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1 Origem da Cruz

DOUZETEMPS. LE MYSTÈRE DE LA CROIX. Milano: Sebastiani, 1975

Capítulo I — Da origem da Cruz

  1. Entre as diferentes maneiras pelas quais agradou a Deus se manifestar nas Sagradas Escrituras, uma das mais consideráveis em seus mistérios e das mais amplas em suas significações é aquela com a qual Isaías faz falar o Senhor no capítulo 41, versículo 4: “Quem é aquele que operou e fez essas coisas? É aquele que chamou as idades desde o princípio. Eu, o Eterno, sou o primeiro, e estou com os últimos”, declaração confirmada no capítulo 44, versículo 6, e por São João na Apocalipse, que coloca na boca de Cristo: “Eu sou Alpha e Omega, o começo e o fim, o primeiro e o último.”
  2. A revelação profética e apocalíptica serve para balbuciar como uma criança a origem inefável da Cruz: quando Deus diz que é Alpha e Omega, entende-se por Aalpha o abismo sem fim, sem começo, sem fundo, sem margem, sem número e sem medida, sem lugar nem situação, o sagrado Aleph tenebroso, o Alfa desconhecido e inominável em que tudo está oculto, tempo e eternidade, uma sagrada obscuridade, sacra caligo, fora da natureza, cuja pesquisa não é permitida à fraqueza do homem, pois do contrário seria oprimido por seu peso imenso e não lhe restaria de sua presunçosa especulação senão vertigens.
    • As trevas são sua esconsa: “et posuit tenebras latibulum suum” (Sl 18, v. 11; 3 Rs c. 8, v. 12), e no entanto não há trevas ali, mas somente um abismo, ou magia divina.
  3. No abismo há todavia uma vontade abissal, mas sutil como o nada, que se retira em si mesma, se impregna, se concebe e se engendra, tornando-se assim o começo eterno de si mesma, isto é, da vontade, sendo que essa vontade abissal do Alpha, ou do Aleph, não tendo fundo algum, se faz um ao se contemplar a si mesma, e esse fundo pode ser figurado pelo V, que é o Verbo eterno, o espelho, a forma, a imagem substancial do Alpha, o primeiro nominável que estava no princípio e que é chamado pelo nome santíssimo, augustíssimo e majestosíssimo JEHOVAH, que encerra em si todas as vogais ou letras vocais, pois é a Vida e o Espírito de tudo o que saiu dele pela criação.
    • São João (c. 1, v. 1) exprime isso assim: “No começo (que é o Aleph) era o Verbo, e o Verbo estava com JEHOVAH, e o Verbo era JEHOVAH”, donde se vê a geração eterna e inerrável do Verbo pelo Aleph, ou o começo e princípio eterno, e a manifestação do Alpha pelo Verbo, que é JEHOVAH, a palavra, a voz, o coração, a virtude do começo eterno que desvela e manifesta o Aleph ou o Abismo.
  4. O Alpha, ou Aleph, está no V, ou no Verbo, e o Pai no Filho e o Filho no Pai indivisivelmente, e o V tira o Alpha para fora do abismo da eternidade, sendo sua voz e sua palavra substancial e a abertura do olho da eternidade semelhante a um globo imenso e infinito que encerra tudo e que não é encerrado por nada, estando acima, abaixo, dentro e através de tudo, sendo isso o que se encontra pelo Omega no nome augustíssimo de JEHOVAH, que representa esse globo imenso e esse olho aberto da eternidade.
    • No nome sagrado de JEHOVAH descobre-se também o grande e inefável mistério do Espírito Santo, espiral eterno do Alpha e do V, que os preenche e os reabastece infinitamente, sendo o vínculo de seu amor e de sua vontade, a vida e o espírito do círculo imenso, que ele anima e vivifica por dupla espiração passiva e ativa, pois nesse nome inefável há dois H, ou aspirações, entre Omega, V, Alpha, JEHOVAH, marcando esse sopro sagrado animante, preenchendo e unindo Omega, V, Alpha.
  5. Se se pudesse representar por alguma figura o sagrado Ternário, ele formaria um triângulo de fogo com o ponto do meio marcando o abismo, sendo a manifestação da Cruz gloriosa e triunfante no Verbo pelo elemento santo, puro e virginal da água espiritual viva e vivificante, sem a qual jamais se poderia ter acesso ao triângulo de fogo que habita uma luz inacessível que nenhum homem jamais viu nem verá, senão em e pelo elemento da água santa, que é a sagrada corporalidade da divindade e seu tabernáculo com os homens.
    • O triângulo de água é toda a doçura, a mansidão, a humildade, a bondade, a misericórdia, a beleza, a amabilidade e a graça comunicativa do triângulo de fogo, que no triângulo de água perde sua ponta elevada e sua natureza ardente e consumidora, a qual faz chamar a Deus um Deus ciumento e fogo consumidor, ao passo que pelo triângulo de água ele é chamado Pai das misericórdias e Deus de toda consolação, cujas benignidade, graça e mansidão nos foram manifestadas pelo Verbo feito carne: “cum autem benignitas et humanitas apparuit Salvatoris nostri Dei” (Tt c. 3, v. 4).
