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AUTHENTIKOS LOGOS

Biblioteca de Nag Hammadi: Authoritative Teaching; Authentikos Logos

Kuntzmann & Dubois

Tradução de J.-E. Ménard, in BCNH, n.° 2, 1977. (trad. em português de Álvaro Campos)

O que quer dizer esse título, que o tratado se dá a si mesmo na última linha? Sem dúvida, ele abarca ao mesmo tempo a noção de discurso de Autoridade no grupo e a noção do logos que salva. Pelo conteúdo, é tratado da alma que expõe sua origem, sua situação atual e seu destino último. Não há dúvida sobre o contorno gnóstico do texto: a alma, de origem divina, caiu sob o domínio da matéria e só pode ser salva pela Gnose revelada, nutrindo-se do Logos e colocando-ó sob os olhos como bálsamo:

(p. 22,15-34): Embora ela (a alma) seja companheira dos membros ao mesmo tempo que do corpo e do espírito, esteja aqui em baixo ou no Pleroma, ela não está separada deles (= os mundos). Mas eles a veem e ela os contempla no Logos invisível. Em segredo, seu noivo trouxe-o para ela. Deu-lho na boca, para que ela o coma como se fosse alimento. E colocou o Logos sobre seus olhos como bálsamo para que, através de seu espírito, ela veja e reconheça os que são do seu tipo e tome consciência de sua raiz para que ela seja reunida ao ramo de onde ela emanou inicialmente, para que ela receba o que é seu e deixe a matéria.

(…)

(p. 24,14-34): Mas essa (alma) feita assim se abandona à embriaguez e ao vício. Com efeito, o vício é a embriaguez. Ela também não pensa em seus irmãos e em seu Pai, porque os prazeres e a doçura a enganam. Quando renunciou ao nascimento, ela caiu na animalidade. Pois um insensato está em estado animal. Ele não sabe o que é conveniente dizer e o que não é conveniente dizer. Mas o Filho refletiu, ele que é herdeiro de seu pai na alegria, e seu pai rejubila-se nele porque ele é glorificado graças a ele para cada um. E ele também procura saber como fazer frutificar os bens que recebeu.

Uma série de metáforas, que evocam imagens bíblicas, traduz a prova por que passa a alma. Dentre as metáforas da prostituta, do grão, do atleta, do peixe ou da mulher casada, fiquemos com a metáfora mais desenvolvida, a do pescador:

É também por isso que nós não dormimos, nem esquecemos (as) redes estendidas em segredo, armando seus embustes para nos pegar. Pois se nós nos deixarmos colher em uma só rede, ela nos engolirá em sua abertura, enquanto a água nos submergirá, batendo-nos no rosto. E nós seremos puxados para o fundo da rede e não poderemos sair, porque as águas nos submergirão, derramando-se do alto para baixo e mergulhando nossa razão no lodo sujo. E nós não poderemos escapar. Pois aqueles que nos pegarão e nos engolirão com alegria são , devoradores de homens. É desse modo que o pescador, lançando seu anzol à água, lança à água vários tipos de iscas. Pois cada peixe tem isca própria para ele: quando a sente, apressa-se, guiado pelo cheiro, e, quando a engole, o anzol oculto na isca o aferra e o puxa à força para fora das águas profundas. Ora, não seria possível ao homem agarrar esse peixe nas águas profundas se não fosse pelo engodo realizado pelo pescador. Sob o artifício da isca, ele atraiu o peixe para o anzol. E o mesmo ocorre conosco neste mundo, como se fôssemos peixes. O adversário nos vigia, emboscando-se como o pescador que quer nos pegar e que se rejubila quando nos devora. Pois ele coloca sob nossos olhos diversas iscas, que são as coisas deste mundo. Ele quer que desejemos uma delas e que a provemos um pouco, para depois nos capturar com seu veneno oculto e nos fazer sair da liberdade para nos arrastar para a escravidão. Pois se ele nos pega por meio de uma só isca, com efeito, fatalmente ele nos fará desejar também o resto. No fim das contas, esse tipo de coisa torna-se isca mortal. E eis as iscas graças às quais o diabo nos arma embustes. Primeiro, ele lança desgosto em teu coração, até que te atormentes por pequena coisa desta vida; depois, ele nos aferra com seus venenos. Em seguida, vêm o desejo de roupa de que te orgulhas e o desejo de dinheiro, a jactância, o orgulho, o ciúme invejoso de outro ciúme, o amor do corpo, a depravação. De todos esses vícios, o maior é a ignorância, juntamente com a fraqueza. Ora, todas as armadilhas desse tipo são cuidadosamente armadas pelo adversário, que as apresenta ao corpo porque deseja que o instinto da alma o oriente para uma delas, dominando-o. Como anzol, ele a puxa à força para a ignorância e abusa dela até que ela engravide do mal, gere frutos da matéria e viva na mácula, perseguindo imensidade de desejos e cobiças, através do que a doçura da carne a atrai para a ignorância (p. 29,3-31,24).

