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CARTAS

Elémire Zolla. I mistici dell’Occidente. 2. In: Gli Adelphi. Nuova edizione riveduta, quarto edizione ed. Milano: Adelphi edizioni, 2013.

Ao duque de Chevreuse

1699. Quem quisesse estar seguro em todo momento de que obra por razão, não por paixão ou por impulso, perderia o momento de atuar, passaria a vida dissecando seu coração e não chegaria nunca ao cabo de sua busca; não poderia nunca assegurar-se de que o impulso ou a paixão mascarada sob pretextos especiosos não lhe façam fazer o que parece fazer por pura razão. Esta é a escuridão em que Deus nos tem sem descanso também na ordem natural. Com quanta maior razão é preciso renunciar à evidência e à certeza quando se trata das operações mais delicadas da graça, na profunda noite da fé e na ordem sobrenatural! Esta busca inquieta e obstinada de uma certeza impossível é uma moção bem manifesta da natureza e que a graça não dá: nunca desconfiareis demais dela. Esta busca sutil regressa por mil rodeios ao mesmo ponto.

Tal gosto pela segurança geométrica está enraizado em vós por todas as inclinações de vossa mente, por todos os longos e interessantes estudos de vossa vida, por um hábito convertido em natureza, pelas razões plausíveis de temer, vigiar, tomar precauções contra a ilusão. Mas a vigilância evangélica não deve ir até turbar a paz do coração, nem a querer a evidência nas operações escuras da graça onde Deus quer manter-se escondido como sob um véu.

A condessa de Gramont

Issy, 22 de maio. As cruzes que nos forjamos por nossa conta, com uma previsão inquieta do futuro, não são cruzes que venham de Deus. Tentamo-lo com nossa falsa sabedoria, querendo prevenir sua ordem e esforçando-nos em suprir sua Providência com nossa providência própria. O fruto de nossa sabedoria é sempre amargo, e Deus o permite para confundir-nos, quando saímos de seu guia paterno. O futuro não é todavia nosso: tal vez não seja nosso jamais. Se chega, tal vez chegue totalmente distinto de como o havíamos previsto. Fechemos, pois, os olhos ao que Deus nos esconde e nos reserva nos tesouros de seu profundo conselho. Adorar sem ver, calar, permanecer em paz, é o que nos toca.

As cruzes do momento presente trazem sempre sua graça, e com ela sua doçura: nelas se percebe a mão de Deus que se deixa sentir. Mas as cruzes de uma previsão inquieta são vistas mais além da ordem de Deus: vemo-las sem graça para suportá-las; vemo-las inclusive com uma infidelidade que afasta a graça. Portanto, tudo nelas é amargo e insuportável, tudo é nelas negro, tudo sem remédio, e a alma que quis provar por curiosidade o fruto proibido não encontra mais que morte e rebelião sem consolação dentro de si mesma. Isto precisamente é não fiar-se de Deus e ousar violar seu segredo, do qual Ele é zeloso. “A cada dia”, diz Jesus Cristo, “lhe basta seu mal” (Mateus 6,34): o mal de cada dia se converte em bem quando se deixa fazer a Deus. Quem somos nós para dizer-lhe: “Por que fazeis isto”? Ele é o Senhor, e isto basta; é o Senhor: que faça tudo o que é bom a seus olhos. Que eleve ou abaixe, golpeie ou console, nos destroce ou cure nossas feridas todas, dê a morte ou a vida, é sempre o Senhor: nós não somos senão obra sua, e o brinquedo de suas mãos. Que importa, com tanto que Ele se glorifique e sua vontade se cumpra em nós? Saiamos de nós mesmos; não mais interesse próprio, e a vontade de Deus, que se desenvolve cada momento em tudo, consolar-nos-á também cada momento em tudo o que Deus fará em torno a nós, ou em nós, a nossas custas. As contradições dos homens, sua inconstância, suas injustiças inclusive, parecer-nos-ão os efeitos da sabedoria, da justiça e da bondade invariável de Deus: não veremos já mais que a Deus infinitamente bom, o qual se esconde sob as debilidades dos homens cegos e corruptos.

