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POIMANDRES
Hans Jonas — Religião Gnóstica
O pensamento e a especulação gnósticos desenvolveram-se fora das fronteiras do mundo helenístico totalmente livres de conexões cristãs, como demonstrado pelos escritos herméticos compostos em grego desde o princípio, que são puramente pagãos e carecem de qualquer referência polêmica ao judaísmo ou ao cristianismo, embora o Poimandres evidencie o conhecimento que seu autor tinha da história bíblica da criação, a qual se havia estendido desde a tradução da Septuaginta e era muito conhecida no mundo grego.
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A religião do “Três vezes grande Hermes” originou-se no Egito helenístico, onde Hermes era identificado com Tot.
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Nem todo o corpus pode ser considerado como uma fonte gnóstica, pois muitas partes revelam o espírito de um panteísmo cósmico muito separado da violenta denúncia do universo físico característica dos gnósticos, ao passo que outras partes são predominantemente morais e seu forte dualismo entre o sensual e o espiritual, entre o corpo e a mente, concorda bem com a atitude gnóstica, mas também com um marco cristão ou platônico, já que expressa o estado transcendental e geral de uma época.
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Existem partes indiscutivelmente gnósticas neste todo sincrético, e especialmente o primeiro tratado do corpus, chamado Poimandres, é um importante documento da cosmogonia e antropogonia gnósticas, independente das especulações dos gnósticos cristãos. O sistema do Poimandres centra-se em torno da figura divina do Homem Primordial, cujo hundimento na natureza representa o clímax dramático da revelação, um fato emparelhado com a ascensão do alma, cuja descrição dá fim à revelação.
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A antítese do criador e do Deus altíssimo não aparece aqui, pois o demiurgo recebeu um encargo do Pai, e sua criação parece ser o melhor meio de arranjar-se com a existência de uma escuridão caótica, como ainda se representava mais tarde no maniqueísmo.
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A imprevista inclusão do Homem divino no sistema cósmico é claramente trágica, e inclusive a obra mais genuína do demiurgo, as sete esferas e seus governadores, torna-se algo muito mais problemático do que se poderia esperar tendo em conta sua origem.
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Existem dificuldades consideráveis ao integrar as distintas partes da composição em uma doutrina consistente, e talvez, devido à combinação de material contraditório, certa ambiguidade faça parte de sua mesma substância. A composição do tratado é clara, sendo sua parte mais extensa (1-26) o relato, redigido em primeira pessoa, de uma experiência visionária e dos ensinamentos aprendidos durante seu transcurso, enquanto os parágrafos conclusivos (27-32) descrevem a consequente atividade missionária do destinatário entre seus companheiros humanos.
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Os parágrafos 1 a 3 descrevem a situação visionária com a aparição de Poimandres (“ Pastor de Homens ”), que se identifica a si mesmo com o Noüs (Intelecto), isto é, com a divindade suprema.
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Os parágrafos 4 a 11 apresentam a cosmogonia até a criação dos animais irracionais, enquanto os parágrafos 12 a 19 apresentam a antropogonia, a doutrina central de toda a revelação.
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Os parágrafos 20 a 23, ao extrair as conclusões morais das partes teóricas precedentes da revelação, definem os dois tipos opostos de conduta humana.
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Os parágrafos 24 a 26 completam a revelação ao descrever a ascensão da alma gnóstica depois da morte. O homem é o terceiro na tríade de criações ou emanações divinas sucessivas: Palavra (Logos), Artífice da Mente (Noüs-Demiurgos), Homem (Anthropos).
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O homem pode ver o Demiurgo como a seu irmão, mas guarda uma especial analogia com o Logos, e esta consiste em que ambos entram em estreita relação com a Natureza inferior que a seu devido tempo volta a dissolver-se.
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O Homem foi engendrado pelo primeiro Deus depois do estabelecimento do sistema cósmico, ainda que fora dele, e sem propósito aparente, salvo o prazer que Deus obteria de sua própria perfeição a partir de uma imagem perfeita de si mesmo, não contaminada pelo aditivo do mundo inferior.
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Por ter sido criado “ à imagem de Deus ” e só ao terminar a criação cósmica, esta versão da origem do deus Homem mostra maior proximidade com o relato bíblico do que a versão mais generalizada no gnosticismo, segundo a qual o Homem precede a criação e possui um papel cosmogônico.
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A especulação rabínica sobre Adão, baseada no duplicado do relato de sua criação de Gênesis 1 e 2, referida ao Adão celeste e ao Adão terreno respectivamente, facilita um elo entre as doutrinas bíblicas e gnósticas sobre o Primeiro Homem, e certos ensinamentos zoroástricos podem também ter contribuído para a concepção desta figura chave da teologia gnóstica.
