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Padre Sylvan

NEEDLEMAN, Jacob. Lost christiantiy. New York: Jeremy P. Tarcher, 2014.

Do Diário do Padre Sylvan

Tóquio, 17 de dezembro de 1975

  • O encontro de algumas horas no aeroporto de Bangcoque e no avião com Jacob Needleman propiciou um diálogo sobre a reação dos cristãos à expansão das religiões orientais.
    • O interlocutor atua como professor na Califórnia.
    • A investigação do acadêmico aborda as dificuldades do homem moderno na utilização da literatura mística cristã.
    • O foco da pesquisa estende-se aos novos textos descobertos pertencentes aos primeiros séculos da era cristã.
  • A dispersão dos escritos místicos ao longo da história transformou esse campo de estudo em um terreno perigoso e desprovido de um plano ordenador claro.
    • Constata-se a dificuldade de distinguir quais obras resultaram de vivências potentes e isoladas de indivíduos que fizeram carreira com base nelas.
    • Questiona-se quais textos expressam o combate real voltado para a obtenção da atenção do coração.
    • A diferenciação entre essas duas categorias de escritos é complexa, embora represente um divisor de águas na compreensão da mística.
  • A maior parte dos autores reverenciados como grandes místicos limitou-se a descrever os resultados obtidos, sem possuir a compreensão exata dos passos práticos do combate interior.
    • Um número reduzido de indivíduos conhece os estágios que conduzem à experiência da Verdade e detém a capacidade de orientar terceiros.
    • Os budistas demonstram precisão nesse aspecto ao prescreverem a proibição da venda de bebidas inebriantes.
  • A dinâmica espiritual exige a articulação simultânea entre as leis da graça e a graça da lei, cuja separação ou escolha de apenas uma das partes acarreta o erro.
    • A tradição hebraica conferiu ênfase às leis da graça.
    • A tradição cristã priorizou a graça da lei.
    • A consideração desse binômio como um paradoxo decorre da limitação em enquadrá-lo nos esquemas conceituais do intelecto.
    • Os religiosos rejeitam a existência de leis científicas que regem as forças superiores e inferiores, enquanto os atraídos pelo rigor técnico recusam o fato de que tais leis não aceitam a manipulação humana.
    • O impasse reside em realizar a transição do santo desejo de Deus para o combate preciso por Deus sem a interferência do ego.
    • O orientador é incapaz de transmitir o santo desejo ou de doar o contato com o superior, limitando-se a ensinar o método para reconhecer e neutralizar as iniciativas do ego.
  • A expectativa de surgimento de novos pesquisadores interessados em contatar o núcleo interno do ensinamento cristão estimula o desejo de oferecer auxílio e de aproximação com o cerne do cristianismo.
    • Manifesta-se a cogitação de abandonar a distinção conceitual entre religião interna e externa.
    • A terminologia tradicional permanece necessária para expressar a noção de níveis existentes no ensinamento.

22 de dezembro de 1975

  • A orientação de terceiros pressupõe a experimentação e a assimilação integral e prévia de todos os aspectos do Ensinamento no próprio ser do instrutor.
    • Esse processo de assimilação constitui a definição da mística real.
    • A Igreja guardava a compreensão desse princípio em tempos remotos, preconizando a necessidade de uma mística perpétua e de uma experiência contínua.
    • A desconfiança institucional em relação aos chamados místicos provém desse critério, visto que a mística real representa o estado natural da mente humana.
    • Os indivíduos que vivenciam fenômenos ocasionais tendem a ridicularizar a condição humana ao tratarem tais episódios como extraordinários, quando o elemento extraordinário é apenas a raridade do acesso a esse nível.
  • O esquecimento da estrutura hierárquica natural pela Igreja gerou no Ocidente um sentimento de aversão e medo em relação às instâncias de autoridade.
    • A organização eclesiástica primitiva refletia a ordenação interna do homem e a estrutura do universo.
    • Essa ordenação cósmica necessitava ser experimentada no próprio indivíduo de forma ininterrupta.