Em suma, este tratado apresenta o mito gnóstico da queda aplicando-o à alma, em alegoria que pôde ser exposta no quadro de homilia. Não há nada que nos leve a suspeitar de origem cristã do escrito. Até as metáforas empregadas não são especificamente bíblicas: elas pertencem ao mundo sincretista da época helenística.

Madeleine Scopello

MEYER, Marvin W. The Nag Hammadi Scriptures: The Revised and Updated Translation of Sacred Gnostic Texts Complete in One Volume. London: HarperCollins Publishers, 2009.

* O Discurso Autoritativo é um tratado copta baseado em um original grego, ocupando treze páginas no Códice VI de Nag Hammadi; está bastante bem preservado, mas apresenta extensas lacunas nas primeiras quatro ou cinco linhas das páginas 22–28.

  • O título — Authentikos Logos — encontra-se ao final do texto; não se pode saber se estava também mencionado no início, em razão da lacuna na página 22, 1–3
  • O termo logos provavelmente remete a um discurso ou ensinamento dado aqui por escrito; authentikos pode ser entendido como um discurso de autoridade contendo afirmações verdadeiras — provavelmente em oposição a outros ensinamentos não gnósticos — ou como uma apresentação autêntica da tradição gnóstica
  • O título pode também remeter ao gênero literário dos logoi, bem conhecido nos círculos herméticos
  • O presente logos narra a história da alma desde sua origem celestial até sua queda no mundo e seu retorno ao âmbito da perfeição — um lugar de repouso onde a luz que sobre ela brilha nunca se apaga — 35, 16–18
  • O Discurso Autoritativo abre-se com uma cena em que um noivo — o Espírito — nutre secretamente sua noiva — a alma, Psyche —, que caiu no mundo, e cura seus olhos feridos com um ungüento para que ela possa ver com a mente e perceber sua verdadeira origem — 22, 23–25.
    • O alimento e o remédio são constituídos pelo logos
    • A cura operada pelo Espírito nos olhos de Psyche mostra que ela é literalmente cega; pela linguagem metafórica do texto, distinguem-se a ignorância e o esquecimento que caracterizam a estada mundana da alma
    • Esse tema central é retomado em 27, 25–29, onde a cegueira é associada à ignorância e conduz às trevas
  • As passagens mais intensas do Discurso Autoritativo dizem respeito à prostituição da alma — tema comum em outros tratados de Nag Hammadi, especialmente na Exegese sobre a Alma do Códice II —, que aqui parece ser resultado da livre escolha da alma, pois a morte e a vida são colocadas diante de todos — 24, 6–13.
    • O período que a alma passa no mundo é descrito de forma metafórica: “Quando a alma espiritual foi lançada em um corpo, tornou-se irmã da luxúria, do ódio e da inveja, ou seja, das almas materiais” — 23, 12–17
    • A alma caiu na bestialidade e deixou o conhecimento para trás — 24, 20–22
    • Velada em metáfora, a história mítica do texto reflete a dura realidade da vida no mundo: “Se um pensamento lascivo surge em uma pessoa que é virgem, essa pessoa já foi contaminada” — 25, 6–9
  • O autor do Discurso Autoritativo também caracteriza a alma como uma heroína forte: por meio do remédio que deve colocar nos olhos e na boca, ela será capaz de rejeitar a matéria.
    • A alma é agora uma mulher triunfante, representada por símbolos de realeza e capaz de superar as forças hostis que lutam contra ela, podendo até cegá-las com sua luz — 28, 10–22
    • Como seus adversários são poderes sobrenaturais — os governantes, ou arcontes, da mitologia gnóstica —, o refúgio da alma será espiritual: um tesouro, um depósito onde ela está segura e nenhum estranho pode entrar — 28, 22–30
  • O mal tenta a alma com ofertas sedutoras para atraí-la à ignorância e levá-la a conceber filhos materiais; os temas dos presentes enganosos e da prole contaminada evocam motivos semelhantes na Exegese sobre a Alma.
    • O autor presta particular atenção ao campo semântico dos venenos, anzóis e redes capazes de capturar a alma e arrastá-la para a ignorância — 29, 3–30, 28; 31, 8–24
  • A alma não é uma criatura ingênua: ela provou as tentações humanas e percebe que as paixões doces são transitórias; é consciente do mal e despreza esta vida porque, como as paixões humanas, ela é passageira.
    • A alma é capaz de distinguir entre o alimento saudável, que lhe dará vida, e o alimento nocivo, que a envenena e conduz à morte — 31, 24–32, 1
    • A alma também toma consciência de seu poder — sua luz original — ao ser dotada de seu verdadeiro traje espiritual como uma bela noiva, tendo deixado para trás o orgulho da carne pela beleza da mente — 32, 2–8
