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LETRA E SER
LÉVY, Benny. Le Logos et la lettre: Philon d’Alexandrie en regard des pharisiens. Lagrasse: Verdier, 1988.
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Diante da indagação sobre a origem da ideia de que os relatos foram escritos de gênero alegórico e devem ser entendidos apenas nesse sentido, questiona-se se os autores convocaram para suas deliberações ou se houve ocultação da verdade na mente deles no momento em que substituíam uma coisa por outra.
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Arnobe, Adv. nat. V 33, citado em Mito e alegoria, J. Pépin, nova edição, Estudos augustinianos, 1976, página 403.
A concessão divina permitiu estar a serviço de uma nova aliança, não literal, mas espiritual, visto que a letra mata e o espírito faz viver.-
Paulo, II Coríntios 3:6.
Os judeus alegoristas são caracterizados como cidadãos do mundo.-
E. Bréhier, As Ideias filosóficas e religiosas de Filo de Alexandria, Vrin, 1950, página 65.
O Logos e a Letra
Os sinais da natureza
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Uma vez reduzida a diferença entre Israel e as nações, concebe-se que a Palavra de Deus, na perspectiva de Filo, não se manifesta em nenhuma língua específica.
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Estimativa de que indivíduos de horizonte limitado ao próprio país julguem que o legislador não pretendeu dizer outra coisa.
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Aqueles inscritos em uma cidade mais vasta, dotados de pensamentos mais perfeitos, sabem que a investigação não se concentra em quatro poços, mas nas quatro partes do universo.
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Somn. I, parágrafo 39.
A ausência de necessidade em perscrutar os hebraísmos no autor alexandrino indica que comentar a Torá em grego não representa nenhum problema real.-
A Septuaginta surge como a própria Palavra de Deus, de caráter incorpóreo e nu, sem diferença alguma com a unidade.
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Deus., parágrafo 83.
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Celebração anual de festa e panegíria na ilha de Faros para venerar o lugar onde a tradução lançou a primeira clareza e para render graças a Deus pelo antigo benefício sempre renascente.
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Mos. II, parágrafo 41.
A travessia em massa por judeus e não judeus sugere que, não fosse a condição pouco prestigiosa do povo judeu, o mundo inteiro realizaria o deslocamento.-
Opinião de que cada povo abandonaria as leis próprias, deixando de lado os costumes ancestrais, para respeitar a única Lei.
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Id., parágrafo 44.
A liberdade de comentar termos gregos, interrogar radicais e interpretar nomes hebreus a partir de jogos de palavras gregas ocorre sob a condução de um soplador invisível.-
O termo próprio caldeu foi vertido exatamente pelo mesmo termo próprio grego, perfeitamente adaptado à coisa significada.
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Mos. II, parágrafos 37, 38.
A univocidade é apontada como a essência ou o telos da linguagem, constituindo um ideal aristotélico ao qual nenhuma filosofia jamais renunciou.-
Jacques Derrida, Margens — Da filosofia, Minuit, 1972, página 295.
A realização desmedida desse ideal em Faros torna irrelevante o próprio problema da tradução.-
Sempre que caldeus conhecedores do grego ou gregos conhecedores do caldeu confrontam simultaneamente as duas versões, a caldeia e a tradução, contemplam-nas com admiração e respeito como duas irmãs, ou como uma só e mesma obra, tanto no fundo quanto na forma.
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Os autores não são chamados de tradutores, mas de hierofantes e profetas.
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Mos. II, parágrafo 40.
Essa febrilidade extraordinária evidencia a condição central da estratégia de leitura praticada por Filo.A interpretação do versículo em grego adota como ponto de partida a tese aristotélica sobre a limitação das significações.-
A postulação de uma infinidade de significações impediria a existência de qualquer logos.
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Não significar uma coisa única equivale a nada significar.
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Metafísica Gamma, 4 1006 b, tradução de Tricot, Vrin, 1966, tomo I, página 201.
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Contraponto de um mestre de Israel afirmando que cada versículo da Torá foi feito pelo Santo, bendito seja Ele, como uma imensa reserva onde se asseguram e reservam múltiplos temas sem limite.
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Ben Ich Hai, od Iosef hai, Jerusalém, 1984—1985.