    • A exortação bíblica para orar sem cessar determina o ato de orar no tempo presente, buscando a organização divina no próprio ser agora.
  • A busca pela organização divina deve ocorrer no âmbito do corpo humano, elemento apontado como ponto de partida indispensável para o início do trabalho espiritual.
    • Jacob Needleman insistiu em indagar sobre o cristianismo perdido e o papel do corpo na tradição.
    • A mente e a atenção humanas encontram-se em um estado constante de dispersão e perda.
    • O texto de São Gregório Palamas clarifica essa condição ao citar as advertências apostólicas de que o corpo é o templo do Espírito Santo e de que Deus habita e caminha nos homens.
    • São Gregório Palamas argumenta que introduzir a mente no corpo, que foi honrado como habitação divina, é um ato digno, rejeitando a tese herética de que a matéria corpórea é má ou fruto de um princípio maligno.
    • O mal consiste em a mente ocupar-se com os desejos da carne, e não em sua permanência no corpo físico.
    • A menção apostólica ao corpo de morte refere-se ao domínio dos sentidos e das paixões carnais.
    • O combate contra a lei do pecado visa bani-lo do corpo e instituir a mente como um bispo encarregado de legislar sobre as potências da alma e os membros corporais.
    • A regra espiritual prescreve a moderação para os sentidos, o amor para a parte desejosa da alma e a sobriedade para a mente através do banimento dos obstáculos que impedem a elevação a Deus.
    • O raciocínio humano e espiritual demonstra a obrigatoriedade de conduzir e fixar a mente no interior do corpo para os que buscam a condição de monges no homem interno.
    • O direcionamento dos olhos para o interior do peito auxilia o recolhimento da mente, revertendo o movimento de dispersão gerado pela fixação nos objetos externos.
    • A exortação de Moisés para tomar cuidado contigo visa a vigilância sobre a totalidade do ser por meio da mente, instituída como guardiã contra as paixões da alma e do corpo.
    • O ato de vigiar, observar, examinar e julgar a si mesmo subjuga a carne ao espírito e impede o desenvolvimento de iniquidades secretas no coração.
  • A descoberta da hierarquia natural do universo no próprio ser, vivenciando as condições de suplicante, padre, bispo, arcebispo e Rei Divino, integra o homem à Totalidade sagrada.
    • A obediência voluntária à comunidade do ensinamento ou aos anciãos da Igreja pressupõe a atração da natureza inferior pela superior.
    • A percepção da atenção corporal permite que os desejos instintivos obedeçam ao superior imediatamente, sem a necessidade de violência.
    • O ego atua bloqueando o contato entre as diversas fontes de atenção do organismo, sendo esse o aspecto que demanda destruição por meio de um trabalho complexo.
  • O corpo possui caráter sagrado por constituir o espaço onde se revelam a hierarquia divina e a desordem provocada pelas iniciativas do ego social.
    • O eu social representa uma ilusão derivada da atividade egóica.
    • A atuação de qualquer membro da Igreja em relação a outrem exige a consciência sobre o próprio estado interno e sobre a realidade da Criação no momento da ação.
    • A exigência fundamental não reside na manutenção permanente do estado de maestria e visão do coração, mas no conhecimento exato do estado em que se encontra no presente.
  • O desconhecimento da distância entre a capacidade real no presente e o destino espiritual elevado do homem constitui a tragédia outrora designada pelo conceito de pecado.
    • O autoengano do ego religioso reside em supor que as possibilidades atuais equivalem ao objetivo final do desenvolvimento humano.
    • É errônea a crença de que a afirmação sobre a salvação trazida por Cristo implique o estado atual de salvação do indivíduo.
    • A incursão sincera em níveis elevados da tradição gerará confrontos dolorosos aos pesquisadores, que devem ser advertidos sobre esse impacto.
  • A análise histórica sobre o declínio da Igreja costuma recorrer a marcos como a Cruzada Albigense e a conduta de Bernardo de Claraval no endosso a matanças.
