User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
e:bergamo:estrutura-alma

1 Estrutura da Alma

BERGAMO, Mino; BONNEVAL, Marc. L’anatomie de l’âme: de François de Sales à Fénelon. Grenoble: J. Millon, 1994.

  1. A estrutura da alma corre o risco de permanecer inacessível se se parte da célebre tese cartesiana segundo a qual há em nós uma única alma sem nenhuma diversidade de partes, sendo necessário partir do princípio oposto e admitir que a alma, mesmo sendo uma, é constituída de uma multiplicidade de partes distintas que mantêm entre si relações de coordenação, subordinação parcial ou total, oposição e conflito.
    • Jean-Pierre Camus observa que a alma humana, em sua unidade, compreende uma grande multiplicidade de funções, faculdades e potências, assim como o corpo, por ter diversos sentidos e membros, não deixa de ser uno, e o mundo, uno, por ter em seu todo tantas partes diferentes que o fazem chamado universo, como se dissesse uno e diverso.
    • Frequentemente representada como um espaço, a alma tende a se repartir, nos textos dos autores espirituais, segundo as categorias de alto e baixo, de profundidade e superfície, fazendo surgir uma estranha e fascinante geografia do mundo interior: por um sentido ela pode ser chamada alta, por outro baixa, tendo seus cumes, suas profundidades, e segundo isso diversas operações, sendo que Deus opera nela coisas diferentes conforme suas diversas capacidades.
    • Os espirituais do século XVII percorrem incessantemente, em todos os sentidos e direções, as regiões do espaço interior, cujas amplitudes indeterminadas louvam, sem deixar de descrever minuciosamente os diversos aspectos de sua morfologia, sendo cada um deles, à sua maneira, um geógrafo ou cartógrafo da alma.
  2. A interrogação acerca da estrutura da alma inscreve-se, no século XVII, no contexto de uma problematização mais geral de tudo o que pertence ao domínio da experiência interior, num interesse extremamente vivo pelo mundo da interioridade, com uma atenção crescente e quase febril voltada para tudo o que ocorre, do mais ordinário ao mais extraordinário, dentro das fronteiras desse espaço misterioso.
    • Empreende-se então uma exploração sistemática dos fenômenos que se manifestam na vida interior, buscando elaborar uma classificação das fases ou estágios que nela se sucedem e tentando traçar o mapa das rotas ou itinerários que se podem nela delimitar.
    • Numa espiritualidade impregnada dos temas da introspecção, do recolhimento e da reforma interior, penetrada pela necessidade experimentada pelo sujeito de entrar dentro de si para encontrar no espaço interior aquele Deus mais íntimo a nós mesmos do que nós o somos para nós, o problema da configuração da alma, de sua geografia interna e da distinção e coordenação de seus elementos não podia deixar de adquirir importância considerável.
    • Para responder a perguntas do tipo: em que parte da alma surge o impulso maligno que se sente brotar? em que zona Deus fez sentir sua presença durante a oração mental? e em que outra zona o demônio tentou se insinuar? era preciso dispor de um sistema de referências adequado, de uma teoria satisfatória da estrutura da alma.
  3. O papel desempenhado pela teoria da estrutura da alma nas doutrinas espirituais do século XVII pode ser descrito de dois pontos de vista, o interior e o exterior, correspondendo o primeiro à percepção que os próprios autores espirituais tinham dessa teoria e o segundo à maneira como ela se apresenta ao leitor moderno dos textos espirituais.
    • Jean-Pierre Camus, no quarto capítulo do Tratado da reforma interior, intitulado A economia da alma, justifica a análise estrutural da alma nos seguintes termos: como é sobre o fundo da alma que se vai trabalhar e é esse quadro desfigurado que se deseja restituir a uma forma melhor, é razoável mostrar o plano e o assento, descobrir as molas e as engrenagens desse relógio e decifrar sua economia.
    • A perspectiva terapêutica aparece em pleno dia em passagem decisiva do capítulo IV: assim como os médicos, antes de empreender a cura dos corpos humanos, se dedicam com afinco à anatomia e examinam minuciosamente sua composição, se se quer reformar o interior e restituir a alma desregulada ao seu dever em seu justo assento, é necessário ver claramente em todas as suas molas e penetrar em todos os seus redobramentos, desvios e esconderijos.
    • Três grandes equivalências comparativas se desenham no texto: os médicos equivalem aos espirituais, médicos da alma; a cura do corpo equivale à reforma da interioridade; a anatomia equivale à descrição da estrutura da alma.
  4. Do ponto de vista de Camus, representativo de uma atitude muito difundida na espiritualidade do século XVII, a função da teoria da estrutura da alma é abrir ou fundar a possibilidade da reforma interior, mas, mudando de ponto de vista e adotando o do leitor moderno, tem-se a impressão de que o papel dessa teoria é muito mais geral, sendo ela uma espécie de grade de deciframento da vida interior a que se pode recorrer a propósito de qualquer aspecto da experiência espiritual.
