Action unknown: copypageplugin__copy
cr:misterio-da-cruz:beneficios
3 Benefícios
DOUZETEMPS. LE MYSTÈRE DE LA CROIX. Milano: Sebastiani, 1975
- No capítulo terceiro, trata-se dos benefícios da cruz, a qual, desde o princípio do mundo até a consumação dos séculos, estabelece a diferença entre a Igreja dos filhos de Deus e a Igreja dos filhos do diabo, sendo aquela sempre a vítima e esta a assassina daquela, ao menos na intenção e na vontade.
- Abel foi assassinado por Caim; Noé, pregador da justiça, tornou-se objeto de escárnio dos injustos; Abraão, pai dos crentes, recebeu ordem de Deus para deixar sua terra e parentela, vivendo como peregrino entre um povo idólatra, que lhe causou muitos temores e perigos à vida; Isaque, seu filho, deveria ser imolado por ele, embora declarado herdeiro de seus bens e das promessas divinas; Jacó foi perseguido até a morte por seu irmão Esaú; José, embora inocente, sábio, fiel e casto, foi vendido por seus próprios irmãos aos madianitas e lançado na prisão com malfeitores.
- Os filhos de Israel foram oprimidos e atormentados com trabalhos pelos egípcios pagãos; Moisés, o mais benigno dos homens, foi o mais afligido por um povo rebelde e murmurador; Davi foi procurado para ser morto em diversas ocasiões por Saul e por seu próprio filho Absalão; o profeta Elias também foi procurado para ser morto por Acabe e Jezabel; o profeta Isaías foi serrado ao meio por sua própria nação; o sumo sacerdote Zacarias foi morto entre o vestíbulo e o altar; o profeta Jeremias foi apedrejado por seus concidadãos; e os demais profetas foram mortos e massacrados de várias outras maneiras.
- Todos os apóstolos e evangelistas sofreram morte violenta, com exceção de São João, sobre quem o martírio não teve poder, e muitos outros mártires e testemunhas da palavra de Jesus Cristo selaram com o próprio sangue o seu testemunho; por esses exemplos, fica claro que nunca houve filhos de Deus sem cruz, pois a cruz sempre foi e será o sinal pelo qual os cristãos são marcados no tempo e o selo pelo qual são selados na eternidade, a exemplo do Mestre glorioso, que sempre carregará consigo as cicatrizes glorificadas de suas chagas.
- A cruz é o caráter divino, o selo do Cordeiro imolado desde o princípio do mundo, o Tau ou a marca do poste ou patíbulo sagrado, com o qual são marcados os cento e quarenta e quatro mil mencionados no Apocalipse; é o verdadeiro caráter indelével, pois os outros caracteres assim chamados são invenção dos homens e não de instituição divina.
- Sendo a cruz a marca de distinção dos eleitos, deve ser também a marca da misericórdia divina e do amor divino, pois, se Deus castiga pela cruz aqueles que ama, o castigo pela cruz é, por consequência, uma marca de seu amor; aquele que está fora da correção está também fora do amor, sendo esse o primeiro testemunho da dileção paterna, quando o filho desobediente e rebelde retorna ao dever e submete o pescoço sob o jugo da disciplina paterna, pois o Pai eterno não poupou seu Filho único e bem-amado, depois que ele se carregou da corrupção da natureza humana em seu estado de profundo abatimento.
- Não há outro caminho que conduza à vida nova e eterna senão pela morte e destruição da vida velha; somente a cruz, pela fé, faz morrer o homem velho para ressuscitar o novo, sendo esse o objetivo, a obra e o verdadeiro caráter da cruz, que renova todas as coisas no céu e na terra, e é o mais extenso benefício da cruz, que finalmente vencerá todos os seus inimigos soberbos, dobrará a dureza de seus pescoços e os alinhará sob sua bandeira de amor e obediência.
- Para tratar dos benefícios e privilégios mais específicos da cruz, consideram-se as palavras do apóstolo São Paulo aos Romanos, onde ele afirma que nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a paciência, a paciência a provação, e a provação a esperança, e a esperança não confunde; essa é uma genealogia santa e salutary, cuja cruz ou tribulação é o tronco, ou avô, como a haste de uma árvore de consanguinidade, e nela se vê a escada que Jacó viu, estando sob a cruz da perseguição de seu irmão.