    • Jacob Needleman indagava sobre as razões que levaram um mestre da vida contemplativa como Bernardo de Claraval a apoiar o extermínio de populações.
    • O pesquisador sustenta a teoria de que esse período representou o ponto de inflexão para a decadência institucional eclesiástica.
  • O surgimento de reações institucionais e movimentos de ordenação externa decorre do excesso de fomento à experiência interna e à exploração livre da mística.
    • O rebatimento das indagações históricas apela para a rejeição da linearidade do tempo em favor da interação de forças.
    • O processo de reorganização externa observado na Igreja assemelha-se ao contra-movimento ocorrido no Tibete durante o século treze, embora o caso oriental tenha sido menos violento.
  • A concepção de uma atuação divina dentro da cronologia histórica constitui um símbolo da dinâmica das forças fundamentais em toda a realidade.
    • A interpretação literal dos fatos históricos revela-se insuficiente para decifrar o jogo de forças da época de Bernardo de Claraval.
    • A distinção rígida entre a leitura literal ou alegórica das escrituras possui importância secundária.
  • O símbolo configura-se como um registro deixado por um indivíduo de maior compreensão sobre sua experiência litúrgica e mística, com o intuito de atuar sobre a condição fragmentada da humanidade.
    • O Fundador selecionou símbolos específicos respaldado por compaixão e exato entendimento psicológico.
    • A função do símbolo reside em guiar o surgimento da força unificadora interna denominada Coração ou santo desejo.
    • O trabalho diante do símbolo exige quietude para observar como ele ecoa e atua no indivíduo, constituindo a base da mística perpétua realizável.
  • A equiparação indevida do símbolo a uma verdade literal engendra o dogmatismo e a violência religiosa, causados pelo salto impaciente da metáfora para o absoluto.
    • O símbolo representa a capacidade visionária do Fundador em contemplar a realidade objetiva, enquanto o homem comum de nível inferior deforma essa verdade ao tentar enquadrar a realidade nela.
    • A incompreensão transforma o símbolo da cruz em justificativa para a crucificação do próximo em nome do dogma.
    • O entusiasmo com o ensinamento pode induzir ao esquecimento de que o próprio sujeito necessita da doutrina mais do que o resto do mundo.

Washington

  • A observação do comportamento de acompanhantes em monumentos públicos e concertos demonstrou que estímulos culturais podem induzir estados de quietude involuntária no homem.
    • O silenciamento ocorreu de forma inconsciente durante a circulação pelo Lincoln Monument e pelo Capitólio.
    • O fenômeno repetiu-se durante uma apresentação musical noturna.
  • O sentimento de patriotismo deriva do santo desejo de servir ao superior, cujo impulso original mistura-se a energias de outra ordem e sofre distorções no ambiente social.
    • A tradição atua para recordar o indivíduo sobre a coexistência dos dois mundos e das duas forças internas.
    • Somente a gnose oferece o direcionamento necessário para o estudo das deformações do impulso sagrado na raiz do próprio ser.
  • O interesse contemporâneo pelo gnosticismo esbarra na impossibilidade histórica de decifrar integralmente os eventos e conflitos doutrinários dos séculos iniciais da Igreja.
    • Conceitos, ritos e símbolos nascem de grandes experiências e servem como guias contra o ego, mas são rapidamente instrumentalizados em novos movimentos por indivíduos de compreensão incerta.
    • As disputas históricas entre defensores da fé e heréticos representam combates dos quais se deve buscar distanciamento.
  • A transmissão do Ensinamento por um grande mestre ocorre por vias diversas e independentes da ortodoxia oficial que se estabelece posteriormente.
    • A atuação de um mestre realiza-se em locais e condições variadas, semeando a via com sotaques distintos cujas influências podem se tornar decisivas no futuro.
  • O Budismo exemplifica a diversificação temporal e formal do Ensinamento através da coexistência de vias voltadas para monges, reis e chefes de família.
    • O Buda ministrou ensinamentos para monarcas e cidadãos comuns impossibilitados de adotar o monacato estrito.