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A separação do modelo bíblico é notável nos seguintes rasgos: Deus não “ faz ” o Homem, mas, como princípio generativo andrógino, o engendra e o alumia, de forma que é uma emanação de Sua própria substância; o homem não se forma a partir do barro, mas é mera Vida e Luz; a “ igualdade ” não é uma similitude simbólica, mas uma absoluta igualdade de forma, de modo que nele Deus contempla e ama Sua própria e adequada representação; ele é extramundano, enquanto até o mesmo Demiurgo tem sua sede dentro do sistema cósmico, ainda que em sua esfera mais exterior e elevada, a oitava; suas dimensões são iguais às da criação física, como demonstra sua posterior união com a totalidade da Natureza; o poder que se lhe entrega não é efetivo sobre a fauna terrena somente, como no Gênesis, mas também sobre o macrocosmo astral.
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O propósito original do Pai ao criar o Homem não é o exercício deste poder, algo que surge nele quando lhe concede o desejo de que “ ele também possa criar ”, e o relato posterior tampouco facilita uma resposta ao que lhe foi deixado para fazer, sugerindo estas inconsistências uma adaptação do mito de Anthropos, na qual pervivem vagamente alguns rasgos da função cosmogônica original desta figura. A entrada do Homem na esfera demiúrgica marca o começo de sua história mundana interior, pois ele absorve e guarda em si mesmo a natureza da Harmonia, isto é, os poderes dos sete Governadores em suas respectivas esferas.
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O tributo que lhe oferecem os sete Governadores, cada um dos quais lhe entrega uma parte de seu próprio reino, parece tratar-se de uma acreção positiva de seu próprio ser, mas não deve ser esquecido que os Governadores e suas esferas foram moldados pelo Demiurgo no fogo, que, ainda que o mais puro, é ainda um dos elementos físicos que originaram a Escuridão Primordial.
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Existe aqui um dos exemplos característicos da natureza composta da religião hermética nos quais se oscila entre o significado pregóstico e gnóstico do mesmo tema mitológico do equipamento planetário da alma, pois em uma cosmologia afirmativa estes são presentes úteis para o homem em sua existência terrena, mas o fato de estes componentes físicos também se encontrarem nele faz com que o homem esteja ligado simpaticamente a suas fontes astrais, ou seja, ao cosmos, em cuja “ Harmonia ” assim participa, estando sujeito às influências das estrelas e, portanto, à heimarmene.
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O gnosticismo deu um novo giro a este grupo de ideias, ao considerar os componentes planetários da alma como corrupções de sua natureza original formadas em seu descenso através das esferas cósmicas, de modo que o que se adere à alma em sua viagem descendente tem o caráter de entidades substanciais ainda que imateriais, descritas com frequência como “ envolturas ” ou “ vestidos ”, e a “ alma ” terrena resultante é comparável a uma cebola com tantas camadas quantas as que aparecem no modelo do cosmos, só que em ordem inversa.
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As acrecências estranhas formam o caráter empírico do homem e compreendem todas as faculdades e tendências pelas quais o homem se relaciona com o mundo da natureza e com a sociedade, constituindo o que normalmente se chamaria sua “ psique ”, ao passo que a entidade original à qual se superpõem estas acrecências seria o princípio acósmico que vive no homem, normalmente oculto quando este se ocupa de suas preocupações terrenas e só perceptível de forma negativa por uma sensação de estranhamento, de absoluta não pertença.
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Os escritos herméticos evitam o termo “ pneuma ” no sentido espiritual e o substituem por noüs, mas em outros lugares o termo “ psique ” também é utilizado com qualificações apropriadas para ambas as partes, e frequentemente se lê simplesmente que a “ alma ” desce e padece o deterioro descrito, recebendo os deterioros o nome ou de espíritos sobrepostos à alma original ou de uma segunda alma que contém a primeira.
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A citação hermética de Jamblico mostra com especial claridade a base que sustenta esta fantasia mitológica: não só um rechaço do universo físico à luz do pessimismo, mas a afirmação de uma ideia totalmente nova sobre a liberdade humana, muito diferente do conceito moral que sobre esta haviam desenvolvido os filósofos gregos, segundo a qual fica ainda um centro mais profundo que não pertence ao reino da natureza e pelo qual o homem se encontra por cima das urgências e necessidades desta, assinalando pela primeira vez na história a diferença ontológica radical entre o homem e a natureza. O hundimento do Homem na Natureza inferior é descrito de forma clara e impressionante no relato, no qual a revelação de sua forma divina à Natureza terrena é ao mesmo tempo seu reflexo nos elementos inferiores, e devido a sua própria beleza que assim se lhe aparece desde baixo, é arrastado de forma descendente, constituindo este uso do motivo de Narciso um rasgo original do Poimandres.
