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Exegese Alegórica

Jean Daniélou. Philon d’Alexandrie, Paris: Librairie Arthème Fayard, 1958

Interpretações Cosmológicas

  • A ideia de reconhecer mitos cosmológicos em narrativas mitológicas não é moderna — ela já se encontra em Plutarco e nos contemporâneos de Fílon, sendo aplicada tanto às tradições gregas quanto às bíblicas por judeus alexandrinos anteriores a Fílon.
    • Em De Iside et Osiride, 75, Plutarco registra que alguns afirmavam: “Osíris designa o mundo lunar e Tifão o mundo solar.”
    • Em De Iside et Osiride, 77, lê-se: “As vestes de Ísis são tingidas em muitas cores, porque seu poder se estende sobre a matéria que recebe toda forma.”
    • Para Flávio Josefo, a veste multicolorida do sumo sacerdote é figura dos quatro elementos do cosmos — assim como a veste de Ísis para Plutarco (Guerras dos Judeus, V, 5, 4) —, e o candelabro de sete braços é figura dos sete planetas (V, 5, 5).
  • O Templo visível é interpretado por Fílon como figura do cosmos inteiro, numa transposição de tema estoico presente em Cícero e Sêneca, que provavelmente remonta ao jovem Aristóteles.
    • Em De Specialibus Legibus I, 66, lê-se: “O mais elevado e, no sentido mais verdadeiro, o templo sagrado de Deus é, como se deve crer, o universo inteiro, tendo por santuário a parte mais sagrada de toda a existência, ou seja, o céu, por ornamentos votivos as estrelas, por sacerdotes os anjos que servem a seus poderes, almas incorpóreas.”
  • As diferentes partes do Templo são interpretadas como diferentes partes do cosmos, numa exegese cosmológica sistemática que Fílon em parte recebe da tradição e em parte amplia.
    • A arca da aliança é feita de madeira imperecível para indicar a relação entre as diversas partes do universo (In Exodum I, 54).
    • Os dois lados da arca são os dois equinócios, e os quatro animais são as quatro estações (In Exodum II, 56).
    • Em Quaestiones in Exodum II, 78, afirma-se: “É claro para todos que os sete candelabros são símbolos dos planetas.”
    • Em In Exodum II, 79, Fílon especifica que os planetas não percorrem todas as partes da esfera celeste, mas apenas a parte sul.
    • Os querubins são os dois hemisférios; o véu que separa o santo dos santos do restante do templo é o firmamento que separa o céu das estrelas do mundo subluna.
  • As vestes do sumo sacerdote recebem interpretação cosmológica análoga à do Templo, e a correspondência entre os doze patriarcas e os signos do zodíaco testemunha uma exegese costumeira anterior a Fílon.
    • As quatro cores da veste são figuras dos quatro elementos, em Fílon como em Josefo (De Vita Mosis II, 88).
    • As duas pedras de ônix onde os nomes dos doze patriarcas estão gravados representam os dois hemisférios acima e abaixo da terra.
    • Em In Exodum II, 114, lê-se: “Porque as doze pedras são representações dos doze animais que estão no zodíaco, e são um símbolo.”
    • Em De Somniis II, 112, os doze filhos de Jacó correspondem aos doze signos do zodíaco.
    • Em antigas sinagogas posteriores a Fílon foram encontradas pinturas associando os signos do zodíaco a eventos bíblicos.