O impasse diante das variações dos versículos e a preservação do ideal de univocidade resolve-se por meio da alegoria, que converte o sementema em noção filosófica.-
A operação promove a passagem das afirmações literais para as ideias.
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Abr., parágrafo 217.
A intolerância a qualquer descompasso exige que o significado, pertencente à ordem do espírito, não conviva com a variedade no significante, sob pena de colapso do universo philoniano.-
Assim como na geometria e na dialética as coisas a significar não admitem a variedade na expressão, que permanece imutável uma vez estabelecida, os tradutores descobriram as expressões adaptadas às realidades, as únicas ou mais capazes de restituir com perfeita clareza as coisas significadas.
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Mos. II, parágrafos 37, 38.
A validade observada no texto grego aplica-se com maior força ao texto original escrito pelo dedo divino, alterando a compreensão habitual de Palavra de Deus e Logos.O Logos assume a condição de habitação onde reside o pensamento, sendo essa morada identificada inicialmente com a figura de uma mulher antes da ascensão da alma.A caracterização dessa figura como sedutora e perversa impõe o abandono da palavra expressa.-
Orientação para deixar a habitação do pai a fim de não sofrer sedução pelas belezas das palavras e dos termos, evitando a separação da beleza autêntica residente nas coisas designadas pelos vocábulos.
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Id., parágrafo 39.
A transformação da casa-mulher em esquema para a ascensão culmina na manifestação do Logos a Jacó como habitação divina.O Logos restituído à majestade, como potência divina semelhante a uma Virgem celeste, divide-se entre pensamento e palavra, representados pelos irmãos Moisés e Aarão.-
Linguagem e razão compartilham a mesma mãe, a natureza racional do Logos, cujos filhos são necessariamente irmãos.
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Migr., parágrafo 78.
A tradução do pensamento de Moisés por Aarão assemelha-se à tradução da Torá pelos setenta sábios sob o reinado de Ptolomeu.Os artifícios da linguagem-mulher e da língua dos magos do Egito desfazem-se de modo análogo ao engolimento dos bastões pelo bastão de Aarão diante da hábil variedade da natureza.-
Migr., parágrafo 85.
A noção de variado deixa de conotar a túnica ensanguentada de José e passa a designar a veste ornada e maravilhosa do sumo sacerdote Aarão em sua atividade externa.-
Tomar a outra veste toda ornada e melhor de ver, Ebr., parágrafo 86.
O alegorista, também denominado físico, identifica os sinais claros da natureza refletidos nas palavras como em um espelho.-
Abr., parágrafo 60.
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Contempl., parágrafo 78, em paralelo com as Enéadas, IV 3, 30.
Há uma recusa voluntária em enxergar o jogo exercido pela palavra variado sobre o intérprete.O autoimpedimento em perceber o próprio jogo justifica-se porque a conversão ao sentido figurado decorre da coação da própria letra, por meio de sinais fornecidos pelo legislador ou pela natureza.O físico reconhece o chamado particular feito pelo legislador direcionado a ele, e não à multidão.Constata-se a ausência de justificação a respeito desse processo de significação e sinalização.É a partir dessa dinâmica sinalizadora que se projeta a transição em direção à filosofia.A preservação da estratégia interpretativa ocorre mediante a decisão do alegorista de fundamentar essa significação na própria filosofia, fechando o ciclo.Em intervenção no colóquio de Lyon, assinala-se o comportamento de Filo e Aristóbulo diante do texto sagrado.-
As anomalias, estranhezas, contradições e absurdos do sentido literal tornam-se mais chocantes e significativos da intenção alegórica quando tocam a natureza de Deus.
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O absurdo da acepção literal mostra-se suficiente para afastar o leitor do literalismo e orientá-lo para a alegoria.
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Jean Pépin, Teoria da exegese alegórica, Atas do colóquio sobre Filo, Lyon, 1966, Ed. do CNRS, Paris, 1967.
Aquilo considerado natural e suficiente pelo físico para migrar rumo à alegoria constitui o fator de interrupção para o pensador da letra.A suposição de que Moisés deve ser entendido literalmente em Êxodo 22:25—26 e de que Deus manifesta preocupação por um manto recebe censura ou advertência.-
Tal entendimento é interpretado como rebaixamento da grandeza divina à pequenez humana.