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A versão do Poimandres combina habilmente três ideias diferentes: a da Escuridão que fica prendada da Luz e toma posse de uma parte desta, a da Luz que fica prendada da Escuridão e se hunde nela voluntariamente, e a de uma radiação, reflexo ou imagem da Luz projetada na Escuridão inferior e que ali fica prisioneira.
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A ideia comum às doutrinas sobre a terceira versão é que, devido a sua natureza, a Luz brilha na Escuridão inferior, e esta iluminação parcial da Escuridão ou é comparável à ação de um simples raio pelo fato de projetar um resplendor tal, ou, se surgiu de uma figura divina individual como a Sophia ou o Homem, é uma forma projetada no meio escuro, que apareceria ali como imagem ou reflexo do divino, de modo que, ainda que não tenha havido nenhum descenso ou queda real do original divino, algo deste se viu imerso no mundo inferior, e a Escuridão é apanhada com ânsia pelo resplendor que aparece em meio desta ou na superfície das águas primordiais.
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Toda esta imaginação desenvolve a tragédia divina sem culpabilidade superior nem invasão inferior do reino divino, sendo o fato de que a simples e inevitável radiação da Luz e seu reflexo em forma de imagens cria novas hipóstases de seu próprio ser ainda em Plotino um princípio metafísico de primeira ordem que afeta seu esquema ontológico geral.
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O motivo de Narciso no amor errado do Anthropos do Poimandres é uma sutil variação e combinação de vários temas, pois ele não é tão culpável quanto a Alma primordial que sucumbe ao desejo pelos prazeres do corpo, já que o que o arrasta para baixo é sua própria forma divina, sua perfeita similitude com o Deus supremo, mas ele é mais culpável do que Pistis Sophia, que foi enganada porque desejou agir de forma independente, ainda que seu erro deva ser parcialmente escusado, já que ignorava a verdadeira natureza dos elementos inferiores, vestidos como estavam com seu próprio reflexo. A ascensão da alma do conhecedor depois da morte é a maior esperança do verdadeiro gnóstico ou pneumático, e sua descrição no Poimandres não requer uma nova explicação, pois se trata do reverso do descenso astral da alma.
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A viagem celeste da alma que regressa é um dos rasgos comuns mais frequentes em sistemas gnósticos profundamente divergentes, e seu significado para a mente gnóstica se vê realçado pelo fato de que a gnose significa preparação para este acontecimento final, e todos seus ensinamentos éticos, rituais e técnicos têm a missão de assegurar o sucesso do mesmo.
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Em um estádio posterior do desenvolvimento “ gnóstico ”, a topologia externa da ascensão através das esferas, com os sucessivos despojamentos da alma de seus vestidos mundanos e a recuperação de sua original natureza acósmica, pôde ser “ internalizada ” e encontrar seu análogo em uma técnica psicológica de transformações internas pela qual o eu, enquanto se encontra no corpo, poderia alcançar o Absoluto como condição imanente, ainda que temporal, de modo que, com esta transposição de um esquema mitológico à interioridade da pessoa e a transformação de suas etapas objetivas em fases subjetivas de experiência, o mito gnóstico passa ao misticismo.
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No Poimandres, a ascensão descreve-se como uma série de substrações sucessivas que deixam “ nu ” o verdadeiro eu, um exemplo de Homem Primordial tal como era antes de que se produzisse sua queda cósmica, em liberdade para entrar no reino divino e voltar a ser um com Deus.
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Existe uma versão alternativa da ascensão na qual o sentido da viagem se encontra não no despojamento da alma, mas em seu transcurso como tal, implicando que o que começa a ascensão é já o puro pneuma separado de suas travas terrenais e que os governantes das esferas são poderes hostis que intentam bloquear seu passo com o fim de retê-lo no mundo.
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A soma dos nós, vestidos e laços que devem ser desfeitos na viagem ascendente recebe o nome de “ psique ”, sendo a ascensão não só um processo topológico, mas também qualitativo de desechar a natureza mundana, e em certos cultos este último processo era antecipado por certas leis rituais que, em forma de sacramentos, levariam a cabo a transformação provisória ou simbólica já nesta vida e garantiriam sua consumação definitiva na seguinte.