Assim esta figura enganosa do mundo, que passa como uma cena de teatro, converter-se-nos-á em um espetáculo muito real e digno de eterno louvor, desde a perspectiva de Deus. Os homens, por grandes que pareçam, não são nada em si mesmos; mas que grande é Deus neles! É Ele quem põe o humor raro, o orgulho raivoso, o disfarce, a vaidade e todas as loucas paixões, ao serviço do desígnio eterno que Ele dispõe sobre seus escolhidos. Ele emprega o íntimo e o exterior, e a corrupção dos demais homens, e nossas próprias imperfeições, e nossa própria sensibilidade; em uma palavra, emprega tudo em nossa própria santificação; agita o céu e a terra: nada acontece senão para purificar-nos e fazer-nos dignos d'Ele. Alegremo-nos, pois, quando nosso Pai celestial nos prova aqui abaixo com diversas tentações interiores e externas, quando nos volta fora tudo contrário e dentro tudo doloroso. Alegremo-nos, porque graças a tais dores nossa fé, mais preciosa que o ouro, é purificada. Alegremo-nos de experimentar assim o nada e a mentira de tudo o que não é Deus; porque graças a esta experiência crucificante somos arrancados a nós mesmos e aos desejos do século. Alegremo-nos, porque graças a estes dores de parto nasce em nós o homem novo.

A mesma

Enquanto permanecermos fechados em nós mesmos, estamos expostos à contradição dos homens, a sua malignidade e a sua injustiça. Nossa irritação expõe-nos à irritação alheia; nossas paixões chocam com as paixões de nossos próximos; nossos desejos são outros tantos pontos nos quais oferecemos ocasião aos golpes do resto dos homens. Nosso orgulho, que é incompatível com o orgulho alheio, alça-se como as ondas do mar em uma tempestade; tudo nos combate, tudo nos rechaça, tudo nos assalta; estamos descobertos por todas partes devido à sensibilidade de nossas paixões e à inveja de nosso orgulho. Nenhuma paz se há de esperar em si, quando se vive entregue a uma multidão de desejos ávidos e insaciáveis, e nunca se conseguiria satisfazer a esse eu tão delicado e tão receoso acerca de tudo o que o toca. A isso se deve que, nas relações com o próximo, se esteja como os enfermos que definharam por longo tempo em um leito: não há parte do corpo na qual possais tocar-lhes sem feri-los. O amor-próprio enfermo e compadecido de si mesmo não pode ser tocado sem levantar alaridos. Tocai-o com a ponta de um dedo, crê-se esfolado. Adicionai a esta delicadeza a tibieza do próximo, cheio de imperfeições que ele mesmo não conhece; adicionai a isso a rebelião do próximo contra nossos defeitos, que não é menor que a nossa contra os seus: assim é precisamente como todos os filhos de Adão se servem de suplício os uns aos outros; assim é como a metade dos homens é infeliz por causa da outra metade, e volta a esta miserável a sua vez; assim é em todas as nações, em todas as cidades, nas comunidades todas, em todas as famílias, e inclusive entre dois amigos, o martírio do amor-próprio.