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J. Pépin, página 146.
O pensador da Letra, vinculado à Halachá, mantém a convicção de que a preocupação divina se dirige efetivamente ao manto.-
O procedimento divino de autolimitada pequenez é apontado como a condição que viabiliza a grandeza humana.
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O Talmud, tratado Baba Metzia 31b, 113b.
O alegorista realiza a seleção dos sementemas respaldado no conhecimento prévio sobre a natureza e sobre a essência de Deus.O pensador da Letra preserva a integridade da letra sem acréscimos ou subtrações, permitindo que as estranhezas do texto desestabilizem continuamente o saber estabelecido sobre a divindade.A pressa do alegorista confronta-se com a paciência fiel do literalista.-
Filo prescinde de solucionar as dificuldades do sentido literal no nível em que se apresentam, optando por desconsiderá-las de maneira sumária.
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J. Pépin, ibid.
B. A mulher petrificada
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A intenção de Filo, conforme sugestão anterior de Bréhier, volta-se à crítica contra a leitura mitológica da Escritura.
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Sob essa ótica, a contestação da letra-mulher concentra-se na crítica da petrificação, representada no plano semântico pela esposa de Ló.
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Ló teve duas filas de uma mulher que foi petrificada e que deveria ser denominada costume; ela se manifesta hostil à verdade e, se conduzida junto, permanece atrás, com olhos fixos nos objetos habituais, assemelhando-se a um marco sem alma.
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Ebr., parágrafo 164.
A leitura da Escritura não deve adotar a postura assumida pela mulher de Ló.A materialidade da letra não pode servir de pretexto para a elaboração de fábulas, embora estas possuam utilidade na fundação de uma comunidade.-
Utilidade reconhecida para a condução da vida de um bom cidadão, no sentido de ser educado em opiniões que remontam à antiguidade e seguir a tradição das belas ações.
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Sacrif., parágrafo 78.
O literalismo compreendido como mitologia bastaria caso o objetivo do leitor consistisse apenas em preservar a memória dos pais fundadores.A palavra revelada, contudo, afasta-se do conceito de costume, mesmo transmitida de geração em geração; a leitura da trajetória de Abraão difere da fixação em uma lembrança familiar.A interpretação meramente mnemônica configura hostilidade à verdade, pois repete a recusa da mulher de Ló em acompanhar a partida de Abraão.A mulher de Ló, de forma semelhante a Labão, pressupõe a necessidade de conservação da ordem temporal.-
Crença de que é justo que os homens tenham comércio com as coisas mais antigas e somente depois com as mais recentes.
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Ebr., parágrafo 48.
O comportamento de Labão revela crença no novo e na juventude, supondo a sedução pelos encantos do recente após o casamento com a primogênita.-
Essa atitude reflete as duas faces da paixão pelo tempo fragmentado, no qual a sensibilidade busca discernir o antes e o depois.
O diferencial da leitura inspirada reside na inversão da ordem temporal, desestabilizando os ritmos lentos do estudo, da audição e da obediência aos preceitos tradicionais.Na brecha gerada por esse momento oportuno ocorre a manifestação do próprio Deus.-
Indagação sobre o momento indicado pelo mestre, reconhecendo-o como aquele incapaz de ser apontado por qualquer ser do devir.
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O próprio Deus constitui o verdadeiro momento propício.
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Mut., parágrafo 264.
Os literalistas vinculados aos tempos antigos e aos mitos de fundação ignoram a ruptura e a inversão desse acontecimento temporal.-
Junto a Deus inexiste o velho ou o passado, pois tudo nasce e existe instantaneamente.
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Sacrif., parágrafo 76.
Sob o tempo fragmentado manifesta-se a promessa de retorno na mesma estação no ano seguinte, para que Sara conceba um filho, conforme Gênesis 18:10.O Presente de Deus define-se simultaneamente como doação pura e presença em um tempo diferenciado.A sabedoria em questão é recebida sem a mediação de mentores, configurando uma visão que emerge no silêncio da maestria.Ocorre a substituição do sentido da audição pelo da visão.O dever de atenção aos ensinamentos visa à preparação para o momento em que a divindade faz brotar os germes internos.-
Deus faz levantar na alma novos germes de uma sabedoria aprendida de si mesmo.