  6. Reunindo o Alpha e o V, ou seja o triângulo de fogo e o triângulo de água juntos, forma-se um duplo triângulo, no qual se encontra: (1) uma água de fogo e um fogo de água, ou seja o fogo temperado pela água e a água vivificada pelo fogo, e portanto o princípio do renascimento ou regeneração pelo espírito de fogo e pela água de vida; (2) do ponto central desse duplo triângulo, percorrendo com um compasso os seis ângulos, obtém-se um círculo perfeito que é o globo da eternidade, ou o O do nome augusto JEHOVAH, em que tudo está encerrado como numa esfera de extensão imensa; (3) todo esse sagrado duplo triângulo de fogo e de água não é senão pura vida, espírito, luz, amor, benevolência de uma temperatura inexplicável, de cores vivíssimas, de figuras amabilíssimas, de força e virtude todo-poderosa, de sabedoria toda previdente e ordenante.
  7. O Verbo eterno, se tendo portado nesse elemento santo e virginal da água, manifestou assim as maravilhas do Aleph pela criação do mundo angélico, e sobre o modelo do mundo angélico a criação do mundo exterior visível e palpável, astral e elementar, após a queda dos anjos rebeldes que tinham feito dele um caos tenebroso descrito por Moisés no começo do Gênesis, sendo que no quarto dia abriu um ponto do mundo interior divino e angélico como porta de luz para iluminar esse mundo exterior, colocando esse ponto no lugar mesmo onde Lúcifer havia tido seu assento ou trono real, e isso é o que se chama o sol, pelo qual a luz interior é comunicada para fora, sendo sempre mais distante de sua fonte e mais dilatada na circunferência quanto mais se afasta do centro.
  8. Depois que todo esse mundo celeste e terrestre com tudo o que contém foi criado, o homem, derradeiro obreiro e obra-prima divina do mundo visível, foi criado no sexto dia à imagem de Deus, de sorte que pela raiz mais íntima de sua alma ele mantém um vínculo indissolúvel e indivisível com o abismo da eternidade, por seu espírito com o mundo luminoso divino e angélico, e por seu corpo com o mundo astral e elementar, criado entre a luz e as trevas, o amor e o ódio.
    • Nesse estado primordial, o elemento santo, puro e virginal, temperado de fogo e de água espiritual e celeste, verdejava pelo ponto aberto do sol através dos quatro elementos exteriores e os temperava em suas qualidades, enquanto o homem permanecesse fiel e obediente à sabedoria divina, cuja intenção era manifestar as maravilhas do tempo e da eternidade por essa nobre obra de suas mãos como por um instrumento vivente extraído de toda a natureza, como um pequeno mundo recortado e recolhido num pequeno volume.
  9. Logo após a infidelidade e a desobediência do homem, a sabedoria se retirou dele, os elementos começaram a fazer aparecer suas qualidades sensíveis do frio e do calor, do seco e do úmido, o elemento santo não mais agindo tão vivamente como antes, pois a terra por causa da maldição saíra do ponto do sol ao qual pertencia e tornara-se ela mesma o centro e a sentina de todas as impurezas dos outros elementos, e o fogo espiritual da alma do homem, que era suavizado e temperado pela água de espírito e de vida que a sabedoria lhe comunicava, tornou-se tenebroso, fogoso, áspero, austero, cheio de aguilhões, picante e famélico, tendo perdido seu verdadeiro alimento.
    • A cruz doce, amável, vitoriosa e triunfante, que o homem portava no sinal e no caráter divino Tau do qual era a imagem, tornou-se uma cruz cheia de espinhos e abrolhos, um verme mordaz e roedor, uma serpente envenenada e picante em seu seio, após ter seguido as sugestões enganosas e funestas da serpente por condescendência covarde para com sua mulher.
  10. Assim o homem e toda sua posteridade ficaram expostos a todas as injúrias das estações, à inclemência dos elementos, à ferocidade das bestas, à crueldade e à injustiça, à violência e à tirania dos outros homens, abandonado de sua fiel condutora, a sabedoria, entregue a seus próprios caprichos, paixões e cegueiras causadas pelo pecado, sujeito às doenças do corpo e do espírito, e enfim à morte temporal, que é pouca coisa, mas em perigo da primeira e da segunda morte, que é o terrível decreto do grande Juiz.
  11. Na sequência, as criaturas se multiplicaram e se fortificaram em sua malignidade, e se afastando sempre mais da bondade, da virtude e da luz da fonte, por esse mesmo afastamento do centro as linhas tornaram-se sempre maiores, as criaturas em maior número e variedade, e consequentemente mais sujeitos de tentações ou de distração da unidade do centro pela multiplicidade da circunferência, sendo essa a verdadeira causa da cruz dolorosa, pois sem contrários não há cruz, e sem cruz não há manifestação: como conhecer as maravilhas da eternidade, que não é senão um puro abismo, sem o tempo que é seu fundo e que a evidenciou? como conhecer a luz sem as trevas, o fogo sem a água, o dia sem a noite?
    • Aleph divinum crucis est et lucis origo: / Per sacram, Deitas fit manifesta, crucem. / Fulgure ab aeterno Sanctus Ternarius exit; / Praesentatque, sacro lucis ab igne, crucem. / O quantum magnale crucis! si lucis anhelus / Luce frui cupias, sub cruce disce pati.
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