- Nessa escada, os anjos sobem e descem; Jesus Cristo desceu ao pé da escada com a cruz, subiu ao alto e entrou em sua glória com a cruz; a cruz ocupa o cume da escada, pois vem do céu, é ordenada, compassada e medida pela sabedoria divina; desce à terra com os anjos, ministros e executores das ordens da sabedoria, e é distribuída a cada um na justa proporção, conforme a capacidade e as forças dos que carregam a cruz.
- O mesmo apóstolo mostra o caminho para subir ao alto com Jesus Cristo e com os anjos, pelas palavras que se seguem imediatamente à árvore genealógica, afirmando que o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado; esse é o rebento nobre e glorioso que faz subir a escada em direção ao céu, de onde viemos com os anjos, que são puras chamas ardentes do fogo luminoso de amor e caridade, com os quais estamos unidos pelo vínculo doce e estreito da caridade, derramada em nossos corações como uma unção balsâmica de pureza e santidade pelo Espírito vivificador.
- A raiz dessa árvore genealógica é a tribulação, que é amarga, mas seu rebento ou fruto, no primeiro e no último grau de afinidade, é muito doce e de duração infinita, isto é, a caridade, que durará enquanto Deus for Deus, pois ele será sempre amor e caridade sem fim.
- Em todas as lições e instruções de doutrina e prática dadas por Jesus Cristo, somente uma vez ele disse “aprendei de mim”, o que mostra a importância dessa lição, pois ele a ensina tanto por sua palavra sagrada quanto por sua vida e ações; ele diz “aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração”, e a verdadeira humildade de coração abraça e carrega voluntariamente todas as cruzes, considerando-as como vindas da mão de Deus, como penhores preciosos de seus cuidados, fidelidade e amor, e como meios e fontes pelos quais ele quer nos comunicar novas graças, após nos ter preparado pela purificação da cruz.
- A cruz nunca chega em mau tempo para a alma humilde de coração, se ela for fiel; ela curva imediatamente o pescoço para recebê-la, abre os braços da humildade e da paciência para abraçá-la, sem examinar se vem dos homens, se é com razão ou sem razão, se é pesada ou leve, de longa ou curta duração; basta-lhe estar certa de que é infalivelmente ordenada por Deus, cuja vontade e bom prazer busca unicamente executar, seja qual for o instrumento de que ele se sirva para lha oferecer.
- Essa doçura e humildade de coração dão sempre ao portador da cruz a paz interior, para que ele não murmure, nem se impaciente, nem se perturbe sob o fardo da cruz; assim, o fruto da cruz é a paciência, e a tribulação gera a paciência, cujo fruto é a mansidão e a humildade de coração; depois de ter tomado o jugo de Jesus Cristo, que é a cruz, sobre os ombros, Jesus diz: “aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração”, mostrando que a cruz, ou jugo de Jesus, carregado voluntariamente e com paciência, opera e gera, pela paciência, a mansidão e a humildade de coração, que são o verdadeiro caráter de Jesus; onde se encontra esse caráter, aí se encontram Jesus, a vida, a luz, a verdade e o próprio Paraíso.
- Vê-se claramente, dessas deduções, os frutos e as prerrogativas inefáveis da cruz, esse grande dom de Deus, com que ele favorece seus amigos e eleitos, como a marca mais assinalada e mais segura de seu amor; nas outras graças e dons divinos, o amor-próprio e a vã complacência podem se introduzir, mas a cruz está a salvo dessas ciladas, sendo a morte e a destruição do amor-próprio e do orgulho, que são dois grandes inimigos da cruz.
- Em todas as cruzes salutares ao homem, a fé deve sempre acompanhar a cruz e mesmo precedê-la, para que a cruz seja recebida em espírito de fé; embora Deus, às vezes, se sirva da cruz para gerar a fé nos pecadores que ainda não têm a fé viva, trata-se aqui de uma alma cristã que já recebeu o dom da fé, sem a qual não se pode aproximar de Deus nem agradar-lhe; a fé é o fundamento da vida cristã, sem a qual as cruzes seriam não apenas infrutíferas, mas também insuportáveis, como se vê nos amadores do mundo, que sacodem o jugo e buscam todos os meios de distração para abafar a voz da cruz.