    • O autor escreve: “A alma devolveu o corpo àqueles que lho haviam dado. Eles se envergonharam, e os que negociam em corpos sentaram-se e choraram porque não podiam fazer seus negócios com aquele corpo, e essa era sua única mercadoria. Haviam se esforçado muito para moldar o corpo para essa alma, e tinham a intenção de abater a alma invisível” — 32, 16–27
    • A alma engana os negociantes em corpos, mantendo em segredo deles sua natureza superior — seu corpo espiritual — 32, 30–33, 3
    • A culpa deles é a ignorância, pois não buscam a Deus — 33, 4–5; a alma, por outro lado, possui a gnose por sua curiosidade intelectual acerca de Deus e seu esforço constante em buscar o insondável — 34, 32–35, 7
  • A conclusão da viagem existencial da alma é marcada pelo amor e pelo repouso: na câmara nupcial ela se alimentará do banquete pelo qual se nutria de fome e participará do alimento imortal, encontrando o que buscava — 35, 8–15.
  • O Discurso Autoritativo evoca, em seu gênero literário, homilias com objetivo didático, proclamando a seus leitores como lidar com os adversários da alma para obter a liberdade e recuperar sua verdadeira origem; evoca também o gênero do romance, ao narrar a história de uma alma — retratada com traços femininos — que vai de sua pátria celestial a um corpo e à prostituição, e retorna ao país do conhecimento.
    • Esse relato gnóstico compartilha temas e terminologia com outros textos de Nag Hammadi, notadamente a Exegese sobre a Alma; uma tensão semelhante entre prostituição e virgindade pode ser encontrada em ambos os tratados, o que pode indicar que os autores provinham de um ambiente cultural semelhante
    • O Discurso Autoritativo é construído sobre uma série de motivos típicos da especulação gnóstica: noivo e noiva; câmara nupcial; união no amor; oposição dos arcontes maliciosos; modo de vida material da alma que culmina na prostituição
    • Os temas do esquecimento e da embriaguez são também enfatizados; embora evoquem afirmações similares em textos gnósticos, esses temas estão igualmente presentes em Fílon de Alexandria
  • As descrições da alma no Discurso Autoritativo — primeiro como prostituta e depois como noiva — são frequentemente entremeadas de citações de provérbios ou ditos típicos de um escritor bem-formado do mundo greco-romano, como as metáforas do trigo e da palha e do bom pastor.
    • A inserção de elementos que não pertencem à narrativa cria algum desconforto no relato gnóstico da alma; as rupturas estilísticas — 25, 26 — e as mudanças de pessoa — 26, 20: plural “nós” — sugerem que o texto é uma coleção de relatos separados
    • A imagem dos que pescam pessoas pode basear-se em Habacuc 1,13–17, com ocorrências semelhantes na literatura de Qumran e na literatura maniqueísta
    • A imagem dos negociantes em corpos enganados pela alma pode ser uma alusão aos comerciantes de escravos
  • Um dos temas principais do Discurso Autoritativo é a doença da alma — a cegueira —, que fere os olhos da alma e simboliza a ignorância na especulação gnóstica, enquanto a capacidade de ver é a imagem do verdadeiro conhecimento.
    • A doença da alma é provocada pelas forças da matéria; o remédio é fornecido quando o noivo unge os olhos da alma — 22, 22–34 —; mais tarde, a alma aplica o remédio ela mesma — 27, 25–33 —, em um ato simultaneamente médico e ritual que evoca o relato do Livro de Tobias
    • Os temas da doença da alma, de seu estado débil e de sua pobreza evocam conceitos valentinianos, assim como as descrições da câmara nupcial
    • A história da alma narra também, de forma simplificada, o mito de Sofia — sua queda do lugar de seu Pai, sua estada no mundo e seu retorno à glória
  • A história da alma no Discurso Autoritativo aplica-se a todos: a alma é a imagem de todo gnóstico — homem ou mulher — que, ao ler essa literatura, vê sua própria história pessoal retraçada em modo mítico; a jornada da alma da prostituição à virgindade é, ao mesmo tempo, a jornada de todo gnóstico da ignorância ao conhecimento, do mundo material ao âmbito do espírito.
  • O Discurso Autoritativo — tratado escrito com o objetivo de simplificar e proclamar o mito gnóstico da alma — pode ter sido composto em Alexandria no final do segundo século ou no início do terceiro.
    • Alguns estudiosos negam qualquer embasamento filosófico a esse texto, enquanto outros sustentam que ele encontra seu lugar legítimo na tradição platônica
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