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A segunda versão, menos espiritualizada, da ascensão tem um aspecto mais sinistro, pois a alma antecipa com medo e ansiedade seu futuro encontro com os terríveis arcontes deste mundo entregues à tarefa de impedir sua fuga, tendo a gnose duas tarefas: dotar a alma de qualidades mágicas para ser inexpugnável e inclusive invisível para os arcontes vigilantes, e instruir o homem sobre os nomes e as poderosas fórmulas mediante as quais pode franquear-se o passo.
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No Poimandres não se escuta nada acerca da natureza maligna dos Governadores, ainda que a submissão a seu governo, chamado Destino, seja claramente contemplada como uma desgraça do Homem e uma violação de sua soberania original. A parte da revelação que precede a geração do Homem (4-11) mostra as seguintes subdivisões: visão direta da primeira fase da cosmogonia, anterior à criação efetiva (4-5); explicação de seu conteúdo levada a cabo por Poimandres (6); reanudação e culminação da visão, acompanhadas de revelação do mundo inteligível em Deus, mundo segundo o qual se forma o sensitivo (7); o parágrafo 8 trata da origem dos elementos da natureza; os parágrafos 9-11 tratam de como o primeiro Deus engendra ao Demiurgo e de como este cria os sete poderes planetários e suas esferas, da posta em movimento deste sistema e, portanto, de sua revolução, e da geração dos animais irracionais a partir dos elementos inferiores da natureza.
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Como primeiros começos, a luz divina e a terrível escuridão, semelhante a uma serpente, são já familiares ao leitor, mas deve-se assinalar que, para começar, o campo de visão está feito só de luz, e que só “ passado certo tempo ” aparece em uma parte deste uma escuridão que nasce abaixo, do qual se deduz que esta escuridão não é um princípio original que coexiste com a luz, senão que, de algum modo, se originou a partir desta.
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Como primeira hipóstase separada do Noüs supremo, a Palavra surge da Luz divina e “ chega a ” a natureza úmida, devendo este “ chegar ” entender-se como união íntima com a natureza úmida, na qual permanecerá a Palavra até ser sacada dali mediante o trabalho do Demiurgo.
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No parágrafo 7, o visionário, depois de ter recebido a ordem de olhar atentamente a luz, distingue nesta inumeráveis poderes, descobrindo ao mesmo tempo que não se trata de uma extensão uniforme, senão organizada em um cosmos que é, como Poimandres lhe indica, a forma arquetípica, e simultaneamente vê fogo “ contido por um grande poder ”, que só pode ser o Logos que desde o interior mantém separados os distintos elementos em seu respectivo lugar, sendo o fogo a circunferência exterior formada ao emergir da natureza úmida.
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Em relação ao parágrafo 8, a Boule (Vontade) de Deus, que aparece e desaparece de repente neste parágrafo, para não voltar a ser mencionada, é uma alternativa à Escuridão estigia da visão primeira, e como tal um rudimento isolado do modelo de especulação sírio que de algum modo se abriu caminho até aqui, sustentando esta interpretação o papel do Logos em ambos os casos e o parecido notável de Boule com a Sophia da gnose síria.
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Um elemento crucial da analogia proposta entre Boule e a “ natureza úmida ” é o significado da expressão de que ela “ recebeu ” ao Logos, a qual se repete com ocasião da união da Natureza e o Homem (14), onde comporta um significado sexual evidente, e se isto é o que sucede também com o Logos que é “ recebido ” por Boule, este, igual que o Anthropos que virá depois dele, terá que ser liberado desta imersão, descobrindo que o primeiro efeito da organização esférica do macrocosmo levada a cabo pelo Demiurgo é o salto ascendente do Logos da Natureza inferior para seu espírito afim da esfera mais alta.
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A liberação do Logos através da criação do Demiurgo é, em termos do próprio Poimandres, perfeitamente explicável como consequência do fato de que com a definida e estabilizadora organização cósmica sua presença na Natureza inferior não seja já requerida para manter separados os elementos, de forma que poderia dizer-se que este fica liberado, mais que de uns laços, de uma tarefa.
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Existe a objeção de que alguns atributos da Escuridão, tais como o medo ou o ódio, e seu parecido com a serpente, só encaixam com uma Escuridão antidivina original de modelo iraniano, e não com uma Sophia divina, por muito escurecida e afastada de sua fonte que esta se ache, mas é igualmente notável que esta Escuridão apareça depois da Luz e que tenha que haver surgido desta (ao contrário do que sucede no modelo iraniano), ou que “ se lamente ” mais tarde, assinalando ambos os rasgos mais na direção da especulação da Sophia do que na do dualismo primário.
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