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Ptolomeu

FOERSTER, W. Gnosis. A Selection of Gnostic Texts. R.M.L. WILSON. London: Clarendon Press, 1972.

CARTA DE PTOLOMEU A FLORA

INTRODUÇÃO E DIFERENTES OPINIÕES SOBRE A LEI

Muitos não compreenderam a lei ordenada através de Moisés, havendo duas opiniões errôneas: uns dizem que foi decretada por Deus Pai, outros que foi ordenada pelo Diabo.

  • Alguns dizem que a lei foi decretada por Deus Pai; outros, que foi ordenada pelo adversário (o Diabo), a quem atribuem também a criação do mundo.
  • Ambas as opiniões estão completamente erradas, pois a lei evidentemente não foi ordenada pelo Deus perfeito e Pai (porque é secundária, imperfeita e contém comandos não condizentes com tal Deus).
  • Também não se pode atribuir à injustiça do adversário uma lei que proíbe cometer injustiça, pois “uma cidade ou casa dividida contra si mesma não pode subsistir” (Mateus 12:25).
  • O apóstolo diz que a criação do mundo se deve a um Deus justo que odeia o mal, e não a um Deus corruptor.
  • Resta fornecer uma explicação precisa da natureza da lei e do legislador, usando as provas das palavras do Salvador.

A DIVISÃO DA LEI EM TRÊS PARTES

Toda a lei contida no Pentateuco não foi decretada por uma só pessoa (Deus), mas há mandamentos decretados por homens, dividindo-se em três partes: a de Deus, a de Moisés e a dos anciãos.

  • A primeira seção é atribuída ao próprio Deus e sua atividade legisladora.
  • A segunda divisão pertence a Moisés (não que Deus dê leis através dele, mas Moisés, a partir de suas próprias ideias, deu algumas leis).
  • A terceira parte é atribuída aos anciãos do povo, que introduziram alguns mandamentos próprios.
  • O Salvador mostrou isso ao falar sobre divórcio: “Por causa da dureza do vosso coração, Moisés vos permitiu divorciar de vossas mulheres; no princípio não foi assim” (Mateus 19:8).
  • Moisés deu uma lei contrária à de Deus (dissolver versus não dissolver), mas o fez necessariamente, por causa da fraqueza daqueles para quem a lei foi dada.
  • Moisés deu um segundo mandamento (o divórcio) para evitar um mal maior, trocando um mal menor por um maior, para que não se voltassem à injustiça e ao mal.
  • O Salvador também deixa claro que há tradições dos anciãos entrelaçadas com a lei, anulando o mandamento de Deus (“Honra teu pai e tua mãe”) pela tradição, como disse Isaías (Mateus 15:4-9).

A TRIPARTIÇÃO DA LEI DE DEUS

A lei do próprio Deus se divide em três partes: a legislação pura (não misturada com o mal), a lei entrelaçada com injustiça (que o Salvador destruiu) e a lei exemplar e simbólica (que ele mudou do perceptível para o espiritual).

  • A lei pura e não misturada com o mal é o Decálogo (dez palavras nas duas tábuas), que, embora contenha legislação pura, não havia atingido a perfeição e requeria o cumprimento pelo Salvador.
  • A lei entrelaçada com injustiça é a que ordena a recompensa e a retribuição para aqueles que pecaram anteriormente (“olho por olho, dente por dente”, Levítico 24:20-21), sendo justa (por causa da fraqueza dos que observam a lei), mas estranha à natureza e bondade do Pai de Todos.
  • O Filho destruiu esta parte da lei, admitindo que era um mandamento de Deus, mas pertencente ao antigo modo de vida, como em “Quem amaldiçoar pai ou mãe certamente morrerá” (Êxodo 21:17).
  • A parte exemplar é a ordenada segundo a imagem das coisas espirituais e transcendentais (ofertas, circuncisão, sábado, jejum, páscoa, pães ázimos).
  • Todas estas são imagens e símbolos que foram mudados quando a verdade apareceu: na aparência fenomênica foram destruídos, mas no significado espiritual foram restaurados.
  • O Salvador instruiu a fazer ofertas, mas não com animais irracionais ou incenso, e sim através de louvor, glorificação, ação de graças, liberalidade e bondade para com os vizinhos.
  • Ele deseja que sejamos circuncidados, mas não no prepúcio físico, e sim em relação aos nossos corações espirituais (Romanos 2:28-29).
  • Ele quer que guardemos o sábado, sendo ociosos com referência às ações más, e que jejuemos não fisicamente, mas espiritualmente (abstinência de todo o mal), embora o jejum físico externo também seja observado entre seus seguidores.
  • A Páscoa e os pães ázimos são imagens, como Paulo deixa claro: “Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado” e “para que sejais ázimos, não contendo fermento” (1 Coríntios 5:7).

O CUMPRIMENTO E A DESTRUIÇÃO DA LEI PELO SALVADOR

A lei de Deus é dividida em três partes conforme a ação do Salvador sobre ela: a que foi cumprida (Decálogo), a que foi completamente destruída (lei de talião) e a que foi traduzida do literal ao espiritual (simbólica).

  • A lei que foi cumprida pelo Salvador inclui os mandamentos “Não matarás; não adulterarás; não jurarás falsamente”, que estão incluídos na proibição da ira, da luxúria e do jurar (Mateus 5:21-37).
  • A lei que foi completamente destruída é “olho por olho, dente por dente”, destruída pelo Salvador através de seu oposto: “Não resistais ao mal; mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mateus 5:39).
  • A lei que é traduzida e mudada do literal ao espiritual é a legislação simbólica, ordenada como imagem das coisas transcendentais.
  • As imagens e símbolos representavam outras coisas e eram bons enquanto a verdade não havia chegado; quando a verdade chega, deve-se fazer o que pertence à verdade.
  • Os discípulos e Paulo demonstraram isso: Paulo apontou o significado simbólico (Páscoa), a lei interwoven com injustiça (“a lei dos mandamentos contida em ordenanças ele destruiu” - Efésios 2:15), e a parte não misturada com o inferior ou vil (“a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom” - Romanos 7:12).

O DEUS QUE ORDENOU A LEI (O DEMIURGO COMO “MEIO”)

O Deus que ordenou a lei não é o Deus perfeito nem o Diabo, mas o Fashioner e Maker deste universo, que está no meio entre eles e é chamado justamente de “Meio”.

  • A lei não foi ordenada nem pelo Deus perfeito nem pelo Diabo; portanto, o legislador deve ser outro, diferente desses dois.
  • Ele é o Fashioner e Maker de todo este universo e do que há nele, diferente das duas realidades e, por estar no meio entre elas, chama-se justamente “Meio”.
  • Se o Deus perfeito é bom por sua própria natureza (o Pai de Jesus), e o da natureza oposta é mau e injusto, então aquele que está no meio (nem bom nem mau/injusto) pode ser propriamente chamado de justo (remunerador da justiça conforme a ele).
  • Este Deus é inferior ao Deus perfeito e menor que sua justiça (pois é gerado, não não-gerado), mas é maior e mais poderoso que o adversário e de uma substância e natureza diferente de ambos.
  • A natureza do adversário é corrupção e escuridão (material e multipartite); a natureza do Pai não-gerado de Todos é incorrupção e luz simples e homogênea; a substância do Deus do meio produziu um poder duplo, sendo ele mesmo imagem do maior.
  • A origem dessas naturezas (corrupção e do Meio) a partir de um princípio simples, não-gerado, incorruptível e bom será ensinada no futuro, se Deus permitir, pela tradição apostólica.
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