O único remédio é, pois, sair de si para encontrar a paz. É preciso renunciar a si mesmo e perder todo interesse, para não ter já nada que perder, que temer nem que conservar. Então se prova a verdadeira paz reservada aos homens de boa vontade, ou seja, a quem não tem outra vontade que a de Deus, a qual se converte em a vontade deles. Os homens então não podem já nada sobre nós, dado que não podem já agarrar-nos valendo-se de nossos desejos nem de nossos medos: então queremos tudo e não queremos nada. É ser inacessíveis ao inimigo, é fazer-se invulneráveis. O homem não pode senão o que Deus lhe concede fazer: e tudo o que Deus lhe concede fazer contra nós, sendo a vontade de Deus, é também a nossa. Em tal estado pusemos nosso tesouro tão alto que nenhuma mão pode chegar até ele para arrebatá-lo de nós. Que façam pedaços nossa reputação: consentimos nisso, porque sabemos que é bom ser humilhados quando o que humilha é Deus. Levamos decepções nas amizades: tanto melhor!, Ele é o único Amigo verdadeiro, zeloso de todos os demais, e deles nos afasta para purificar nossos afetos. Somos importunados, tidos em sujeição e em incomodidade; mas é Deus quem o faz, e basta. Ama-se a mão que esmaga; em todas estas penas se encontra a paz: paz bem-aventurada, que nos segue até a cruz! Quer-se o que se tem: nada se quer do que não se tem.

Ao duque de Borgonha

Não amamos nunca tanto a nosso próximo como quando o amamos por Deus e por amor seu. Quando amamos os homens fora de Deus, não os amamos mais que por nós mesmos. Sempre buscamos neles ou nosso descarado interesse, ou nosso interesse sutil e mascarado. Se não é o dinheiro, a comodidade, o favor, o que neles buscamos, é a glória de amá-los sem interesse: o gosto, a confiança, o prazer de ser amados por pessoas de valia, acaricia nosso amor-próprio muito mais de quanto poderia fazê-lo uma soma de dinheiro. Assim pois, em todos os nossos amigos, aos que cremos amar, unicamente nos amamos a nós mesmos.

Qual é, pois, o verdadeiro modo de amar as pessoas queridas? É amá-las na ordem de Deus; é amar a Deus nelas: é amar nelas o que ali pôs Ele, e suportar por seu amor a privação do que ali não pôs. Quando não amamos as pessoas queridas mais que por amor-próprio, o amor-próprio impaciente, delicado, zeloso, cheio de necessidades e vazio de mérito, desconfia continuamente de si e da pessoa querida: cansa-se, desgosta-se, vê logo o limite do que cria maior; encontra por toda parte desenganos, quereria sempre o perfeito e não o encontra nunca; sente-se ofendido, muda, em nenhuma parte pode repousar. O amor de Deus, ao amar sem referir os amigos a si, ama-os pacientemente com seus defeitos. Não quer encontrar neles mais de quanto Deus neles pôs; neles olha só a Deus e seus dons: tudo redunda em bem para ele, sempre e quando ame o que Deus fez e suporte o que Deus não fez, mas permitiu e quer que nós suportemos para conformar-nos a seus desígnios.

O amor de Deus não espera nunca encontrar a perfeição na criatura. Sabe que a perfeição está em Deus só e goza dizendo a Deus como São Miguel: “Quem é semelhante a vós?”. Tudo o que vê de imperfeito faz-lhe dizer: “Vós não sois meu Deus”. Como não espera a perfeição de nenhuma criatura, nunca se vê desenganado em nada. Ama a Deus e seus dons em cada criatura, segundo o grau de bondade de cada uma. Ama menos o que é menos bom; ama mais o que é melhor; ama tudo, porque nada há que não tenha algum pequeno bem que é o dom de Deus, e porque até os mais malvados, enquanto estão ainda nesta vida, sempre podem fazer-se bons e receber os dons que lhes faltam.

Por Deus ama tudo o que é obra de Deus e Deus lhe manda amar. Ama mais o que Deus quis fazer-lhe mais querido. Vê em um pai mortal ao Pai celeste; em um irmão, em um primo, em um amigo, os vínculos estreitos que a Providência estabeleceu. Quanto mais estreitos são os vínculos na ordem da Providência, mais firmes e íntimos os faz o amor de Deus. Pode-se, acaso, amar a Deus e não amar todas as coisas cujo amor nos mandou Ele?

