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2 Cruz em geral
DOUZETEMPS. LE MYSTÈRE DE LA CROIX. Milano: Sebastiani, 1975
Capítulo II — Da Cruz em geral, e de suas causas
- Após o homem ter saído da harmonia divina por sua desobediência, querendo se elevar acima do estado em que havia sido criado como uma raiz de árvore que quer se elevar no ar onde se torna árida, tudo o que estava dentro e fora dele se revoltou contra ele, e se a misericórdia do Verbo JEHOVAH não tivesse encontrado nos recursos infinitos de seu amor um meio de tirá-lo do abismo horrível em que se havia precipitado com toda sua posteridade, teria se tornado companheiro de Lúcifer, mas a graça divina se imprimiu de novo em Adão pelo santíssimo nome de JEHOVAH em Jesus, prometido como libertador e redentor, embora a imagem de Deus gravada nele houvesse ficado murcha como a imagem da morte ou como uma flor murchada pelas ardências do sol.
- Assim como a luz não pode ser engendrada sem fogo nem pode subsistir senão numa água doce e oleosa que lhe serve de alimento contínuo, o fogo pelo qual o homem está indivisivelmente ligado à eternidade sem fim tornou-se nele e em todos os homens uma fúria, uma fome ávida e árida, uma inimizade aguda e pungente, cujas essências não são senão amarguras e aguilhões, trevas e horror, e se os raios da luz eterna que reluzem de tempos em tempos sobre esse fogo tenebroso não temperassem essa angústia de fogo, seria o inferno aberto e descoberto.
- A semente da mulher, que esmaga continuamente a cabeça da serpente e do dragão de fogo, envia emanações de suas águas doces, vivas e refrescantes que moderam essa sede enraivecida e essa avareza insaciável, e é desse fogo como do pai que se engendra a luz como filha nessas águas viventes como a mãe, sendo essa luz o verdadeiro ser de todas as coisas, a vida delas, sem a qual não há senão angústia moribunda, dor geenante, ignis Gehennae, mas com a qual não há senão doçura, amor e vida: “Et vita erat lux hominum” (Jo c. 1, v. 4).
- Na raiz mais profunda ou no fundo mais íntimo da natureza encontra-se um espírito cruel, severo, amargo, agudo, austero, de um frio tão gélido quanto de um ardor abrasador, acima de toda imaginação e de toda expressão, e quando se descobre e se desdobra numa criatura é o inferno, sendo as coisas visíveis feitas sobre o modelo das invisíveis (Hb c. 2, v. 3) e criadas entre a luz e as trevas, entre o bem de Deus (“et erant valde bona”, Gn c. 1, v. 31) e o mal introduzido por Lúcifer, entre a vida e a morte.
- Quando a natureza exterior aquecida no verão pelos ardores do sol acumulou no ar muitas matérias sulfurosas, betuminosas, nitrosas e muito inflamáveis, o frio furioso ajunta de seu lado as águas do ar em nuvens e delas faz um espécie de mar glacial, enquanto o calor excessivo do ar passa com ímpeto ardente através das águas com seus relâmpagos, funde o mar congelado, e desse combate furioso e violento do frio e do quente trovejam os trovões, os raios penetram, acendem ou derrubam o que encontram, os fundamentos da terra são abalados, os homens tremem de terror e de pavor, os animais e as bestas selvagens se retiram em suas cavernas.
- O mesmo fundo que causa esses horrores no mundo exterior encontra-se no mundo interior do homem, e esse fundo do homem que era seu maior amigo em sua harmonia com a sabedoria divina, sendo a base e o vínculo eterno que torna o homem imortal, torna-se seu maior inimigo doméstico, a menos que pela ajuda da graça e da luz que ilumina todo homem vindo ao mundo ele o reponha na ordem e na concórdia a que o Criador o havia destinado.
- Esse fogo, ou fundo ígneo, é um íman, uma fome e uma sede que atrai a si o que encontra para se saciar e se refrescar: se se volta para o lado da luz que engendra a mansidão, receberá o maná celeste e o alimento dos anjos, até a palavra viva que procede da boca de Deus e que está próxima em nossa boca e em nosso coração (Rm c. 10, v. 8), e se operará uma feliz metamorfose desse espírito de fogo e desse fundo tenebroso num filho de luz; mas esse mesmo fundo torna-se nele um inimigo e um algoz cruel se lhe dá por toda nutrição a palha, o feno, a madeira, os estouros das coisas deste mundo, que ele consome como um nada sem saciar sua fome nem estancar sua sede, o que lhe causa suas cupidezas, suas cóleras, suas vinganças, suas raivas e seus desesperos.
- É uma verdade incontestável que esse fundo de fogo ou espírito de fogo, que a Escritura Santa chama trevas exteriores, é no entanto a base e o pai da luz, pois a luz é um relâmpago doce, amável, cheio de força, de vida, de virtude e mesmo de mansidão quando a água supera o fogo no relâmpago, pois sem fogo e sem água não se faz relâmpago, que tem o fogo por pai e a água por mãe.
- Meditando bem o primeiro capítulo precedente, encontram-se nele mais maravilhas do que parece à primeira vista, mas é preciso entender tudo espiritualmente no mundo interior, como se entende e se vê materialmente no mundo exterior, que não é senão uma figura ou imagem (schema, 1 Cor c. 7, v. 31) daquele: a luz dá a vida, a bondade, a beleza e o valor a todas as coisas, como o fogo tenebroso não dá senão horror, terror, aflição pungente e morte roedora onde quer que se encontrem.