    • Essa topologia pode ser manifesta ou latente, mas está sempre presente, como se uma certa ideia da estrutura da alma orientasse necessariamente a descrição e a interpretação dos conteúdos da vida interior.
    • É em relação a ela que podem ser compreendidas as mudanças e as aventuras da vida interior; é à luz de suas categorias que se entendem as disposições, as consolações e as desolações do sujeito espiritual; é a ela, em definitivo, que todos os fenômenos da vida interior são sempre referidos para poder ser compreendidos, explicados ou simplesmente descritos.
  5. Francisco de Sales, no sétimo livro do Tratado do amor de Deus, consagrado à união divina que se realiza na oração mental, ao falar do sentimento sagrado da presença de Deus, precisa imediatamente que não fala do sentimento sensível, mas do que reside no cume e suprema ponta do espírito, recorrendo assim a uma certa imagem da estrutura da alma para delimitar o objeto de seu discurso.
    • Jeanne de Chantal, em célebre carta endereçada a Francisco de Sales, recorre igualmente ao conceito de ponta do espírito para explicar como, ao fim de uma noite cheia de angústias, gozou de um breve alívio de suas penas interiores: ao ponto do dia, Deus lhe fez saborear, mas quase imperceptivelmente, uma pequena luz na muito alta suprema ponta de seu espírito; todo o resto de sua alma e suas faculdades não a usufruíram; e ela não durou mais do que aproximadamente meio Ave Maria, quando seu tormento se lançou de novo sobre ela e a manteve toda ofuscada e obscurecida.
    • Ao falar assim a Francisco de Sales, Jeanne de Chantal fala em sua língua e se serve, para tornar compreensível e como visível sua experiência interior, de uma das categorias características da representação salesiana da estrutura da alma.
  6. Quer o fenômeno a representar seja o sentimento da presença divina, o amor de Deus ou uma iluminação que interrompe a noite das penas espirituais, ele será sempre representado a partir de uma certa teoria da estrutura da alma, do ponto de vista dos autores do século XVII como uma anatomia que funda a possibilidade da reforma interior, e do ponto de vista do leitor moderno como a possibilidade mesma de articular um discurso inteligível sobre a vida interior e, portanto, a existência de uma cultura da interioridade.
  7. A espiritualidade cristã não esperou o século XVII para interrogar-se sobre a estrutura da alma, pois esse problema pertence ao conjunto das grandes questões que, obstinadamente repetidas, desenham uma linha ininterrupta ao longo dos séculos, sendo que a novidade do século XVII consiste apenas na acentuação ou retomada de uma tendência extremamente antiga, milenar, cujo nó se encontra, salvo engano, na obra de Santo Agostinho.
    • O aparecimento, com o desenvolvimento da escolástica no século XIII, de uma antropologia fortemente estruturada que, modelando-se na filosofia aristotélica, comportava uma classificação rigorosa das faculdades da alma e uma análise minuciosa de seu funcionamento, abriu o caminho a uma longa série de enxertos, de modo que conhecimentos amadurecidos no terreno do discurso filosófico podiam a qualquer momento ser transplantados e aplicados no campo da literatura espiritual.
  8. Na representação da estrutura da alma é preciso distinguir dois níveis hierarquizados de elaboração conceitual: o dos modelos da alma, representações sistemáticas ou esquemas elementares, e o das imagens da estrutura da alma, representações menos abstratas e mais detalhadas nas quais os modelos se especificam em textos concretos.
    • Um modelo da alma pode geralmente ser descrito como o invariante de um conjunto determinado de imagens da estrutura da alma, sendo uma espécie de matriz comum que pode se apresentar numa multiplicidade de imagens diferentes e que forma como um canevas de base que cada autor pode modular à sua maneira.
    • No século XVII, o nome de Francisco de Sales está associado a um desses eventos extraordinários: com ele aparece não apenas uma nova imagem, mas também um novo modelo da estrutura da alma, uma transformação que altera em profundidade os esquemas de modelização da alma e que não se limita a modificar a representação superficial que se baseia nesses esquemas.
    • O modelo salesiano toma forma, como atesta a correspondência com Jeanne de Chantal, nos anos em que Francisco de Sales trabalha na composição do Tratado do amor de Deus, manifestando-se nessa obra imponente não em uma imagem bem determinada da estrutura da alma, mas numa pléiade de imagens contíguas e ligeiramente deslocadas umas das outras, sendo a data conhecida de publicação do Tratado do amor de Deus, 1616, a data de aparecimento de um novo modelo da alma na cena da literatura espiritual.
Search
e/bergamo/estrutura-alma.txt · Last modified: by 127.0.0.1