É verdade que preferiríamos morrer, antes que amar algo mais que a Ele. Diz-nos no evangelho: “Se algum ama a seu pai ou a sua mãe mais que a mim, não é digno de mim” (Mateus 10,37). Não queira Deus, portanto, que ame eu mais que a Ele o que amo somente por Ele! Mas amo com todo o coração, por amor a Ele, tudo o que mo representa, tudo o que encerra seus dons, tudo o que Ele quis que eu amasse. Este princípio sólido de amor faz que eu não queira falhar nunca em nada, nem a minhas pessoas queridas, nem a meus amigos. Suas imperfeições estão muito longe de surpreender-me, pois só imperfeição espero de tudo o que não é meu Deus. Não vejo mais que a Ele só em tudo quanto tem o menor grau de bondade. A Ele amo em sua criatura, e nada pode alterar este amor. Bem verdade é que este amor não sempre é terno e sensível: mas é verdadeiro, íntimo, fiel, constante, efetivo; e eu o prefiro, com o profundo de minha vontade, a todo outro amor. Tem inclusive suas ternuras e seus transportes. Uma alma que fosse de verdade de Deus não estaria já ressecada nem encerrada pelos receios nem pelas desigualdades do amor-próprio: não amando senão por Deus, amaria, como Deus, com admirável amor; pois Deus é amor, como diz san João (1 João 4,16). O amor suportaria tudo, tudo sofreria, tudo esperaria, por nosso próximo; o amor superaria todas as penas; desde o profundo do coração estender-se-ia até seus sentidos; enternecer-se-ia pelos males alheios, tendo em nada os seus; consolaria, saberia esperar e adequar-se; far-se-ia pequeno com os pequenos, elevar-se-ia para os grandes; choraria com os que choram; gozar-se-ia por condescendência com os que se gozam; seria tudo a todos, não com uma aparência forçada e uma seca demonstração, senão graças à abundância do coração, no qual o amor de Deus seria manancial vivo dos sentimentos mais ternos, mais fortes e mais apropriados. Nada é tão seco, tão frio, tão duro, tão fechado, como um coração que só se ama a si mesmo em todas as coisas. Nada é tão terno, tão aberto, tão vivo, tão doce, tão amável, tão amante, como um coração possuído e animado pelo amor divino.

A duquesa de Mortemart

Cambrai, 8 de junho de 1708. Confesso-vos que é para mim uma alegria ver-vos oprimida por vossos defeitos e pela impossibilidade de vencê-los. Este desespero da natureza, que se vê reduzida a não esperar já nada de si e a não aguardar senão de Deus, é precisamente o que Deus quer. Ele nos corrigirá quando não esperemos já corrigir-nos por nossa conta. É verdade que tendes uma índole atrevida e altiva, com um fundo de melancolia que é demasiado sensível a todos os defeitos alheios e faz as impressões difíceis de apagar; mas não será nunca vosso temperamento o que Deus vos reprovará, porque não o escolhestes vós e não sois livre para desprender-vos dele: mais bem vos servirá para vossa santificação se o levais como uma cruz. O que Deus vos pede, sem embargo, é que façais realmente na prática o que sua graça põe em vossas mãos: trata-se de diminuir-vos intimamente, ao não poder ser doce ao exterior; trata-se de abandonar vosso orgulho natural apenas vos chega a luz; trata-se de uma sincera desaprovação de vossos juízos. Não há que maravilhar-se se a alta opinião que todos os nossos bons amigos tiveram de cada pensamento vosso desde faz doze anos vos habituou insensivelmente a uma confiança secreta em vós mesma e a um orgulho no qual vós não havíeis reparado. Isto precisamente é o que temo por vós cem vezes mais que os estalos de vossa irritação. A qual não vos fará ter senão algum arrebatamento brusco: servirá para mostrar-vos vosso orgulho, que talvez não veríeis nunca sem estas raridades que se vos escapam; mas a fonte do mal está só no orgulho secreto, que foi alimentado durante tanto tempo pelos mais belos pretextos.

