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Atos de Tomé

Werner Foerster, W. Gnosis. A Selection of Gnostic Texts. R.M.L. WILSON. London: Clarendon Press, 1972.

Introdução

Os Atos de Tomé, provavelmente compostos originalmente em siríaco, são um exemplo de Atos de Apóstolos gnósticos que combinam narrativa lendária com mito gnóstico, tendo penetrado amplas áreas da Grande Igreja.

  • A tradição textual não é uniforme, pois os textos siríaco e grego mostram diferenças consideráveis, e ambas as recensões apresentam grandes diversidades devido a revisões posteriores nos interesses do cristianismo eclesiástico.
  • Judas Tomé, o Gêmeo, é o apóstolo cujo nome dá título à obra, e o epíteto joanino “o Gêmeo” é interpretado como “o Gêmeo de Cristo”, permitindo que Tomé retrate o drama gnóstico da redenção.
  • A abertura descreve a divisão das terras entre os apóstolos por sorte, cabendo a Tomé a Índia; ele recusa inicialmente, mas é vendido pelo Senhor Cristo a Abbanes, mercador do rei Gundafor, como escravo artífice por três libras de prata não cunhada.
  • No segundo Ato, Tomé chega à Índia e é incumbido de construir um palácio para o rei em um local arborizado, mas distribui o dinheiro aos pobres; quando o rei descobre e quer matá-lo, o irmão do rei morre, é levado ao céu e vê o palácio que Tomé construiu para o rei, o que leva o rei ao “arrependimento” e ao pedido do sacramento da “selagem”.
  • O primeiro Ato, ambientado em Andrapólis (a “cidade dos homens”, simbolizando o mundo), mostra Tomé recusando-se a participar dos prazeres mundanos durante um festival de casamento real.
  • Tomé não se alimenta, mas unge as narinas, ouvidos, dentes e principalmente o coração para se proteger do “mundo”.
  • Uma flautista (prostituta), que também era hebreia como Tomé, entende o canto nupcial hebraico que ele entoa, rompe sua flauta e abandona a carreira de prostituta.
  • O rei pede a Tomé que ore pelos noivos, mas após Tomé sair, o próprio Jesus aparece na forma de Tomé no quarto nupcial e discursa aos noivos sobre a “relação sórdida”, convidando-os a manter suas almas puras para Deus para entrar na câmara nupcial imortal e brilhante do mundo além.
  • Os noivos seguem as palavras de Cristo; na manhã seguinte, a noiva aparece com o rosto desvelado, afirmando que o “espelho da desonra” foi retirado dela, e o noivo agradece ao Senhor que lhe mostrou como buscar a si mesmo e saber quem era, para que possa tornar a ser o que era.
  • A única decisão exigida do casal é a continência, que desempenha o papel decisivo ao lado do afastamento da riqueza e da autossuficiência.
  • No terceiro Ato, um dragão que havia matado um jovem se apresenta como filho de Satanás, aquele que seduziu Eva no Paraíso, ensinou Caim a cometer fratricídio e incitou Judas.
  • O dragão é ordenado por Tomé a sugar o veneno que injetou no jovem; o jovem volta à vida, o dragão morre e é engolido pela terra, e Tomé manda construir casas sobre a fenda para que se torne morada de “estrangeiros”.
  • O dragão reconhece que o tempo de seu fim ainda não chegou, e que seu pai, quando sugar o que espalhou sobre o mundo, então chegará ao seu fim.
  • O quarto Ato apresenta um jumento que carrega Tomé até os portões da cidade e cai morto, sem que o apóstolo o ressuscite, sendo esta uma figura do corpo que carrega o homem até os portões da cidade celestial, onde sua tarefa se completa.
  • No quinto Ato, uma mulher afligida por um demônio pede a Tomé que o expulse “para que eu seja livre e reunida em minha natureza antiga”, recebendo a “selagem” que a protegerá do demônio.
  • No sexto Ato, as mãos de um jovem murcham ao receber a eucaristia porque ele matou sua amada que não queria viver “puramente” com ele; após lavar as mãos e tocá-la, ela ressuscita e descreve sua jornada pelo submundo com cinco lugares de punição.
  • A partir do sétimo Ato, uma série coerente centrada no comandante do exército do rei Misdaios, sua esposa e outros mostra a conversão de várias pessoas à vida pura e simples e o conferimento dos sacramentos.
  • O rei Misdaios permanece inconversível e ordena que Judas (Tomé) seja trespassado por quatro soldados, símbolos dos quatro elementos; após sua morte, um filho de Misdaios é curado por pó do túmulo do apóstolo, levando o rei ao arrependimento.