    • Essa vertente manifestou-se posteriormente como o tantra, cuja anterioridade cronológica em relação ao Budismo Theravada não pode ser determinada com exatidão pelos historiadores.
    • Os analistas históricos limitam-se ao registro dos fatos superficiais que cruzam seu campo de visão documentada.
  • A vitalidade do mito maniqueísta reside no nível de sentimento interno e compreensão demonstrado por seus praticantes, e não na mera formulação verbal.
    • A presença dos seguidores de Mani conferia significado à linguagem utilizada por eles.
    • A trajetória do maniqueísmo registrou a presença de adeptos impacientes e despreparados na divulgação de suas ideias, de modo idêntico ao ocorrido na Igreja.
    • As leis do Ser operam independentemente das convenções vocabulares, focando unicamente na eficácia do auxílio espiritual.
  • O dualismo atribuído ao gnosticismo por teólogos e eruditos consistia, na realidade, em um método para discriminar direções de energia e reconhecer os princípios cósmicos envolvidos no aperfeiçoamento interno.
    • Nenhuma liderança séria na história defendeu a concepção simplista de duas forças absolutas em disputa.
    • O termo esoterismo deve ser aplicado estritamente ao estudo da energia no próprio indivíduo, alheio a formulações, rituais ou práticas sociais específicas.
    • A investigação sobre o desenvolvimento e a degradação da energia interna requer a expansão da força da atenção, que constitui a alma em suas gradações.
  • As condutas consideradas virtuosas pelo mundo social podem acobertar o desperdício das energias sagradas do homem, exigindo cautela na abordagem desse tema.
    • O processo de recolhimento da luz pode parecer alheio aos códigos morais convencionais, mas configura a única base para a moralidade autêntica.
    • A exposição desse conhecimento deve evitar formulações que estimulem imitações improvisadas, características de muitas seitas gnósticas históricas.
  • A decifração da história, da natureza ou do próprio indivíduo depende da capacidade interna de investigação e discriminação, sem a qual o pesquisador será ludibriado pelos fatos superficiais.
    • Os registros históricos dividem-se em mensagens sobre descobertas mundanas e orientações que auxiliam o indivíduo a descobrir a verdade por si mesmo, sendo a posse da segunda categoria condição para o uso correto da primeira.
    • As teorias, informações e imagens da realidade funcionam como telas que encobrem o fluxo de energias sutis e invisíveis no interior do homem.
    • A adesão ou a recusa a crenças, bem como a conduta moral ou criminosa, decorrem da ação dessas forças internas, identificadas por São Paulo como a lei dos meus membros.
    • A virtude convencional configura-se como um grande obstáculo, visto que a ausência de atenção anula a possibilidade de auxílio divino ao indivíduo.
  • A expectativa de que a introdução das tradições orientais promova uma reforma nas práticas internas do cristianismo ocidental tende a gerar movimentos institucionais desprovidos de interesse real.
    • O número real de indivíduos que guardam seriedade em relação ao cristianismo é reduzido, contrastando com a estatística estatutária de um bilhão de fiéis.
    • A maior parte do tempo, dinheiro e energia dedicados à religião provém da parcela menor da mente, responsável pela produção de grandes fantasias coletivas.
    • A tecnologia moderna atua como instrumento para pesadelos e devaneios coletivos, transformando a ideia de avivamento religioso em um produto do medo e do desejo por conforto psicológico.
    • O conceito de consciência planetária constitui um devaneio compartilhado por meio dos recursos da ciência e dos meios eletrônicos de comunicação, servindo ao egoísmo coletivo.
    • Os movimentos históricos de reforma falham por se originarem da identificação isolada de um erro superficial que se tenta corrigir de forma unilateral.
  • A revitalização do cristianismo exige a ocupação do corpo da antiga tradição, processo análogo à ocupação do corpo do velho Adão por Cristo.
    • Faz-se necessária a presença de indivíduos capazes de testemunhar simultaneamente a verdade e a falsidade do cristianismo contemporâneo.