A condessa de Montbéron

26 de dezembro de 1700. Tendes razão ao dizer que a elevação dada pelo amor não ensoberba o coração: é um sinal que assegura contra o temor da ilusão. O amor, segundo a experiência íntima, é muito mais Deus que nós; é Deus que se ama a si mesmo em nosso coração. Parece-nos que é algo que faz toda nossa vida e que, não obstante, é superior a nós; nós não podemos tomar nada dele para gloriar-nos dele. Quanto mais se ama a Deus, mais se sente que é Deus a um tempo o amor e o amado. Quanto dista um de estar satisfeito de si quando ama de verdade! O amor é emprestado: sente-se que ele faz tudo e que nada se faria se ele não nos fosse dado.

A mesma

10 de novembro de 1702. Vós passastes a vida crendo ser sempre toda dos demais, nunca de vós mesma. Nada lisonjeia tanto o amor-próprio como este testemunho, que nos damos interiormente a nós mesmos, de não estar nunca dominados pelo amor-próprio e de estar sempre ocupados por certa generosidade para com o próximo. Mas toda essa delicadeza, que parece para os demais, é no fundo para nós mesmos. Vós vos amais até o ponto de querer sem descanso comprazer-vos em não amar-vos: toda vossa delicadeza não chega senão a temer não estar suficientemente contente de vós mesma: este é precisamente o fundo de vossos escrúpulos. Quereis que Deus, como os homens, esteja contente de vós, e estar vós sempre contente de vós mesma em tudo o que fazeis em relação com Deus.

Por outro lado, não estais habituada em absoluto a contentar-vos com uma boa vontade seca e desnuda. Posto que buscais uma primazia de amor-próprio, quereis um sentimento vivo, um prazer que vos responda de vosso amor, uma espécie de enlevo e de transporte. Estais demasiado habituada a obrar por imaginação e a supor que vosso espírito e vossa vontade não fazem as coisas quando vossa imaginação não vos as faz sensíveis. A força de delicadeza, cai-se no extremo oposto, que é a rudeza da imaginação. Nada é tão oposto não só à vida de pura fé, senão também à verdadeira razão. As certezas que se buscam mediante a imaginação, o gosto e o sentimento são as mais perigosas fontes do fanatismo.

A uma senhorita

Estaríamos tentados de falar humildemente, e teríamos mil bons pretextos; mas melhor ainda é calar humildemente. A humildade que fala todavia é todavia suspeita: falando, o amor-próprio encontra algum alívio.

A mesma

Calor de imaginação, vivacidade de sentimentos, grande quantidade de razões, abundância de palavras, não obram quase nada. O que conta é atuar ante Deus com perfeito desprendimento, fazendo com a visão própria tudo o que se pode e contentando-se com o resultado que dá. Esta contínua morte é uma vida bem-aventurada que poucos conhecem. Uma palavra, dita simplesmente com tal paz, obra mais, inclusive respeito aos assuntos externos, que todos os cuidados ardentes e afanosos. Posto que é o espírito de Deus quem fala então, nada perde de sua força nem de sua autoridade. Ele ilumina, persuade, comove, edifica. Não se disse quase nada, e fez-se tudo. Ao contrário, quando nos deixamos arrastar pela vivacidade da própria índole, fala-se sem fim: fazem-se mil reflexões sutis e supérfluas; teme-se sempre não falar e não actuar o suficiente; aquecemo-nos, esgotamo-nos, apaixonamo-nos, dissipamo-nos, e nada progride.