O CANTO NUPCIAL (PRIMEIRO ATO)

Tomé canta um cântico em hebraico descrevendo uma figura feminina como “filha da luz” e sua câmara nupcial luminosa, com sete atendentes do noivo e sete damas de honra que dançam em coro.

  • As doze servem diante dela e obedecem, contemplando o Noivo para serem iluminadas por sua aparência.
  • Elas estarão para sempre com ele na bem-aventurança eterna, no banquete do qual os eternos são considerados dignos, vestirão vestes reais e glorificarão o Pai de todas as coisas.
  • Receberam sua luz orgulhosa, beberam do vinho que não causa sede nem desejo, e glorificaram com o Espírito vivo o Pai da verdade e a Mãe da sabedoria.

A ORAÇÃO DE TOMÉ PELOS NOIVOS (PRIMEIRO ATO)

Antes de sair do quarto nupcial, Tomé ora ao Senhor Jesus, a quem se dirige como Filho da Compaixão, Salvador perfeito, poder que não vacila e que abriu as portas do Hades para conduzir os que estavam encerrados no tesouro das trevas.

  • Ele chama Jesus de aquele que revela mistérios ocultos e palavras inefáveis, que está em todas as coisas e penetra todas as coisas.
  • Tomé apresenta uma súplica pelos jovens para que o Senhor faça o que lhes é útil, proveitoso e benéfico, e impõe as mãos sobre eles dizendo: “O Senhor estará convosco”.

O DISCURSO DE JESUS NO QUARTO NUPCIAL (PRIMEIRO ATO)

Jesus, na forma de Tomé, diz aos noivos que, se se abstiverem da relação sórdida, tornar-se-ão templos santos, puros e livres de aflições e dores visíveis e ocultas.

  • Se tiverem muitos filhos, tornar-se-ão ladrões e fraudulentos por causa deles, enriquecendo à custa de viúvas e órfãos, expondo-se aos mais severos castigos.
  • A maioria dos filhos torna-se tola, molestada por demônios, ou se torna lunática, aleijada, surda, muda, paralítica ou mentalmente deficiente; mesmo sãos, serão improdutivos, cometendo adultério, assassinato, roubo ou prostituição.
  • Se obedecerem e mantiverem suas almas santas para Deus, terão filhos vivos que essas dores não tocam, e entrarão juntos como companheiros do noivo naquela câmara nupcial cheia de imortalidade e luz.

ORAÇÃO DE AÇÃO DE GRAÇAS DO NOIVO (PRIMEIRO ATO)

O noivo agradece ao Senhor que o removeu da corrupção, semeou nele a vida, separou-o da doença incurável e estabeleceu nele a sanidade racional.

  • Agradece por tê-lo resgatado da perdição, libertado do transitório e considerado digno do imortal, que se humilhou à sua pequenez para uni-lo consigo.
  • Agradece por lhe ter mostrado como buscar a si mesmo e conhecer quem era, e quem e como é agora, para que possa tornar a ser o que era.
  • Afirma que não conhecia aquele a quem agora não pode esquecer, cujo amor brota nele de modo que não pode expressá-lo como deveria.

O DRAGÃO (TERCEIRO ATO)

Um grande dragão, saindo de uma caverna, declara a Tomé que matou um jovem porque o viu beijando e tendo relações vergonhosas com uma bela mulher, especialmente por terem feito isso no domingo.

  • O dragão se identifica como filho daquele que feriu e atingiu os “quatro irmãos que estão de pé”, que está sentado em um trono sobre o que está debaixo do céu, que toma o que é seu daqueles que tomam emprestado.
  • Afirma ser aquele que entrou através da cerca no Paraíso e falou com Eva, que inflamou Caim para matar seu irmão, por quem cresceram espinhos e cardos na terra.
  • Diz ter derrubado os anjos das alturas e prendido-os por suas luxúrias por mulheres, endurecido o coração de Faraó, desencaminhado a multidão no deserto quando fez o bezerro de ouro, inflamado Herodes e Caifás, e inflamado Judas para entregar Cristo à morte.
  • Afirma ser aquele que habita e possui o poço do Tártaro, e é aparentado com aquele que vem do Oriente, a quem também é dada autoridade para fazer o que ele mesmo deseja sobre a terra.
  • O dragão diz que seu pai, quando sugar o que espalhou sobre o mundo, então chegará ao seu fim; Tomé ordena que ele chupe e remova o veneno do jovem, o que faz, e então o dragão incha, arrebenta e morre, sendo engolido por um grande abismo.