    • A alteração das formas é dispensável até que se testemunhe com exatidão como os rituais e ideias sofreram distorções e foram absorvidos pela linguagem da vida ordinária.
    • O conceito de preguiça espiritual ou acidia só adquire significado se o indivíduo estiver em deslocamento para um objetivo real, sendo irrelevante para quem se encontra estagnado na vida comum.
    • A distinção proposta por Soren Kierkegaard entre Cristandade e Cristianismo, indicando o que o homem fez da doutrina original, torna-se secundária em uma época de separação entre política e religião.
    • O estado atual da tradição apresenta-se fragmentado, limitando o conhecimento prático ao cristianismo partido.
  • O ato de confrontar a distância entre as ideias elevadas e a situação real gera o estado de presença, cujo desvio para impulsos imediatos de correção externa desativa a conexão com o Espírito Santo.
    • O desejo involuntário de corrigir as assimetrias externas originou o Protestantismo, fenômeno que já operava no interior da Igreja antes das reformas históricas.
    • O apego ao ensinamento e aos métodos que trouxeram auxílio no passado caracteriza o egoísmo espiritual, que isola as ideias da totalidade da experiência.
    • A compreensão real exige o reconhecimento de que os elementos julgados negativamente foram indispensáveis para o desenvolvimento do entendimento atual.
    • A guarda do valor do caminho precede a capacidade de zelar por qualquer outra instância da realidade.
  • A configuração atual da tradição resulta de sucessivas tentativas históricas de aperfeiçoamento, eliminação ou assimilação de reformas e contra-reformas.
    • Questiona-se quais modificações na história eclesiástica decorreram da força de cura do Espírito Santo, de modo análogo às curas realizadas por Jesus.
    • As preces da tradição atuam como roteiros para a busca da paz do Senhor, alcançável por meio do silêncio ontológico gerado no confronto entre o superior e o inferior.
  • A atividade intelectual representa um estágio inicial de contato com a força reconciliadora da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade através do esforço de pensamento entre níveis distintos.
    • O pensamento origina-se no ato do ver, mas costuma degenerar em escravidão aos mecanismos de conceituação conceitual.
    • As conceituações constituem registros neurológicos de momentos de visão, utilizados como instrumentos do espírito no mundo inferior.
    • O homem incorre no erro de tentar imitar a atividade espiritual por meio desses resíduos neurais, esquecendo que apenas o espírito realiza sua própria obra.
    • O pensamento real manifesta-se em múltiplos níveis, configurando um pensar esotérico que conduz a energia de harmonização entre as instâncias da alma.
    • Os termos consciência e autopercepção sofreram o mesmo processo de esvaziamento sofrido pelas palavras mente e pensamento, que originalmente designavam a ação do Espírito Santo na estrutura humana.
  • A reconstrução do ensinamento depende de indivíduos capazes de ocupar o próprio ser, constituindo o corpo sutil da Igreja através da recusa em ceder às reações automáticas de atração e repulsa.
    • O início do processo exige a renúncia ao domínio das reações egóicas de agrado e desagrado para alcançar um pensamento independente do desejo.
    • A obtenção da capacidade de autoperdão é pressuposto para a entrada do poder de perdão na própria Cristandade, sendo o perdão a visão que carrega a força de reconciliação.
  • A eficácia das operações metafísicas, da filosofia real e da magia fundamenta-se no fenômeno da ressonância, exigindo precisão de palavras, tempo e lugar para a captação das forças superiores.
    • A sensibilidade às leis de ressonância além dos sentidos demanda grande inteligência na petição ou um estado emocional purificado.
    • O sofrimento corporal puro, isento de contaminações das emoções pessoais, atua como via de acesso a essas leis.
    • O cristianismo autêntico deve integrar a dimensão mágica, e a magia deve manter-se cristã.
    • O cristianismo evidencia a desolação humana apartada de Deus, enquanto a magia produz efeitos físicos decorrentes do sacrifício das ilusões espirituais.