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Sacrif., parágrafo 79.
A alegoria busca conduzir o leitor ao instante decisivo de autorrevelação, integrando a história sagrada à própria trajetória de nascimento individual.O processo dispensa o auxílio da maiêutica tradicional.-
Menção de que as mulheres dos hebreus não necessitam de parteiras para a realização do parto.
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Fug., parágrafo 168.
Essa orientação interpretativa observada nos pontos salientes da alegoria de Filo é interrompida.A impossibilidade de apagar totalmente os vestígios da letra impede a redução da facticidade histórica de Israel.A presença desse signo não natural revela-se indispensável para a convergência das nações em Faros com o objetivo de celebrar o Unificado.A crítica philoniana se estende aos alegoristas radicais que ignoram os vínculos comunitários.-
Aqueles que agem como se vivessem isolados no deserto ou fossem almas desencarnadas ignoram cidades, povoados, casas ou agrupamentos humanos na busca isolada pela verdade nua.
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A Palavra Santa ensina a necessidade de cultivar a inteligência fecunda sem abolir os costumes determinados por personagens inspirados.
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Migr., parágrafo 90.
A restauração dos Pais na condição de fundadores não gera perturbação no sistema de Filo.A preservação do filosofema garante a univocidade do significado em qualquer cenário.-
A abordagem comporta o relato empírico de fundação voltado ao público popular ou a transposição do sensível ao inteligível direcionada à perspectiva mística.
C. O sintema
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Ocorre a transferência imprevista do variado do plano sensível para o plano inteligível por parte de Filo.
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O vocábulo destinado a assegurar a precisão e a univocidade filosófica sofre deslocamento de acordo com a dinâmica metafórica.
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A alegoria é descrita como uma metáfora contínua que desloca a totalidade do plano semântico sensível em direção à Ideia, à virtude e à alma.
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Quintiliano, citado em J. Pépin, Teoria da exegese alegórica, op. cit., página 89.
Deslocamentos instáveis são identificados no interior do próprio discurso filosófico, onde se esperava estabilização.A aparente ingenuidade philoniana contrasta com a vigilância manifestada pelos neoplatônicos no tratamento do material simbólico.Damascius expressa preocupação antes do desenvolvimento do discurso sobre a processão.-
Inquietação em transferir para o inteligível as denominações extraídas das realidades inferiores.
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Damascius, Dos primeiros princípios, Verdier, 1987, página 491.
Filo assemelha-se a um platônico neófito fixado no sentido óbvio da crítica de Platão ao mito, indignando-se com representações corporais da divindade e com absurdos literais.A demonstração de Proclus no comentário sobre A República indica a exigência de superação dessa postura por um platonismo rigoroso.É necessária a percepção da semelhança na dissemelhança entre o plano superior e o inferior, articulada pela linguagem mítica.-
O mito realiza o indivisível no dividido e confere corpo ao inefável.
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J. Trouillard, A Misticismo de Proclos, páginas 48—49.
Uma prerrogativa metodológica concedida ao neoplatônico apresenta-se vedada ao exégeta alegorista.Essa possibilidade baseia-se na manutenção de um afastamento entre a linguagem da filosofia e a da teologia, cindida entre a indicação e o simbolismo.Embora o filosófico e o teológico convirjam na afirmação da pureza do Unificado ou do Indicível, expressam-no por vias distintas com efeitos diversos.O neoplatonismo adota o termo sintema do vocabulário dos Oráculos caldaicos para designar a marca divina impressa no sensível.-
A designação representa a eficácia do Unificado atuante no plano sensível.
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A causa do universo semeou em todos os seres marcas de sua superioridade absoluta, permitindo a descoberta do símbolo do Pai quando o ser retorna ao aspecto inefável da própria natureza.
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Proclus, Teologia platônica II, ed. H.E. Saffrey e L.G. Westerink, Les Belles Lettres, 1968—1978, páginas 5—6.