Exegese Antropológica

  • A exegese cosmológica é seguida, em Quaestiones in Genesim I, 8–10, pela exegese antropológica, na qual as realidades bíblicas passam a figurar não as partes do cosmos, mas as faculdades da alma humana.
    • A árvore da vida deixa de ser figura da terra, do sol ou do quarto céu e passa a representar o hegemonikón — a razão humana (In Genesim I, 10).
    • No sacrifício de Abraão com boi, cabra, carneiro, pomba e rola (In Genesim XV, 8), Fílon passa da interpretação cosmológica para a antropológica: “O boi está relacionado à terra, pois lavra e cultiva o solo. A cabra está relacionada à água… O carneiro está relacionado ao ar… Às aves, como a pomba e a rola, todo o céu é igualmente atribuído, dividido nos circuitos dos planetas e das estrelas fixas… Os referidos pássaros são cantores, e o profeta alude à música que se aperfeiçoa no céu e é produzida pela harmonia do movimento dos astros.”
    • A interpretação ética do mesmo sacrifício identifica: a novilha com a substância corporal; a cabra com a comunidade dos sentidos; o carneiro com a razão; a pomba com a teoria física; e a rola com a forma inteligível e incorpórea da razão (In Genesim III, 3).
  • Adão representa o espírito e Eva simboliza a sensação, sendo a criação de Eva durante o sono de Adão figura da teoria aristotélica do conhecimento — exemplo tradicional da exegese antropológica de Fílon.
    • Em Legum Allegoriae II, 25, 31, 35, 38, lê-se: “É quando a mente adormece que a percepção começa, pois, inversamente, quando a mente desperta a percepção se extingue… 'Deus lançou um torpor sobre Adão, e ele adormeceu' (Gênesis 2:21). Muito acertadamente usa essa linguagem. Pois o torpor e a mudança da mente são seu sono… 'Tomou um de seus lados' (Gênesis 2:21). Das muitas faculdades da mente, tomou uma, a faculdade da percepção… E assim acrescenta as palavras 'Construiu-a como mulher' (Gênesis 2:22), provando com isso que o nome mais próprio e exato para a percepção sensível é 'mulher'.”
    • Em De Abrahamo, 99, Fílon afirma ter ouvido filósofos da natureza que interpretavam alegoricamente a passagem, dizendo que o marido era figura da boa mente e a esposa, da virtude.
    • Em De Josepho, 151, eruditos apresentam o rei do Egito como figura da mente — governante da terra do corpo em cada um de nós.
    • A Tábua de Cebes — pequeno tratado de ética pitagórica do período — apresenta cenas simbólicas interpretadas como alegoria das potências da alma; interpretações análogas encontram-se em De Iside et Osiride, 74.
  • O corpo humano também é alegorizado, sendo a arca de Noé sua figura mais elaborada, embora Fílon rejeite a identificação da árvore da vida com o coração como “digna do médico, não do filósofo.”
    • Em Legum Allegoriae I, 59, Fílon cita e rejeita a interpretação segundo a qual a árvore da vida é o coração, por ser causa da vida e ocupar posição central no corpo.
    • A arca de Noé é figura do corpo (Quaestiones in Genesim II, 1); o corpo é inscrito em forma retangular, assim como a arca foi feita de vigas quadrangulares (In Genesim II, 2).
    • A arca inclui espaços que correspondem à caverna dos sentidos: ouvido, olho, nariz (In Genesim II, 3).
    • O betume com que a arca foi calafetada corresponde ao caráter coesivo do corpo.
  • A alegoria psicológica culmina na alegoria moral, na qual as paixões da alma são figuradas por animais selvagens — exegese que Fílon recebe de uma tradição que remonta à República de Platão.
    • Em Legum Allegoriae, 9 e 11, os animais apresentados a Adão figuram as paixões da alma: “Eis quem são nossos ajudantes, as feras, as paixões da alma… As paixões ele compara a feras e pássaros, porque, selvagens e indômitas como são, despedaçam a alma, e porque, como seres alados, pousam sobre o entendimento.”
    • Na Carta de Aristeu, os animais impuros são figuras dos vícios; o mesmo reaparece em Fílon, De Specialibus Legibus IV, 105.
    • Simbolismo comparável encontra-se em Plutarco, De Iside et Osiride, 75, e em Platão, República, 589, onde o nous comanda as paixões como um rebanho de feras — serpentes, leões ou macacos.
    • Siegfried identificou os símbolos principais: a serpente é o prazer; o bode é a ira — simbolismo que reaparece na tradição dos sete pecados capitais, cada um representado por um animal.
  • Certos ritos recebem interpretação moral que os espiritualiza sem negar o culto visível, numa tendência que já se manifesta no Antigo Testamento.
    • Em De Specialibus Legibus I, 271, lê-se: “Senhor, Deus não se alegra com sacrifícios, mesmo que se ofereçam hecatombes, pois todas as coisas lhe pertencem, e embora as possua, de nenhuma necessita; mas se alegra com a vontade de amá-lo e com os homens que praticam a santidade.”
    • A circuncisão é válida, mas com a condição de que a circuncisão do coração a acompanhe (De Specialibus Legibus I, 6).
    • As mãos impostas sobre a cabeça da vítima simbolizam ações irrepreensíveis (De Specialibus Legibus I, 202).
    • O lavar dos pés significa que não se deve mais pisar a terra, mas elevar-se ao céu (De Specialibus Legibus I, 207).
    • A purificação por água misturada com cinza, prescrita pelo Levítico, é interpretada em De Specialibus Legibus I, 263: “Moisés quer que os que vêm servir ao Ser se conheçam primeiro a si mesmos e de que substância são feitos… Ora, a substância de que nosso corpo consiste é terra e água” — concepção inteiramente análoga à da liturgia cristã da Quarta-feira de Cinzas.