    • O cristianismo esvazia o indivíduo, e a magia fornece a capacidade de ação a partir do centro vital do ser criado à imagem do Criador.
  • A ausência da dimensão mágica no cristianismo afasta o homem da natureza e das sensações físicas que dão suporte à esperança e ao amor, resultando na perda do senso de admiração diante do fluxo das energias internas.
    • O esvaziamento da magia impede o indivíduo de experimentar o sabor real da verdade de sua insignificância sob Deus, levando-o a projetar o rigor da doutrina sobre as fraquezas do vizinho.
    • O autoconhecimento gerado pela percepção das forças internas constitui a base para a compaixão real, o saber sobre o outro e o senso de justiça.
    • A postulação da justiça sem a vivência dessas forças internas redunda no incremento da violência e do ódio social.
    • Os resultados espirituais legítimos diferem das meras reorganizações psíquicas buscadas pelo autoaperfeiçoamento moderno, classificadas como poeira pela Bíblia e como samsara pelo budismo.
  • A prática da magia desprovida do fundamento religioso submete o homem à influência de forças terrenas que utilizam a energia emocional humana como combustível.
    • Essas forças eram denominadas demônios na antiguidade, conceito cujo sentido atual foi reduzido a interpretações infantis.
    • O universo configura-se como a criação da Mente Divina que se divide e descende em forma e substância.
    • A transição da energia psíquica para a mecânica no corpo humano exemplifica a lei de descensão biológica que atua do psíquico para o material.
    • A energia fundamental transmitida aos músculos divide-se em instintiva, comum à espécie, e emocional, característica dos seres sencientes.
    • A estrutura da vida é mantida pela expressão da energia emocional, canal utilizado para as operações da magia.
  • O controle da energia emocional constitui o segredo da magia, cuja manipulação pelo mago sombrio evoca agitação mental para anular o poder da atenção consciente e tornar o indivíduo vulnerável à sugestão externa.
    • Na agitação emocional, a atenção específica do homem é absorvida pelas associações de pensamento e pela paixão imediata de agir.
    • A vida moderna caracteriza-se pelo cruzamento de sugestões fragmentadas provenientes de múltiplas fontes sociais.
  • O cristianismo opera com a energia espiritual, diferenciada das forças mecânicas e psíquicas, transformando-se em Cristandade quando passa a orbitar os níveis energéticos inferiores.
    • A sensibilidade às qualidades da energia atua como único critério para aferir a autenticidade das práticas cristãs.
    • O esoterismo no núcleo da revelação constitui a disciplina que faculta a aquisição dessa sensibilidade no ser total, definindo a unidade real das religiões.
    • As tentativas de estabelecer aproximações conceituais externas entre as tradições configuram um falso ecumenismo.
  • A repetição mecânica das formas de bondade terrena além de seu período de vitalidade espiritual converte o cristianismo em Cristandade, caracterizando a vigência da magia sem religião.
    • A observação desse processo de degradação interna é componente indispensável do ensinamento.
    • A análise exige a humildade de ocupar o próprio corpo físico.
  • O despertar da emoção espiritual ocorre por meio do sacrifício do apego aos próprios resultados do espírito no momento em que eles se manifestam.
    • O sacrifício promove a separação das energias do ego e promove sua elevação e conexão com a Árvore da Vida.
    • A união com Deus é gerada por essa dinâmica de sacrifício, sem a qual o ascetismo e a indulgência revelam-se condutas igualmente desumanas.
    • As orações contemporâneas carecem de poder e ressonância por não atingirem a dimensão divina.
  • O Budismo ensina que a transição para a postura Mahayana de trabalho pelo outro exige a vivência prévia da postura Hinayana de libertação do próprio sujeito.
    • O debate histórico entre as escolas Hinayana e Mahayana divide os homens superiores entre os que atingiram a liberdade interna e os que servem à coletividade.
    • O autêntico trabalho pela própria libertação equivale ao trabalho pela libertação alheia.
    • O dever primeiro direciona-se ao próprio ser para que se torne viável o amor ao próximo.
