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Sentido Literal (2)
Henri de Lubac — História e Espírito
- Para quem percorre as homilias e comentários de Orígenes, as explicações sobre seu respeito pelo sentido literal parecerão à primeira vista insuficientes, pois em muitos trechos ele parece desprezar o sentido literal dos textos comentados e chega a declarar expressamente que somente uma interpretação espiritual permite recebê-los.
- Muitos intérpretes foram enganados por fórmulas aparentemente inocentes, nas quais viram abismos de negação — o erro, uma vez cometido, transmitiu-se de intérprete em intérprete até se generalizar.
- O bispo Freppel estuda Orígenes com simpática inteligência e o defende de acusações inexatas em diversas ocasiões, mas certos trechos aparentemente claros em sua intenção negadora desanimam a boa vontade do intérprete.
- Freppel afirma que, em lugar de buscar a ideia por trás do fato, Orígenes às vezes sacrifica o fato à ideia.
- Ao explicar o episódio de Rebeca, Orígenes teria dito: “Já disse muitas vezes que em tudo isso não há narração histórica, mas um tecido de mistérios.”
- Orígenes generalizaria essa observação para os fatos relatados nos primeiros capítulos do Êxodo: “Não imaginemos que os livros divinos narram os feitos e gestos dos egípcios — esses livros foram escritos para nos servir de instrução e advertência.”
- O que ultrapassa toda medida, segundo Freppel, são frases como: “Se nos prendêssemos à letra, de modo a interpretar as prescrições legais no sentido em que são entendidas pelos judeus, envergonhar-me-ia de confessar que Deus tivesse dado tais leis.”
- Freppel não compreendeu esses textos por tê-los lido com pressa e com o espírito já prevenido pelo que encontrou no prefácio escrito por Dom Charles de la Rue para o segundo tomo de sua edição de Orígenes.
- Dom de la Rue formou sua ideia sobre a exegese origeniana a partir de algumas passagens do Periarchon e do Contra Celsum, cujo alcance exagerou, à semelhança do procedimento que viria a adotar Anders Nygren em época posterior.
- De la Rue indignou-se com o fato de Huet — Pierre-Daniel Huet — não ter feito sua a diatribe de Eustáquio, que se queixava de Orígenes ter tratado como alegoria os poços cavados por Abraão, que ainda existiam em sua época.
- De la Rue replica que a existência desses poços não podia ter escapado a um homem que viveu tantos anos na Palestina — e que isso tornava Orígenes ainda menos desculpável, pois teria tratado como imaginação e fábula algo cuja realidade estava diante de seus olhos.
- Na homilia 10 sobre o Gênesis, visada por Eustáquio segundo Huet, Orígenes teria dito: “Já disse muitas vezes que nessas coisas non historiae narrantur sed mysteria contexuntur” — não se narram histórias, mas tecem-se mistérios.
- A desculpa de de la Rue é a própria época em que escrevia — sua infeliz Praefatio, seguida de ainda mais infelizes Animadversiones, é de 1733, a época menos mística que houve, a menos apta a compreender um pensamento como o de Orígenes.
- Richard Simon havia professado desdenhar “essa mística que só pode ser apreciada por pessoas pouco judiciosas” — e fora dos alguns “figuristas” exaltados, ninguém então estava disposto a ver no sentido espiritual mais do que um “entretenimento” sem virtude para instruir.
- O contrassenso, uma vez cometido, perdurou por longo tempo — Dom Bernard Maréchal afirma que Orígenes “trata de fábula a história de Rebeca tomada ao pé da letra, acrescentando que essa narração, como muitas outras, não contém senão mistérios e não uma história verdadeira”, concluindo ser isso um “sistema horrendo”.
- Para evitar o contrassenso, é necessário tornar explícito o raciocínio, em toda parte latente em Orígenes, que lhe serve de justificativa para numerosas exegeses.
- Esse raciocínio consiste em afirmar que, se não houvesse sob a letra uma intenção oculta do Espírito Santo que vai além do que ela diz, essa mesma letra seria frequentemente incrível — seja pelo que ela oferece de chocante, seja por suas aparentes contradições e ilógismos, seja por sua banalidade.
