se tivessem recebido sua autoridade de Deus” — chamando-os de “canais secos” — Apocalipse de Pedro 79, 22-31 — e os acusa de dizer aos irmãos: “Por meio desse sofrimento nosso Deus tem misericórdia, pois a salvação nos vem por isso”, sem perceber que incorrerão em punição divina por seu papel no envio dos “pequenos” à morte — Apocalipse de Pedro 79, 11-21
- O Apocalipse de Pedro, porém, não aconselha evitar o martírio — encoraja os crentes a encarar tal morte com coragem e esperança, com Jesus dizendo a Pedro: “Tu, portanto, sê corajoso e não temas de modo algum. Pois estarei contigo a fim de que nenhum de teus inimigos prevaleça sobre ti. Paz seja contigo. Sê forte!” — Apocalipse de Pedro 84, 6-11
- Irineu, diante da realidade da perseguição e da morte, defendia que as pessoas deveriam ser martirizadas, argumentando que Deus quer todo esse sofrimento para o bem das pessoas — ensinando sobre a grandeza e a bondade de Deus ao conceder a vida eterna a uma humanidade pecadora.
- O autor do Evangelho de Judas não apenas nega que Deus deseja tal sacrifício, mas sugere que o efeito prático dessas visões é horrendo: torna as pessoas cúmplices de assassinato
- O Evangelho de Judas rejeita a ressurreição do corpo, e oferece uma resposta radical ao sentido da morte de Jesus: quando Jesus pede a Judas que “sacrifique o ser humano que me carrega”, está pedindo a Judas que o ajude a demonstrar a seus seguidores como, ao ultrapassarem os limites da existência terrena, eles, como Jesus, podem adentrar o infinito — em Deus
gnosis/pagels/evangelho-judas/sacrificio.txt · Last modified: by 127.0.0.1