  • A manifestação da inteligência real e do amor ao Bem depende da imposição da quietude interna sobre as reações emocionais automáticas, conforme preconizado por Isaías, Sócrates e pelos céticos antigos.
    • A exortação de Isaías determina aquietar-se para o conhecimento da divindade.
    • Sócrates ensinou a necessidade de silêncio interno para a emersão do poder da inteligência que coordena as partes da natureza humana.
    • Os céticos antigos prescreviam a separação do sentido do eu em relação aos pensamentos lógicos para atingir o vazio de onde fala a certeza inominável.
  • A imposição de mandamentos de serviço ao outro sem a superação do egoísmo individual gera neuroses ou estados de autojustificação fundamentados em ideais abstratos.
    • O direcionamento da busca para a libertação pessoal significa a procura pelo contato com Deus no próprio ser.
    • A religião estrita elimina as ilusões de serviço que buscam apenas a autojustificação emocional, voltando o indivíduo para si mesmo.
    • O orientador espiritual atua para conduzir o sujeito ao limite de suas forças, espaço onde se viabiliza o contato real com a divindade.
    • A função do guia consiste em ensinar as leis que operam no esgotamento das capacidades ordinárias e orientar o estudo dos poderes que emergem desse estado para evitar o autoengano.
  • O cristianismo necessita resgatar a dimensão do veículo menor para evitar o desequilíbrio gerado pelas exigências do veículo maior sem o suporte da energia necessária.
    • As tradições orientais fornecem metáforas vivas indispensáveis para a investigação interna atual.
    • O amor ao próximo demanda uma energia que impeça a absorção do sujeito pelas reações emocionais diante do outro, força que depende do combate interno revelado.
    • As revelações divinas explicitam o método de busca e combate, e não a exposição de resultados finais.
    • A difusão isolada de doutrinas elevadas como o Brahman-Atman hindu induz à falsa crença de que é viável iniciar o caminho a partir do estado mais alto de consciência.
    • O cristianismo incorreu no mesmo erro ao difundir conceitos de graça e salvação como se o homem pudesse partir do nível mais elevado da vontade.
  • A utilização produtiva das grandes tradições espalhadas no mundo contemporâneo pode realizar-se por meio das leis de ressonância, assumindo-as como roteiros de atuação para o homem consciente.
    • O indivíduo desprovido dessa consciência deve atuar como um ator que encena o papel de homens e mulheres aperfeiçoados.
    • O exercício exige manter metade da atenção voltada internamente para o fracasso em corresponder à persona encenada.
    • A conduta externa deve pautar-se pela virtude, enquanto o olhar interno estuda os detalhes da própria falibilidade.
  • O ensino inadequado desses roteiros espirituais às crianças gera infecção por medo e culpa, rebaixando os ideais mais altos ao nível de terapia psiquiátrica comercial.
    • A memorização dos roteiros deve ocorrer na infância, livre do contágio da culpa coletiva.
    • A civilização contemporânea reduziu o cristianismo aos parâmetros da psiquiatria.
  • O aprendizado das leis de ressonância requer o recolhimento em estados quietos de ser, finalidade primordial da prática da meditação sentada.
    • O silenciamento corporal e o fechamento dos olhos propiciam a aquisição das ferramentas para o estudo da ressonância.
    • A atenção atua como ponte de transmissão para que o Cristo real substitua gradualmente a imitação do Cristo construída pelo indivíduo.
    • A meditação deve conduzir o sujeito de forma ordenada segundo a lógica espiritual, diferenciada da lógica mental e discursiva.
  • A purificação da intenção realiza-se no combate pelo próprio ser, ativando a lei de ressonância somente quando o indivíduo é abalado pela constatação de que seus apelos a Deus partem do ego.
    • O clamor a um Deus externo deve ser acompanhado pela indagação interna sobre a identidade de quem clama.
    • A recepção da verdade sobre o ego através de um corpo quieto viabiliza a operação da dinâmica espiritual real.