- O segundo ponto do raciocínio, que muitos não observaram: o sentido espiritual, que dá seu verdadeiro valor ao texto, justifica a letra em sua própria literalidade — salva essa letra por acréscimo.
- A consequência é que os judeus, ou aqueles que seguem sua escola, ao não reconhecerem o sentido espiritual dos fatos ou dos preceitos, privam-se do direito de neles ver fatos ou preceitos reais — sua conduta torna-se irracional (“alogos”) e, como Zacarias que ficou mudo, não podem explicá-la.
- No raciocínio podem-se distinguir duas etapas: primeiro, não se vê por que o Espírito, sem uma intenção secreta, teria feito consignar tais fatos na Escritura; depois, certos fatos em si mesmos não teriam razão de ser — sua estranheza os tornaria inverossímeis — e só se explicam de modo satisfatório porque eram destinados a transmitir um ensinamento místico.
- Um conjunto amplo de exemplos bíblicos ilustra esse raciocínio e mostra como a alegoria salva a credibilidade do relato literal.
- As guerras dos Livros de Josué e dos Juízes não escandalizariam pelo fato de terem ocorrido, mas escandalizaria que o Espírito Santo tivesse querido transmitir seu relato sem outro propósito — o escândalo cessa se “essas guerras carnais carregam a figura de guerras espirituais”.
- Os hereges, “não querendo ouvir essas guerras como exige a dignidade do Espírito Santo, afastaram-se da fé e envolveram-se em inúmeras impiedades.”
- O mesmo raciocínio aplica-se à história dos gêmeos de Tamar, à menção do festim de Abraão no dia do desmame de Isaac, ao relato da tomada de Hai pelos israelitas.
- Sobre um obscuro rei de outrora enforcado num duplo madeiro: o Espírito Santo não teria cuidado de dar a conhecer esse fato por si mesmo, mas se por ele se aprende que há uma dupla virtude na cruz do Salvador, “a alma é edificada e a consignação do fato no Livro inspirado encontrou sua razão suficiente.”
- A posição das mãos de Moisés durante o combate dos hebreus contra Amaleque só interessa se o Espírito “prefigurava mistérios futuros” nesse detalhe.
- A aliança de Deus com o homem pelo rito carnal da circuncisão só se crê facilmente ao se discernir nesse rito a figura antecipada da circuncisão espiritual, como Paulo ensina a fazer.
- O Livro dos Números fala longamente dos recenseamentos dos filhos de Israel e dos lugares onde acamparam no deserto: “De que utilidade isso me é? Que progresso retiram os que leem e meditam dia e noite a Lei de Deus?” — mas encontrando “uma inteligência digna das leis do Espírito”, todo espanto cessará.
- As oblações do Levítico cozidas no forno, na caçarola ou na frigideira, destinadas ao sacerdote que as oferecer: “Não é assim que os filhos da Igreja aprenderam Cristo — os apóstolos não lhes deram ideias tão baixas do Senhor da Majestade” — mas a “interpretação espiritual que o Espírito dá à Igreja” desse sacrifício remove qualquer dificuldade.
- Quanto ao “siclo santo” que deve comprar o carneiro da absolvição: segundo a letra apenas, tal indicação parece ridícula — o legislador quis fazer entender algo mais e conduz assim pela mão a uma inteligência superior.
- Os adversários da alegoria “fornecem matéria para denegrir Moisés” e, através de Moisés, o próprio Deus é atingido — “se tu considerares apenas a insignificância da coisa em si mesma, ela te parecerá indigna de Deus; mas se olhares para a grandeza do mistério nela contido, serás edificado.”
- O raciocínio assume por vezes uma forma mais simplesmente positiva, como quando Moisés relata que era meio-dia quando Deus se manifestou a Abraão junto ao carvalho de Mambré.
- “Se acreditamos que isso foi escrito pelo Espírito Santo, não penso que lhe tenha agradado sem razão precisar assim o tempo e a hora mesma da visão, senão para servir à instrução dos que deveriam ser filhos de Abraão.”
- Frequentemente, porém, a forma é mais provocante e presta-se a equívocos — e se sistematizado, o raciocínio é certamente criticável, pois o sentido espiritual é introduzido de maneira artificial e um tanto mesquinha, “pelo exterior.”