- Pela fé, a alma cristã deve receber e sofrer as cruzes, como o apóstolo narra tantas maravilhas da fé operadas nas diversas cruzes; a cruz manifesta a fé, a fé ilumina e guia a cruz, a cruz é a prova da fé e a fé é o sustento da cruz, de modo que elas se dão as mãos mutuamente.
- O verdadeiro cristão deve odiar sua vida antiga para levar uma vida nova, abandonar a vida da carne para viver do espírito, e deixar o amor do mundo e de si mesmo para amar a Deus; nada separa mais forte e seguramente desse duplo amor do que a cruz, pois o mundo só pode apresentar honras, prazeres e riquezas, enquanto a cruz oprime com desprezo contra a honra, causa dores e sofrimentos contra os prazeres e reduz muitas vezes à necessidade e à pobreza contra as riquezas.
- Essa é toda a vida do cristão em poucas palavras e a verdadeira imitação de Jesus Cristo, que faz morrer cada dia a si mesmo pela cruz, que ele manda carregar cada dia, renunciando ao amor-próprio, às vantagens, honras, comodidades, prazeres, excelência própria acima dos outros e luzes naturais da razão, que encontram sua derrota na amargura da cruz, cujo fruto é tão doce e salutar.
- Se aqui se semeia entre lágrimas e suspiros, entre dores e outros sofrimentos, ali se colherá paz, alegria e justiça, e mesmo neste mundo, consolações muito seguras e doçuras abundantes; assim como a amargura de um fruto verde, ao amadurecer, faz provar sua doçura, tudo o que é amargo atrai e concentra em si, e o homem que, com o filho pródigo, se afastou para terras estrangeiras, só pode retornar a Deus pela cruz e pelo sofrimento, que o reclama, o retira e o concentra em si mesmo, onde ele se reencontra e diz: “levantar-me-ei e irei a meu Pai”.
- Nessa reconcentração em si mesmo, o calor dilatado pelos prazeres dos objetos exteriores reúne suas forças e virtude para acender o fogo do amor divino, que expulsa o amor do mundo e amadurece o fruto do espírito puro e reto e da nova vida, vida sobrenatural acima dos sentidos e da razão humana, que já não tem complacência pelo mundo nem pelos mundanos, pois a amizade do mundo é inimiga irreconciliável de Deus.
- Deus, não tendo podido atrair os homens a si por todos os seus benefícios, promessas e terríveis ameaças, feitas pelos profetas e homens de Deus, em todo tempo e lugar, e sendo o mundo no Novo Testamento tratado como tratou os profetas no Antigo, vai armar toda a natureza e criatura contra os insensatos da terra, e vai desabar sobre todo o gênero humano com flagelos horríveis e tribulações tão angustiantes que não houve outras semelhantes desde o princípio do mundo, conforme a parábola da figueira.
- O machado está posto à raiz da árvore, desse grande arbusto em Daniel, cujos ramos são tão belos e grandes, férteis em frutos, à sombra do qual se assentam todos os animais e aves do céu, e do qual toda carne vivente se alimenta; o mundo está no estado de uma mulher grávida acusada, convicta e condenada por feitiçaria, mas poupada até que dê à luz; após o parto, sofre o suplício decretado pela sentença.
- Esses flagelos e tribulações, prestes a se espalhar por toda a terra, já teriam começado, mas, por causa de algumas almas de boa vontade que ainda estão em dores de parto, o Senhor suspende por pouco tempo esses horríveis juízos, com os quais visitará em breve todos os habitantes da terra, após o parto dessas boas almas, que estão em angústias e dores para dar à luz o filho sobrenatural Jesus em nós, esperança da glória, que ele fará aparecer em seu segundo e glorioso advento, consolador para os seus e terrível para seus inimigos; o esposo diz: “eis que venho em breve”, e a esposa responde: “vem, Senhor Jesus”.
