Glória dos homens
Logia Jesus — NÃO RECEBO GLÓRIA DOS HOMENS (João 5,41-44)
Jean-Claude Larchet: TERAPÊUTICA DAS DOENÇAS ESPIRITUAIS
O caráter patológico da cenodoxia, como o de todas as demais paixões, funda-se essencialmente no fato de ela ser constituída pela perversão de uma atitude natural e normal, pelo desvio de seu exercício “segundo a natureza”, isto é, conforme à sua finalidade essencial, para um exercício contra a natureza. À natureza do homem foi dado por Deus tender para a glória; mas era a glória divina que ele estava destinado a obter por sua união com Deus, não a glória humana que a paixão busca, e que a tradição chama “glória segundo a carne”. “A glória não é um mal, mas a vanglória”, diz São Máximo, dizendo aqui o mesmo que para as demais paixões, a saber, que o mal “é o mau uso, seguido da negligência de nosso espírito em cultivar-se segundo a natureza”, depois de haver afirmado que “na medida em que usamos mal as potências de nossa alma, os vícios se instalam nela”. São João Clímaco ensina no mesmo sentido: “nossa alma tem naturalmente amor pela glória, mas deve ser pela do céu, e não pela da terra”. Esta distinção entre as duas espécies de glória, a que vem de Deus e a que vem dos homens, encontra-se em muitos textos cujo tema é a cenodoxia. Encontra-se explicitada no Evangelho segundo São João; São Paulo refere-se implicitamente a ela quando diz que se gloria em Jesus Cristo, advertindo contra o perigo que haveria em gloriar-se fora de Deus. São João Clímaco precisa claramente: “Existe uma glória que vem de Deus, segundo esta palavra da Escritura: ‘Eu glorificarei aqueles que me glorificarem’, diz o Senhor”. “E há uma glória que não procede senão da malícia artificiosa do demônio”. “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”, ensina por duas vezes o apóstolo São Paulo. A glória que o homem recebe de Deus por participação em sua glória na união com Cristo é a única, diz Orígenes, “que merece verdadeiramente esse nome”. A única que é real, verdadeira, absoluta, eterna. Por outro lado, é a única que corresponde à finalidade da natureza humana e que é a medida da grandeza que Deus quis conferir ao homem. Ela é, diz São João Crisóstomo, “a glória própria da dignidade do homem”.
Tendo-se apartado de Deus por seu pecado, o homem deixou, ao mesmo tempo, de tender para esta glória à qual sua natureza o destina. Ao continuar, por sua natureza, desejando a glória, inclina-se então para o mundo sensível e ali busca satisfazer essa tendência que nele existe. E, na glória mundana “segundo a carne”, encontra sucedâneos da glória celestial e espiritual que perdeu de vista. “Depois de haver perdido a glória própria da dignidade do homem, busca por toda parte uma glória desprezível e digna do último desprezo”, escreve São João Crisóstomo. Resulta assim que a busca da glória mundana é a maneira pela qual o homem compensa miseravelmente em si a ausência da glória celestial e daquilo que, ao uni-lo a Deus, o faz participante dessa glória divina, a saber, as virtudes. São Doroteu de Gaza escreve: “Os que desejam a glória assemelham-se a um homem nu que não deixa de buscar farrapos de tecido ou qualquer outra coisa para cobrir sua indecência. Assim, aquele que está nu de virtudes busca a glória dos homens”. É evidente, pois, que a cenodoxia é constituída em sua totalidade por uma perversão, por um desvio patológico da tendência natural do homem à glorificação, e por um comportamento patológico de substituição que se segue a uma frustração ontológica. O fato de se tratar, aqui também, de uma mesma tendência orientada em dois sentidos opostos, e não de duas tendências de essências diferentes que possam coexistir independentemente uma da outra, surge claramente das múltiplas afirmações dos Padres quanto ao fato de que a busca da glória celestial e a da vanglória são antagônicas e excludentes uma da outra, e o desenvolvimento de uma se traduz por um enfraquecimento da outra.
Em outro sentido, pode-se acrescentar que a cenodoxia constitui uma perversão da natureza — entendendo-se esta palavra em um sentido mais geral e designando todos os bens que o homem recebeu de Deus, quer se trate de suas qualidades naturais ou adquiridas, quer de suas virtudes, quer ainda dos bens materiais que possui. Usando-os para sua própria glória, em vez de fazê-los servir exclusivamente à glória de Deus, o homem, diz São Máximo, “falsifica a natureza e a própria virtude”. Ele explica claramente que a ostentação, composta de cenodoxia e orgulho, “tem para a natureza a aversão alienante com a qual maneja contra a natureza, para o mau uso, todas as coisas da natureza”.
A cenodoxia mergulha o homem na ilusão e no delírio: este é um de seus efeitos patológicos fundamentais, o que justifica que também seja frequentemente qualificada de “loucura” pelos Padres.
A cenodoxia revela que o homem deixa de ter fé em Deus, constatam os Padres, seguindo nisso o ensinamento do próprio Cristo, que pergunta: “Como podeis crer, vós que recebeis glória uns dos outros e não buscais a glória que vem somente de Deus?”. Traduz, ao contrário, um apego ao mundo: aquele a quem ela afeta começa a ter fé nos homens dos quais espera atenção, estima, admiração, louvores, e em tudo aquilo que é suscetível de suscitar neles tais atitudes a respeito dele. Por isso São João Clímaco qualifica o vaidoso de idólatra, do mesmo modo que São Macário observa: “Os homens que fazem o próprio elogio são seus próprios deuses”.