A soror Carlota de São Cipriano, carmelita

Em quanto ao silêncio de que fala o Rei-profeta, é aquele do qual fala também Santo Agostinho quando diz: “Faça calar minha alma tudo o que é criado, para passar sobre tudo o que não é Deus mesmo: faça-se calar também a si mesma respeito a si mesma. Sileat anima mea ipsa sibi; neste silêncio universal escute ao Verbo que fala sempre, mas ao que o ruído das criaturas nos impede amiúde ouvir”. Este silêncio não é inação e ócio da alma: é só cessação de todo pensamento inquieto e afanoso, que estaria fora de lugar quando Deus quer fazer-se escutar. Trata-se de prestar-lhe uma atenção simples e tranquila, mas muito real, muito positiva e muito amorosa para a verdade que fala dentro. Quem diz atenção diz uma operação da alma e uma operação intelectual acompanhada de afeto e de vontade. Quem diz impor silêncio diz uma ação da alma que escolhe livremente e por amor meritório. Em uma palavra, é uma fidelidade atual da alma que em sua paz mais profunda prefere a escuta do espírito interior da graça a toda outra atenção. Então a operação tranquila da alma é pura intelecção, se bem os místicos, por prevenção contra as opiniões da filosofia escolástica, disseram outra coisa. A alma contempla ali a Deus como incorpóreo, portanto não admite nem imagens nem sensações que o representem: adora-o tal como é. Bem sei que a imaginação não deixa então de representar objetos, nem os sentidos de produzir sensações; mas a alma unicamente sustentada pela fé e pelo amor não admite voluntariamente nenhuma dessas coisas que não são Deus nem nada que se assemelhe a sua natureza, o mesmo que um matemático não deixa entrar em suas especulações matemáticas a visão involuntária das moscas que zumbem em torno d'ele…

A atividade que os místicos censuram não é a ação real nem a cooperação da alma à graça; é só um temor inquieto ou um fervor afanoso que busca os dons de Deus para a própria consolação.

O estado passivo, pelo contrário, é um estado simples, calmo, desinteressado, no qual a alma coopera com la graça de modo tanto mais livre, mais puro, mais forte e mais eficaz, quanto mais isenta está das inquietudes e as indústrias do próprio interesse.

A propriedade que os místicos condenam com tanto rigor, e que chamam amiúde impureza, não é senão uma busca da própria consolação e do próprio interesse no gozo dos dons de Deus, com prejuízo do zelo do amor puro, que quer tudo para Deus e nada para a criatura. O pecado do anjo foi um pecado de propriedade: stetit in se, como diz Santo Agostinho. A propriedade em seu verdadeiro sentido não é, pois, senão o amor-próprio ou o orgulho, que é o amor de nossa própria excelência enquanto própria e que, em vez de devolver tudo unicamente a Deus, ainda traz um pouco os dons de Deus a si, para comprazer-se neles. Este amor-próprio determina, no uso dos bens exteriores, a maior parte dos defeitos sensíveis. No uso dos dons interiores determina uma busca sutilíssima e quase imperceptível de si nas mais grandes virtudes; e precisamente esta última purificação é a mais rara e mais difícil.

Os místicos chamam também amiúde impureza às indústrias do amor interessado que turbam a paz de uma alma atraída à generosidade do amor puro. O amor interessado não é pecado: e não se pode permitir, nessa linguagem, chamá-lo impureza, senão porque é diferente do amor desinteressado, ao que se chama puro. O amor interessado encontra-se amiúde em grandíssimos santos, e é capaz de produzir excelentes virtudes.

A desaprovação em seu verdadeiro sentido não é, pois, senão a abnegação inteira de si mesmo segundo o evangelho e a prática do amor desinteressado em todas as virtudes. A cobiça, que é oposta à caridade, não consiste somente na concupiscência carnal e em todos os vícios grosseiros, senão também neste amor espiritual e desordenado de si para comprazer-se nele.

A atração interior, da qual falaram tanto os místicos, não é em absoluto uma inspiração milagrosa e profética, que faça à alma infalível, nem impecável, ni independente da direção dos pastores; não é senão a graça, que em todos os justos é preveniente sem descanso, e que é mais especial nas almas que são elevadas, do amor desinteressado e da contemplação habitual, a um estado mais perfeito. Estas almas podem enganar-se, pecar, ter necessidade de ser postas de novo no bom caminho. Pelo contrário, não podem caminhar com segurança por seu caminho senão graças à obediência.

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