- A alma cristã e portadora da cruz de Jesus, que ainda está em dores de parto ou que acaba de dar à luz o recém-nascido Jesus, vê que o dragão vermelho quer devorar seu filho, suscitando seus súditos e instrumentos armados de malícia, violência, crueldade e tirania contra ela, por causa do filho; ela será e será desprezada pelo mundo, pois o reino do recém-nascido não é deste mundo; ela chorará e gemerá enquanto o mundo se alegrar, e se dirá todo mal contra ela, que é seduzida ou mesmo sedutora, herética, ou talvez herejaraca, enfeitiçada ou feiticeira.
- Nomes como jansenista ou quietista entre os católicos, pietista entre os luteranos, quacre entre os calvinistas, são considerados suaves demais para ela; será olhada e tratada como a escória e a canalha do povo, perseguida de um lugar a outro; após escapar das mãos de Herodes, cairá nas mãos dos doutores da lei, ou seja, do clero hipócrita no Novo Testamento, como o eram os fariseus no Antigo, e será ódio e opróbrio dos homens por amor de Jesus crucificado.
- O farisaísmo a descreverá por toda parte e suscitará inimigos que perturbarão seu repouso e sua morada; mal encontrará um pequeno recanto com seu bom Mestre para reclinar a cabeça; por toda parte aonde for, pagará o tributo, como Jesus o pagou em seu estado de humilhação e abatimento; perseguição por fora, angústia por dentro, tribulação e dor na carne, tristeza e trevas no espírito, e a alma pergunta: “para onde irei, para onde me esconderei, para onde me refugiarei para fugir da mão de Deus, que está sobre mim por ele mesmo e por suas criaturas?”.
- A alma cristã, irmã da cruz, não deve desesperar, mas ser firme e vigorosa, forte e constante mesmo em suas fraquezas, pois é aí que se esconde a força; Jesus tem esconderijos e a protegerá sob a sombra de suas asas; mostra-lhe o lado do coração aberto, para que entre e se sacie das águas salutares que ali beberá com alegria; gravou-a em suas mãos e a imprimiu em seu coração como selo; ele mesmo é o coração do Pai e a conduz a ele sob sua bandeira; além disso, ele tem uma panaceia universal para todos os males.
- A fé e a esperança sustentam na cruz, e a tristeza será transformada em alegria, os gemidos em regozijos; a pedra angular, escolhida e fundada em Sião pacífica, enxugará todas as lágrimas, contadas por ele, para fazer delas tantas pérolas ou joias; não se tema, pois ele está com a alma, ajuda, conduz e carrega; ao passar pelas águas, ele estará presente, e ao andar pelo fogo, não se queimará; tanto quanto se sofreu aqui de santa tristeza, desprazeres, afrontas, calúnias, desprezos e perseguições, tanto se receberá ali, e mesmo já aqui, consolações, carícias, doçuras, abraços e beijos sagrados da boca do esposo, amantíssimo das almas.
- Aos inimigos, Deus retribuirá em dobro o mal que fizeram, e se verá qual será a compensação; assim como a grande prostituta, Babilônia, saciada do sangue dos mártires e testemunhas de Jesus, recebeu prazeres e delícias, tantos tormentos e suplícios tem a esperar, pois tudo será compensado com justa proporção, medida e equidade.
- Para não assustar as almas de boa vontade, ainda tenras e tímidas, com o quadro pintado anteriormente, é necessário apresentar-lhes outros manjares deliciosos para atraí-las ao amor da cruz, cujas vantagens e prerrogativas não dizem respeito apenas à vida futura, mas também à presente; na carreira da cruz, encontrar-se-á uma grande companhia de portadores da cruz, que serão pais e mães, irmãos e irmãs, verdadeiros amigos e amigas, que auxiliarão com seus bens, conselhos, luzes e orações.
- Na cruz, ter-se-á a companhia de Jesus de modo muito mais certo e real do que aqueles que apenas tomam o nome dele, pois se terá o nome e o efeito, sendo uma das verdadeiras irmãs da cruz, não da cruz-rosa, que foi apenas uma bela invenção, embora de boa intenção, mas da cruz de Jesus com verdade e realidade, tendo escolhido e abraçado a cruz e o crucificado como amado, que estará sempre com a alma na tribulação durante toda a vida e a acompanhará após a morte do corpo para conduzi-la a seu Pai.