A marca semeada pelo Pai na alma torna-se objeto de esquecimento no momento da entrada desta no corpo.-
H. Lewy, Chaldaean Oracles and Theurgy, nova edição nos Estudos augustinianos, 1978, página 190 e seguintes.
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O desejo de retorno da alma ao Pai envolve a recordação dessa marca.
O âmbito da simbólica, conectado à teurgia, fundamenta-se na recordação de um nome e na invocação de sua potência.-
E.R. Dodds, Os Gregos e o irracional, Flammarion, 1965, col. Champs, página 290.
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O despertar da alma vincula-se à restauração do nome esquecido que a assinala.
A introdução do sintema na linguagem da indicação faculta ao filósofo suspeitar do indicível por meio de termos aplicados às realidades inferiores.-
Na tentativa de indicar o princípio supremo, propõe-se ora um meio, ora outro de conhecimento, ou mais precisamente, um sintema.
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Damascius, op. cit., página 279.
O plano inferior emite sinais em direção ao plano superior por intermédio da articulação sintemática do sensível.-
O signo sensível condensa uma longa processão contínua e assume potência de conversão, revelando eficácia quando há engajamento ativo em seu jogo.
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Sentir define-se como decifrar.
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J. Trouillard, op. cit., página 206.
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A exegese alegórica recusa esse tipo de sinal, demandando o esquecimento da mulher para a revelação da alma virtuosa.
O filósofo que inicia a investigação a partir de vocábulos abstratos lida inicialmente com a indigência verbal, distanciando-se da abundância simbólica.A aproximação discreta entre a Indigência e a Abundância instaura uma dinâmica erótica na linguagem da indicação.O exégeta alegorista adota uma postura de desconfiança perante essa união.O ponto de partida do alegorista situa-se no plano simbólico da letra, tomada como algo que o ultrapassa.O problema central do intérprete resume-se às ações de suprimir, consolidar e ordenar.Esse procedimento resulta na eliminação da densidade simbólica do sensível, de modo que a noção perde a capacidade de indicação.A impossibilidade de controlar a dinâmica metafórica preserva uma zona cega evidenciada pelo comportamento do termo variado.A aceitação da hipótese de um comentário alegorico radical utilizado e traído por Filo permite projetar a uniformidade conceitual de tal tratado.-
R. Goulet, A Filosofia de Moisés, Vrin, 1987.
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A substituição sistemática de cada sementema por uma noção resultaria em um conteúdo banal para o historiador da filosofia.
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Na tentativa de localizar a filosofia grega na Bíblia, os alegoristas evitavam originalidade doutrinária, limitando-se a breves aproximações simbólicas no comentário cursivo.
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O interesse do documento desaparecido reside na originalidade do projeto exegético, mais do que na execução nos versículos do Pentateuco.
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R. Goulet, op. cit., página 566.
A conclusão do Pentateuque sob essa metodologia não acrescentaria conhecimentos além daqueles já disponíveis por meio de Cícero.Nota-se relevância no fato de que o vocábulo que designa o ápice do pensamento no cuidado em Damascius — a suspeita — corresponde em Filo à designação da própria alegoria.-
Tradução de M.-C. Galpérine: o suspeito.
A suspeita em Damascius move-se em direção ao nada, confronta a aporia, recua e reinicia o processo, enquanto o indicível se esquiva.A suspeita em Filo, após proclamar a propensão da natureza ao ocultamento em alinhamento com Heráclito, cede à tentativa de desvelá-la.-
Esse tipo de personagem recebe do legislador o nome de falso profeta por desnaturar a verdadeira profecia e obscurecer as descobertas autênticas com invenções espúrias.
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Os estratagemas são descobertos em curto espaço de tempo, pois a Natureza não se compraz na dissimulação eterna e desvela sua beleza por meio de poderes invencíveis.
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Spec. IV, parágrafo 51.
O indicível manifesta-se a partir do próprio sensível na abordagem neoplatônica, expressando a potência do princípio transcendente.A transcendência é afirmada na perspectiva alegorista para além do Bem e do Unificado.A necessidade de contrair o plano sensível-semântico não impede a teoria alegorista de buscar o desvelamento do segredo resguardado da transcendência.Cogita-se a presença de um jogo de finalidade mais decisivo na teléstica teúrgica de Proclus do que na experiência mística de Filo.D. O telos
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O vocábulo telos é interpretado inicialmente por Filo como termo, limite e fim.