Teerã, 29 de dezembro de 1975

  • O início da prática de meditação matinal em um ambiente urbano ruidoso provocou um combate interno entre a busca pelo recolhimento e a atração da atenção pelos sons externos.
    • Os ruídos do tráfego do hotel disputavam a atenção do praticante.
    • O surgimento de aparelhos de rádio ou televisão na vizinhança gerou irritação e o temor de não alcançar o contato com a Verdade.
  • A cessação do combate contra o ruído e a escuta impessoal dos sons urbanos facultaram a percepção sutil do chamado à oração emitido por um minarete distante.
    • A audição dos sons realizou-se sem a identificação mental ou rotulação do que estava sendo ouvido.
    • O canto do muezzin manifestou-se de forma tênue por trás do barulho do tráfego.
  • A tentativa deliberada de desviar a atenção do tráfego para focar unicamente no canto do minarete provocava o desaparecimento imediato do som sagrado.
    • O canto oscilava entre a audibilidade e o sumiço devido às interferências externas.
    • A emersão do chamado à oração dependia da aceitação integral dos ruídos da rua, sendo bloqueada pelo desejo de diminuição do barulho.
  • A recepção do chamado espiritual em meio às condições do mundo contemporâneo dispensa a imposição de regras éticas rígidas devido à harmonização instantânea das partes do ser.
    • O desejo de isolar o ambiente para ouvir o muezzin transforma o chamado em advertência ou ameaça moral.
    • A aceitação das condições difíceis propicia que o santo desejo se funda à energia da atenção universal no indivíduo.
    • A via convencional demanda o decurso do tempo cronológico e o fim do ciclo planetário para a consumação do julgamento ou da salvação.
  • O caminho percorrido configura-se como a via rápida, caracterizada por operar na dimensão do tempo subjetivo voltada para os indivíduos impacientes.
    • A Tradição preserva a via rápida oculta por motivos de misericórdia e segurança espiritual.
    • O risco contemporâneo reside na confusão conceitual entre a Tradição geral e as especificidades da via rápida.
    • A Tradição estabelece o ideal imutável para a salvação da humanidade ao longo das eras, enquanto a via rápida altera-se conforme as demandas do momento.
    • A tarefa dos mestres, como Sócrates, concentra-se no despertar do santo desejo antes do encontro com a via rápida.
  • O texto de The Cloud of Unknowing explicita a dinâmica da via rápida por meio da distinção entre a humildade perfeita, originada em Deus, e a imperfeita, derivada do autoconhecimento da miséria humana.
    • A tradição geral demandava apenas a humildade imperfeita devido às limitações coletivas, ao passo que a via rápida exige a concomitância de ambas.
    • O homem humilde define-se como aquele que se posiciona na verdade com o saber real sobre sua própria condição.
    • O exame da realidade humana evidencia a degradação e a fraqueza decorrentes do pecado original, das quais o indivíduo nunca se liberta integralmente nesta vida.
    • A percepção da bondade divina e de seu amor superabundante cega santos e anjos ante a glória da transcendência.
    • A humildade perfeita decorre desse saber experimental sobre o amor de Deus e estende-se pela eternidade.
    • A humildade imperfeita provém da compreensão da miséria humana e cessa com a morte física, sendo eventualmente suspensa na vida terrena quando o praticante é arrebatado pela graça contemplativa.
    • O autoconhecimento da própria condição é base indispensável para alcançar a humildade perfeita, demandando esforço e trabalho contínuos para a posterior experimentação do amor divino.
  • A prática da via rápida consiste na experimentação simultânea da Presença Estável e do ego decaído em todas as circunstâncias do momento presente.
    • Essa dupla percepção assemelha-se à vivência de Moisés diante da Força Absoluta e da fraqueza das multidões, e à vivência do Mestre em relação a Deus e à natureza humana.
    • A complexidade da via decorre da ausência do experimentador real, que necessita nascer e desenvolver-se no homem.
    • Os místicos tendem a confundir o chamado inicial do Espírito com o objetivo final da existência humana, interrompendo o processo de busca que a via rápida prolonga para além do arrebatamento.
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