- Não se experimentará cruz alguma que não seja seguida, ou algumas vezes precedida, de alguma graça ou consolação extraordinária, pois esse é o direito da graça e da luz divina de serem geradas pela cruz; se, por conseguinte, as graças e luzes precedem os sofrimentos, como acontece às vezes pela sabedoria e ordem do Dispensador, é necessário, contudo, que sejam provadas e confirmadas pela cruz, que lhes põe o selo de verdade e realidade.
- Em qualquer tribulação e sofrimento em que se encontre, ainda que pareça à razão e ao sentido natural que tudo está desesperado, que não há socorro nem recurso a esperar, e que está tudo acabado sem remissão, Deus, que tem o olho sobre a alma e em cujas mãos estão os corações e espíritos de todos os homens, que os maneja, inclina e dobra como e quando quer, segundo seu bom prazer, suscitará, dos tesouros de sua sabedoria incompreensível, meios e socorros tão prontos, eficazes e extraordinários, que se reconhecerá e sentirá que só ele é sábio e poderoso, que confunde os conselhos e empreendimentos dos homens, rege e ordena suas ações, move seus pensamentos e desejos, e que nada resiste à sua vontade.
- A alma cristã e portadora do fardo de Jesus deve se consolar e se fortalecer; embora o sol seja algumas vezes ocultado à vista por eclipses e nuvens que o escurecem à fraca visão dos olhos, ele permanece sempre luminoso em si; depois de ter estado oculto, repara as perdas com mais ardor e brilho; isso acontece às vezes com a alma fiel, que crê ter perdido a luz, vendo ao redor de si apenas horror, trevas e imagem da morte, mas ela deve persuadir-se de que a luz não a abandonou, aparecendo-lhe oculta porque penetra cada vez mais fundo em seu interior, até derrubar e destruir o fundamento mais íntimo das trevas.
- Na vida espiritual da cruz, encontram-se obscuridades que igualam e superam a luz, conforme os graus de umas e outras; quem acreditaria também em uma abundância de alegria em meio à abundância de tribulações que cercavam São Paulo de todos os lados, se ele mesmo não tivesse feito confissão aberta disso a seus coríntios?
- Resumindo os benefícios da cruz, acrescentam-se os seguintes, em resumo, aos anteriores mais detalhados: a cruz é uma misericórdia de Deus para com o homem durante esta vida; é a porta da graça e da luz; é o caminho estreito que conduz à vida; é a rosa entre os espinhos; a vara da correção divina; a marca de sua dileção; a aurora que precede e anuncia o sol da consolação; o vesicatório e o despertar da letargia espiritual; a conformidade com Jesus Cristo e, por conseguinte, a marca da predestinação; a prova da fé; a boa companheira da esperança; a mãe da paciência; a nutriz da benignidade e da humildade de coração; a escola da verdadeira sabedoria; a mestra da castidade; o açoite da carne; o renovamento do espírito, a guarda dos sentidos; a mortificação dos prazeres; o freio das paixões; o sujeitamento do corpo rebelde; o chamado à oração; a guia no país desconhecido de nosso nada; a coroa dos mártires; a guardiã das virgens; a glória dos eleitos; o grande e notável sinal da vinda do Filho do Homem.
- Esses são alguns benefícios e prerrogativas da cruz, traçados em resumo e como que às pressas, pois quem poderia esgotar essa fonte inesgotável? Como se dará ocasião de falar disso mais de uma vez no futuro, contenta-se em desejar todos esses frutos ao caro Teófilo, deixando o resto à sua meditação e prática.
- Canta-se, entretanto, um moteto em louvor da cruz, com os seguintes versos: “Passemos, voemos! Das coisas vergonhosas às gloriosas; das inferiores às superiores; das ínfimas às supremas; das asperezas ao éter; das duras às duradouras; das estreitas às amplas; a Cristo, pela cruz; por Cristo, à luz; passemos, voemos! A cruz purga a mente do homem e a carne rebelde; cessa, sob a cruz, o amor desvairado de nós mesmos. A cruz produz o ódio de nós mesmos e o amor da virtude; toda propriedade nossa cai sob a cruz. A cruz despoja; mas o que resta? a vitória do mundo, que a fé viva, sob a cruz abjeta, produz.”
cr/misterio-da-cruz/beneficios.txt · Last modified: by 127.0.0.1