O JOVEM RESSUSCITADO (TERCEIRO ATO)

O jovem, em meio a muitas lágrimas, descreve a Tomé como um homem de duas formas, visível e invisível, e relata ter visto aquele que está ao lado do apóstolo prometendo realizar muitas maravilhas através dele.

  • Ele afirma ter se tornado livre da ansiedade e da reprovação, e que a luz brilhou sobre ele, longe da ansiedade da noite, descansando do cansaço do dia.
  • Perdeu aquele parente da noite que o compeliu a pecar, e encontrou aquele cujas obras são luz e cujas práticas são verdade.
  • Pede para tornar a ver aquele que agora se tornou oculto para ele, para ouvir sua voz, cuja maravilha não pode descrever, pois não é da natureza deste instrumento corporal.
  • Tomé adverte que, se o jovem se voltar novamente para suas práticas anteriores, será privado não apenas desta vida, mas também da vindoura.

O ENSINAMENTO DE TOMÉ À MULTIDÃO (TERCEIRO ATO)

Tomé declara que, se não podem vê-lo, que é como eles, a menos que se elevem um pouco do chão, como poderiam ver aquele que habita no alto e agora se encontra na profundeza?

  • É necessário erguer-se da conduta anterior, das práticas inúteis, das luxúrias que não duram, da riqueza que fica aqui, da posse terrena que envelhece, das roupas que apodrecem, da beleza que envelhece e desaparece, e até mesmo de todo o corpo.
  • Convida a crer no Senhor Jesus Cristo, para que ele se torne companheiro de viagem nesta terra errante, porto neste mar tempestuoso, fonte jorrante nesta terra sedenta, casa cheia de comida no lugar dos famintos, descanso para as almas e médico até mesmo para os corpos.
  • A multidão pergunta se Deus pode deixar de lado suas ações anteriores que lhe são estranhas, e Tomé responde que Ele não condenará nem levará em conta os pecados cometidos no erro, mas deixará de lado as maldades feitas por ignorância.

O CANTO DA PÉROLA (NONO ATO)

Tomé, estando na prisão, entoa um salmo sobre um filho de rei enviado do Oriente (a pátria) ao Egito (a terra das trevas) para buscar a única pérola que está junto ao dragão devorador.

  • O filho de rei é despojado de sua veste esplêndida e recebe uma carga (pack) com ouro, prata, pedras de calcedônia e pérolas, além de um diamante, e fazem um acordo com ele gravado em sua mente.
  • No Egito, torna-se estrangeiro, associa-se a um jovem livre (aparentado), veste as roupas dos egípcios para não parecer estrangeiro, mas acaba provando a comida deles, esquece que é filho de rei e esquece a pérola, caindo em sono profundo.
  • Seus pais observam e escrevem uma carta assinada pelos reis da Pártia e os poderosos do Oriente, que voa na forma de uma águia, torna-se inteiramente voz e o desperta do sono, lembrando-lhe que é filho de rei e da pérola.
  • O filho de rei encanta o dragão com feitiços e invocando o nome do pai, do segundo filho e da mãe, pega a pérola e retorna, deixando a vestimenta suja e dirigindo-se para a luz da pátria no Oriente.
  • No caminho, encontra a veste resplandecente que o aguarda, que se assemelha a ele como num espelho; ele a veste e é elevado ao portão da adoração, misturando-se com os do domínio do pai, que se alegra com ele.

A SELAGEM (SEGUNDO ATO)

O rei Gundafor e seu irmão Gad pedem a Tomé que lhes dê o selo, pois ouviram que o Deus que ele proclama reconhece suas próprias ovelhas pelo seu selo.

  • Tomé ordena que tragam óleo, e à noite derrama o óleo sobre suas cabeças, ungindo-os e dizendo: “Vem, santo nome de Cristo que está acima de todo nome. Vem, poder do Altíssimo e perfeita compaixão. Vem, mãe compassiva. Vem, mãe das sete casas, para que teu repouso entre na oitava casa. Vem, embaixador dos cinco membros, do entendimento, do pensamento, da prudência, da meditação, da inteligência. Vem, Espírito Santo, e purifica suas partes internas e seu coração, e sela-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.”
  • Após serem selados, aparece-lhes um jovem segurando uma tocha acesa, cuja luz torna as lâmpadas opacas; ele sai e se torna invisível para eles.
  • Ao amanhecer, Tomé parte o pão e os faz participantes da eucaristia de Cristo.