- Por sua queda, o homem não perdeu apenas a graciosa companhia da luz pelo afastamento da sabedoria divina, mas por uma consequência necessária da privação da luz a terra foi amaldiçoada, produzindo apenas espinhos e abrolhos, e o homem foi condenado a comer seu pão ao suor de seu rosto, sendo esse o começo da cruz de penitência a que todos estão condenados se quiserem recuperar, pela graça de Jesus Cristo, sua primeira inocência e sua pureza luminosa.
- As causas das cruzes aflitivas encontram-se na contrariedade, donde nasce o combate para vencer o partido inimigo, e sobretudo o grande adversário que São Pedro (1 Pe c. 5, v. 8) chama de leão que ruge procurando a presa para devorá-la, sendo nossos outros inimigos domésticos nossas paixões desregradas e nossas cobiças desordenadas que se atiram sobre tudo o que lhes apresenta a concupiscência da carne, a cobiça dos olhos e o orgulho da vida.
- Há ainda dentro de nós uma serpentezinha que é bela, bonita e gentil, que se mete por tudo até no santuário, que governa hoje todos os que se chamam sábios e que não quer ceder o passo a seu mestre que é o espírito no homem, e que se adivinhe facilmente ser a RAZÃO, essa pequena peste doméstica, essa inimiga declarada da cruz, essa lisonjeira e enganosa, que sendo destinada a regular as coisas corporais e exteriores, quer dominar até sobre o espírito e subjugá-lo sob suas leis.
- O homem sendo um extrato dos três princípios ou mundos, o tenebroso infernal, o luminoso divino e celeste e o mundo exterior criado fora dos dois, possui também os três centros, dos quais um quer dominar sobre o outro, e assim os três estão em disputa e combate contínuo para ter a nobre imagem do homem: o espírito de fogo tenebroso o reivindica por direito de natureza pois o homem foi engendrado de sua raiz; o espírito deste mundo, do qual Satanás é o príncipe, também o reivindica pois o possui e o porta em seu seio dando-lhe continuamente sua vida, seu sustento, seu talento e suas maravilhas; e o espírito de luz, no qual o reino de Deus quer absolutamente ter a imagem do homem, lhe envia toques suaves de amor para atraí-lo.
- Cada um desses três princípios apresenta seus encantos e suas iscas: o mundo do fogo tenebroso apresenta a força, o poder e a glória; o mundo exterior oferece bens e riquezas, cargos e honrarias, e todo tipo de prazeres sensíveis; o reino dos céus coloca diante do coração e do espírito a paz, a alegria, a justiça, o amor, a inocência, a pureza e por fim todos os bens eternos sem fim, dando esperança e certeza de um pleno gozo a quem a ele quiser se render totalmente.
- O combate é violento e obstinado por causa dos três inimigos muito poderosos uns contra os outros, e o espírito luminoso, quando os atrativos suaves são inúteis, se serve de meios mais severos para fazer o homem voltar de sua insensibilidade e letargia: retira-lhe a saúde e as forças, o despoja de seus bens e riquezas, aflige seu corpo com doenças e dores, e o apavora e angustia interiormente por remorsos, terrores e aflições para desviá-lo da escravidão de seus dois inimigos, e se isso não bastar, o bom Espírito tem açoites ainda mais sangrentos contra seus filhos rebeldes e obstinados, tirando-lhe parentes, amigos, patrocinadores, reputação, honra e liberdade, fazendo-o carregar correntes e encerrar num cárcere até que se torne sábio e sóbrio.
- O Senhor diz: “Coloquei diante dos teus olhos o fogo e a água, a vida e a morte, o bem e o mal, a luz e as trevas; cabe a ti estender tuas mãos para onde quiseres: tal semente, tal colheita; tal escolha, tal destino; tuas obras te seguirão após esta vida.”
- Enfim tudo o que está neste mundo é uma cruz ao coração cristão: tudo lhe é tentação, isca e atração ao mal; tudo lhe é fel e veneno; a cupidez, essa má raiz e foco do pecado e de todos os males, infesta tudo o que se apresenta aos sentidos e ao coração; o uso de todas as coisas exteriores sem o temor de Deus é um veneno mortal à alma; a serpente está escondida sob a bela aparência (“latet anguis in herba”); a cicuta cresce no mesmo jardim que a erva-cidreira; o cardo suga o mesmo suco da terra que a flor de lírio; a árvore do conhecimento do bem e do mal se estende por toda a natureza; e não há senão o pão de misericórdia e de dor pela cruz da penitência que seja salutar à alma.
- A cruz é o bom prazer de Deus e de sua sabedoria, e é mesmo o bom prazer da loucura divina que é mais sábia do que todas as sabedorias; a cruz é o sal da carne que impede a corrupção e a podridão; sem sofrimento não há gozo; em vão se a foge pois ela nos foge por toda parte como nossa sombra; e entra muitas vezes dentro de nós como um leão: “quasi leo sic contrivit omnia ossa mea” (Is c. 38, v. 13), e nos acompanha mesmo após esta vida.
- Principium triplex, hominem sub triplice stantem / Principio, certat juris habere sui. / Atque elementa, quibus constat, contraria certant. / Cumque sua turba, tela inimica vibrant. / Quid facias, homo! quo fugias, vis scire? tot inter / Aerumnas, Christi sub cruce, salvus eris.
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