- O julgamento de que isso é “enganar-se grosseiramente sobre o sentido da revelação, a natureza do sentido literal e sobretudo a verdadeira edificação” é talvez severo demais, pois não leva em conta a situação do exegeta cristão no século III nem insere esse traço no conjunto de uma doutrina.
- Não é verdade inegável que os detalhes materiais do ritual mosaico ou mesmo certos livros inteiros do Antigo Testamento não conseguiriam, considerados sozinhos, comunicar uma ideia justa de Deus? — por isso “aquele que lê as leis sobre os sacrifícios deve se esforçar para explicá-las de dupla maneira: kata te to symbolikon, kai kata to aporrheton kai mystikon” — segundo o simbólico e segundo o mais secreto e místico.
- O desejo de colocar a Sinagoga em posição difícil e de mostrar que somente os discípulos de Cristo podiam justificar plenamente as Escrituras judaicas mal serviu ao apologista — mas ao menos força a reconhecer que Orígenes não é de modo algum a negação da letra que frequentemente se pretendeu, sendo ao contrário, ainda que de modo indireto, sua justificação.
- O raciocínio de Orígenes não lhe é peculiar — está longe de ser um princípio fundamental e aparece antes como uma arma ocasional de que logo não tem mais necessidade quando sai da atmosfera de combate.
- Hipólito de Roma, comentando Daniel, propõe o mesmo raciocínio nos mesmos termos: “Que necessidade havia para o profeta de dizer: Lembrarei de Raabe e da Babilônia, que me conhecem, se não tivesse previsto em espírito o mistério aqui dispensado?”
- O pseudo-Crisóstomo dos Discursos sobre a Páscoa, que depende provavelmente de Hipólito, afirma a propósito do Cordeiro pascal: “Tudo isso encontra seu fundamento em Cristo e na Paixão de Cristo, e nela torna-se verdadeiro e necessário; ao passo que, tomado à parte, em si mesmo, não oferece nenhuma razão. Assim, os que ignoram Cristo nada têm a dizer para defender tais coisas… Mas aquele que as refere à Verdade conhece seu fundamento racional… Vedes, portanto, que força tem a figura quando se a contempla como fundada na verdade.”
- João Crisóstomo, em suas pregações de Antioquia, não hesita em servir-se do mesmo argumento — a propósito da genealogia de Cristo em Mateus, ao mencionar Zara além de Fares: “Mas vê o enigma dos mistérios: pois isso não foi escrito para nós sem razão. Não convinha à dignidade da história relatar essas palavras de uma parteira; tais detalhes não pareciam dignos de ser narrados. É preciso, portanto, que haja aí um enigma. Qual?… Essas duas crianças eram a figura de dois povos.”
- Muito longe de abandonar a extração de uma interpretação espiritual da letra, Orígenes, sem nada tirar da história, espiritualiza toda a Escritura para uso da alma cristã, como mostra uma página do tratado sobre a oração.
- “É bem mais a alma de Ana que concebeu e foi curada de sua esterilidade do que seu corpo que carregou Samuel.”
- “Ezequiel engendrou bem mais os filhos divinos do Espírito do que os do corpo nascidos da semente corporal.”
- “Ester, Mardoqueu e o povo foram bem mais protegidos contra as ciladas inteligíveis do que contra as de Amã e seus conjurados.”
- “Judite destruiu bem mais o poder do príncipe que buscava corromper sua alma do que o de Holofernes.”
- “Quem não acreditaria que sobre Ananias e seus companheiros desceu a bênção espiritual prometida a todos os santos por Isaac a Jacó: Que Deus te dê o orvalho do céu, bem mais do que o orvalho corporal que extinguiu a chama de Nabucodonosor?”
- “É bem mais aos leões invisíveis, impotentes para nada fazer contra sua alma, que Daniel pôs freio, do que aos leões sensíveis cuja história todos encontramos na Escritura.”
- “E quem evitou o ventre da fera domada por Jesus nosso Salvador e que devora todos os que oram a Deus como Jonas, tornando-se participante, enquanto santo, do Espírito Santo?”
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