ORAÇÃO A JESUS (QUARTO ATO)

Tomé ora a Jesus Cristo, apreendido apenas pela mente, de perfeita compaixão, que fala até mesmo nos animais mudos, repouso secreto, salvador e nutridor, revelado através de suas operações.

  • Chama Jesus de fonte doce e inesgotável, pura e nunca turva, socorro e auxílio no combate de seus servos, verdadeiro e invencível campeão, líder santo e vitorioso, bom pastor que se vendeu pelas ovelhas e derrotou o lobo.
  • Glorifica a ele, a seu Pai invisível e ao Espírito Santo, a mãe de todas as coisas criadas.

O DEMÔNIO E A MULHER (QUINTO ATO)

O inimigo aparece e pergunta a Tomé o que têm em comum, pois o tempo deles ainda não chegou, e acusa o apóstolo de querer destruí-los e tomar seu poder antes da hora.

  • O demônio afirma que pensou em subjugar também o Filho de Deus, mas ele se voltou e os colocou sob controle, enganando-os com sua forma extremamente feia, pobreza e carência.
  • Diz que procurará alguém como a mulher e, se não a encontrar, retornará, pois enquanto Tomé estiver próximo ela tem nele um refúgio, mas quando ele se for, ela esquecerá dele.
  • O demônio torna-se invisível, e na partida aparecem fogo e fumaça; Tomé diz que o fogo o consumirá e sua fumaça será dispersa.
  • A mulher pede o selo para que o inimigo não volte a ela, e Tomé a sela em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

A ORAÇÃO EUCARÍSTICA (QUINTO ATO)

Tomé prepara uma mesa com um pão da bênção e ora: “Vem, perfeita compaixão; vem, relação com o masculino; vem, tu que conheces os mistérios do eleito; vem, quietude que revelas a majestade de toda a grandeza; vem, pomba santa que chocas os dois filhotes gêmeos; vem, mãe oculta; vem e participa conosco nesta eucaristia que celebramos em teu nome.”

  • Ele corta o sinal da cruz no pão, parte-o e começa a distribuí-lo primeiro à mulher, dizendo: “Isto será para ti para remissão de pecados e transgressões eternas”, e depois a todos os outros que receberam o selo.

O BATISMO (DÉCIMO ATO)

Tomé derrama óleo sobre a cabeça de Mygdonia, dizendo: “Santo óleo, dado a nós para santificação, mistério oculto no qual a cruz nos foi mostrada, és o desdobrador das partes ocultas. Deixa teu poder vir e permanecer sobre tua serva Mygdonia, e cura-a por esta libertação.”

  • Ele a batiza em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, depois parte o pão e toma um cálice de água, fazendo-a participante do corpo de Cristo e do cálice do Filho de Deus, dizendo: “Recebeste teu selo; cria para ti a vida eterna”, e uma voz do alto diz: “Sim, Amém.”

A ORAÇÃO SOBRE O PÃO (DÉCIMO ATO)

Tomé abençoa o pão, dizendo: “Pão da vida, que aqueles que comem permanecem imperecíveis; pão que satisfaz as almas famintas com sua bem-aventurança. Invocamos teu nome, nome da mãe, do mistério secreto escondido dos poderes e autoridades; invocamos teu nome, nome de Jesus.”

  • Ele ora: “Deixe o poder da bênção vir e pousar sobre o pão, para que todas as almas que o consumirem sejam purificadas de seus pecados”, e então parte o pão e o distribui.

A ÚLTIMA ORAÇÃO DE JUDAS TOMÉ (DÉCIMO ATO)

Antes de sua morte, Tomé ora: “Meu Senhor e meu Deus, esperança, redentor, líder, guia em todas as terras, que os coletores de impostos não me vejam, e os credores não me acusem falsamente. Que a serpente não me veja e os filhos do grande dragão não sibam contra mim.”

  • Ele afirma ter terminado a obra e cumprido o mandamento, tendo se tornado escravo para hoje obter a liberdade, e diz que fala isso não porque duvida, mas para que aqueles que devem ouvir possam ouvir.
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