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TRATADO DO PURGATÓRIO

Madame de Guyon

Resumo da apresentação de Marie-Louise Gondal

GUYON, Jeanne-Marie. Le purgatoire. Grenoble: J. Millon, 1998.

Uma maneira de falar do purgatório

  1. O pequeno livro reúne, sob o título geral do purgatório, três escritos de Madame de Guyon (1648-1717) sobre o tema da purificação: o Tratado do purgatório, reeditado a partir do autógrafo conservado nos Arquivos de Saint-Sulpice em Paris, que é ao mesmo tempo síntese e chave, e dois textos mais breves que oferecem abordagens diferentes do mesmo tema: um fragmento sobre os três modos de purificação da alma e um conjunto de meditações bíblicas sobre o purgatório.

Um tema ultrapassado?

  1. Um escrito sobre o purgatório corre o risco de parecer duplamente ultrapassado hoje, tanto porque esse lugar mítico do além, terceiro lugar próximo do inferno pelo sofrimento mas radicalmente distinto dele por ser vestíbulo feliz do paraíso, não frequenta mais o imaginário contemporâneo, quanto porque já não se encontra facilmente em si mesma a correspondência para essa necessidade de purgação tão exigente que a vida não basta para preenchê-la.
    • O purgatório é ainda inevitavelmente suspeito por poder parecer desvio de um catolicismo centrado na culpa e no medo do castigo, sendo que historiadores como J. Le Goff, J. Delumeau e M. Vovelle mostraram com erudição como se organizou, entre o século XII e a reação salutar da Reforma no século XVI, o sistema de trocas entre vivos e mortos em que as orações, missas e doações dos vivos aliviavam as almas do purgatório enquanto estas traziam em retorno, como notava Thomas More (1478-1535), o antídoto preventivo contra os portadores de peste que queriam fazer crer que o purgatório não existe.

Uma questão humana central

  1. Apesar do risco de parecer ultrapassada, a meditação de Madame de Guyon sobre o purgatório não é movida principalmente pelo motivo da ajuda mútua e caridade pelas almas em espera, como ainda foi o caso no início de seu século para Etienne Binet (1569-1639), mas por um motivo diretamente teologal: Deus é Deus e ninguém pode vê-lo sem morrer para si mesmo, nem alcançar o término de seu desejo de se unir a Deus sem ser purificado nesse próprio desejo, não tanto pelo sofrimento quanto pelo amor preveniente que vem ao seu encontro.
    • O pensamento se exprime em termos de movimentos, linhas de força, eixos e direções: atração da parte de Deus, inclinação e tendência para Deus, instinto de reunião a Deus, passividade da parte do ser humano, ou ao contrário afastamento e rejeição, sendo o lugar desses movimentos a própria substância do ser, sua natureza de ser criado referido a Deus mas capaz de se rebelar contra essa relação ou a ela consentir no reconhecimento de um amor.
    • Para aceder à união divina, trata-se de perder uma certa posição do eu, o que Madame de Guyon, com muitos outros espirituais de seu tempo, chama a propriedade: descentrar-se, perder-se para encontrar Deus e se encontrar em Deus, pois fora disso o ser permanece em si mesmo, seu desejo se espalha em objetos múltiplos e o resultado é o exílio.
    • Reconhece-se aí um tema familiar a Catarina de Gênova (1447-1510), ancestral mística de Madame de Guyon, para quem também não há julgamento após a morte particular, sendo que a alma se julga a si mesma diante da luz divina, reconhecendo o que nela se opõe à pureza divina e se dispondo alegremente a se deixar purificar pelo fogo do amor.

Quando o além reflete no aquém

  1. O Tratado de Madame de Guyon apresenta uma originalidade própria ao reconduzir rapidamente o leitor do além para o aquém, pois trata-se de uma purificação atual para certas almas, sendo que a terminologia escorrega e a autora passa a falar das almas de purgatório e não mais das almas do purgatório, indício textual de que a passividade do purgatório não se vive apenas num além-morte mas pode ser vivida já nesta vida, nas grandes penas em que a alma se sente ao mesmo tempo movida e rejeitada.
    • Madame de Guyon não quis negar a realidade da morte nem seu caráter decisivo para a liberdade humana, mas atenuou sua angústia trazendo para o desenvolvimento histórico da vida as escolhas e experiências que formam o ser definitivo, pois ao remeter para o além o decisivo da existência arriscar-se-ia a perder a própria ponta do cristianismo, que traz no coração de sua mensagem a atualidade da relação a Deus e de sua operação.

O trabalho da fé sobre as representações

  1. O curto Tratado do purgatório pode ser lido como tentativa genial e talvez sem equivalente de repatriar e aclimatar, numa esfera em que a liberdade humana pode se exercer, a consciência avivada da grandeza e da pureza divina que havia contribuído para o desenvolvimento da noção do purgatório, pois Madame de Guyon aprofunda as noções de criação, liberdade, pureza e amor de Deus até o ponto em que elas recuperam pertinência para a vida terrestre, abrindo perspectiva para a verdadeira condição humana.
    • Deus não tem duas maneiras de agir, uma para o aquém que seria fechar os olhos e outra para o além que seria despertar suas exigências: Deus atrai no aquém e no além, e essa atração puxa para o centro do ser, move o desejo, transforma as penas, abrindo diante do homem o infinito da vida em Deus.
    • O convite do padre Poiret ao leitor em seu prefácio permanece atual, sendo dirigido a toda pessoa de boa vontade convencida da necessidade da perfeita pureza da alma para se reunir a Deus, nossa origem, e que deseja realizar aqui sua purificação em vez de na vida futura, onde ela é muito mais árdua, mais longa e desprovida do acréscimo de graças e méritos que esta oferece.
  2. O autógrafo do pequeno tratado está conservado nos arquivos de Saint-Sulpice em Paris, sendo que a primeira edição foi publicada por Pierre Poiret em 1712, no segundo volume da coletânea Opuscules spirituels, a partir de uma cópia cujo autor e intermediário ele não revelou, e que o título da edição de Poiret, Tratado do purgatório ou da purificação da alma, atenua a nitidez do título do autógrafo, sendo preferível manter a concisão de Madame de Guyon.
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