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O alcance do telos e a consumação da iniciação equivalem, para o alegorista, a atingir a fronteira do pensamento.
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Formula-se a questão sobre qual seria o fim da reta inteligência das coisas.
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A resposta de Filo concentra-se na condenação da loucura.
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Consiste em condenar a loucura em si mesmo e em toda criatura.
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A convicção da ignorância total estabelece os limites e as fronteiras do saber diante do único Sábio, que é também o único Deus.
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Migr., parágrafo 134.
O espírito conduzido à perfeição reverte seu imposto à divindade sob essa condição.O termo imposto em grego pode ser designado como telos, em conformidade com a estipulação legal de que o imposto pertence a Deus.-
Migr., parágrafo 139, comentário do versículo de Números 31:29.
O sacrifício de Isaac ao terceiro dia constitui o imposto devido ao término da trajetória abrahamica.A chegada ao termo do percurso configura o pagamento do tributo e a consequente emergência como linhagem perfeita.Esse processo estabelece a transição em direção à natureza intemporal.-
O homem de bem executa cada ponto, direcionando sua marcha sem desvios no caminho da vida.
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As obras do sábio deixam de se diferenciar das palavras divinas ao final do trajeto.
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Id., parágrafo 129.
O resultado final apresenta-se como a cessação da diferença entre a criatura e o Criador, anulando a distinção entre mortal e imortal.A natureza perfeita representada por Isaac faculta o acesso a uma assimilação radical a Deus, configurando o ser humano à imagem divina.-
Vinculado à linhagem do guia soberano devido à abundância do sopro divino, o indivíduo aplicava-se a agir de modo agradável ao Pai e Rei, seguindo-o nas vias abertas pelas virtudes.
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O avanço é permitido apenas às almas que consideram a assimilação a Deus como o termo.
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Opif., parágrafo 144.
Isaac simboliza o renascimento na condição de filho de Deus com base no instante que inaugura a eternidade.A tese da assimilação divina constitui o limite crítico do pensamento philoniano, que não pode excluir o princípio hebraico da separação entre Criador e criatura.-
A formulação evita a equiparação hermética de uma natureza perfeita que se integra à própria Potência de Deus.
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Mos. I, parágrafo 75.
O uso cauteloso do conceito de assimilação por Filo encontra um direcionamento mais seguro por meio da noção de lei animada.Essa concepção, disseminada no ambiente helenístico, alinhava-se à formulação presente no Político de Platão.-
Atribuição ao Rei de uma ciência régia posicionada acima das leis escritas.
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O Político, 294a.
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Mos. II, parágrafo 4.
A atração de Filo por essa ideia fundamentava-se em uma tripla vantagem teórica.A identificação das palavras divinas com os atos do sábio operava de forma gradual a transição do mortal ao imortal.-
A existência do fundador da linhagem apresenta-se em conformidade com a lei, configurando-se como a própria lei e como um código não escrito.
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Abr., parágrafo 276.
O termo conforme à lei bastaria para uma finalidade moral, mas a lei animada assume a função de esbater a diferença entre mortal e imortal.A noção evoca de modo sutil a unidade na tríade dos patriarcas sob a proeminência exercida por Isaac na exegese philoniana.-
Homens que não foram discípulos de outrem, não aprenderam com mestres o que dizer e fazer, tornando-se os próprios ouvintes e alunos.
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Dedicaram-se à ordem da natureza, julgando a própria natureza como a instituição mais venerável.
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Id., parágrafo 6.
Todos os patriarcas passam a ser descritos como dotados de aprendizado espontâneo e natureza perfeita.A operação transfere a própria letra do plano sensível para o plano inteligível.-
Aquele que espera é digno de registro e memória na natureza imortal, na qual as boas ações estão inscritas, em vez de pequenos pedaços de papiro destruídos por vermes.
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Id., parágrafo 11.
Os Pais realizam a abolição da letra por meio do código não escrito, garantindo simultaneamente a sua continuidade.Nota-se que, de modo análogo ao ocorrido com o termo variado, Filo não manifesta percepção quanto a esse movimento.biblia/filon/levy/letra-ser.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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