Exegese Mística

  • A verdadeira alegoria filônica — distinta da exegese cosmológica e antropológica destinadas ao público geral — é a que se encontra na Interpretação Alegórica e trata dos mistérios ocultos do mundo hipercósmico e da jornada espiritual da alma até o mundo de Deus.
    • Em Quaestiones in Genesim I, 10, após recordar as interpretações cosmológica e antropológica da árvore da vida, Fílon acrescenta: “Mas os homens dignos e excelentes dizem que a árvore da vida é a melhor das virtudes no homem, a saber, a piedade, pela qual a mente se torna eminentemente imortal.”
    • Em Legum Allegoriae I, 59, Fílon rejeita a interpretação médica e declara: “Uma virtude em seu aspecto mais genérico é chamada árvore da vida.”
    • Em De Cherubim, 25–27, após recordar a interpretação cosmológica dos querubins como dois hemisférios, Fílon acrescenta: “Mas há um pensamento mais elevado do que esses. Vem de uma voz em minha própria alma, que muitas vezes é possuída por Deus e adivinha onde não sabe… A voz me disse que, embora Deus seja de fato uno, seus poderes mais elevados e supremos são dois: bondade e soberania… Desses dois poderes, soberania e bondade, os Querubins são símbolos, assim como a espada de fogo é símbolo da razão.”
    • Em Quis Heres, 280, Fílon interpreta “reunido a seus pais” (Gênesis 25:8) em quatro níveis — os antepassados carnais, os astros, as ideias arquetípicas, ou os quatro elementos —, escolhendo deliberadamente a interpretação dos Lógoi incorpóreos do mundo divino, que em outro lugar denomina “anjos” (In Genesim III, 11).
  • A exegese mística filônica parece ter precursores — provavelmente os Terapeutas ou outros ascetas judeus —, sendo apresentada pelo próprio Fílon como recebida de certas pessoas, não como criação pessoal.
    • Em De Somniis I, 118, ao comentar Gênesis 28:11, Fílon atribui a exegese a “alguns”: “O Praticante [Jacó] encontrou uma palavra divina quando a luz mortal e humana havia se posto. Pois enquanto a mente e a percepção sensível imaginam ter firme apreensão de seus objetos… a Palavra divina está longe. Mas quando cada uma delas reconhece sua fraqueza e, passando por uma espécie de ocaso, desaparece de vista, a reta razão adianta-se para encontrar e saudar a alma praticante, cujo campeão voluntário é aquele que invisível vem de fora em seu socorro.”
    • Embora Fílon rejeitasse o antilegalismo dos Terapeutas, permaneceu dentro de sua escola de espiritualidade.
  • O itinerário místico descrito pela Torá é composto, para Fílon, de duas tríades seguidas do mistério supremo de Moisés, sendo a primeira tríade — Enos, Enoque e Noé — menos importante.
    • Enos é o símbolo da esperança, primeira “semente” da graça (De Praemiis, 10), que introduz a jornada espiritual; seu nome significa “homem” — o verdadeiro homem é o que busca a Deus.
    • Enoque representa o segundo estágio, o arrependimento obtido pelo recolhimento e pela solidão (De Praemiis, 17): “que não foi encontrado, porque Deus o trasladou” (Gênesis 5:24).
    • Noé é o justo que sobrevive à destruição do mundo pecador e inaugura a segunda criação (De Praemiis, 23).
  • A segunda tríade — Abraão, Isaac e Jacó —, mais importante, articula os graus ascendentes da vida espiritual: conhecimento adquirido pela fé, esforço ascético e sabedoria infusa.
    • Abraão, objeto dos tratados De Abrahamo e De Migratione Abrahami, realiza três migrações sucessivas: do corpo (cuja figura é a Caldeia), da vida sensível e do discurso da inteligência discursiva (De Migratione, 1–2; De Abrahamo, 72).
    • A mudança de nome de Abrão para Abraão significa a passagem da sabedoria caldeia à verdadeira sabedoria espiritual.
    • Abraão casa-se primeiro com Hagar — a cultura profana — e depois com Sara — a sabedoria, conhecimento da revelação (De Abrahamo, 100); representa a figura da mathesis, conhecimento adquirido, em contraste com o conhecimento infuso dos perfeitos (De Praemiis, 27).
    • Em De Abrahamo, 70 e 77, lê-se: “Deus foi visto por Abraão (Gênesis 12:7)” — primeiro conhecimento analógico de Deus por meio do mundo.
    • Em De Abrahamo, 121, descreve-se a visão mais elevada: “O lugar central é ocupado pelo Pai do Universo, que nas sagradas escrituras é chamado O-que-é como nome próprio, tendo de cada lado os poderes mais antigos e próximos a ele, o criador e o soberano.”
    • Jacó representa o esforço ascético e o progresso; sua luta com o anjo figura a batalha contra as paixões e a aquisição das virtudes, tendo a apatheia como ponto de chegada; seu nome será mudado para Israel — “o que vê a Deus” — e em De Praemiis, 51, afirma-se: “Pois após a vida ativa da juventude, a vida contemplativa da velhice é a melhor e a mais sagrada.”
    • Isaac, cujo nome significa riso, representa o perfeito dotado de sabedoria infusa — que tem a Deus sozinho como pai (Quod Deterius, 124); seu casamento com Rebeca é descrito em De Congressu, 34–38: “Aquele que obteve a sabedoria que vem sem trabalho e esforço, porque sua natureza é felizmente dotada e sua alma fecunda no bem, não busca nenhum meio de aperfeiçoamento: pois tem junto a si em sua plenitude os dons de Deus… mas deseja e pede que estes permaneçam com ele constantemente.”
  • Moisés é o coração do simbolismo filônico — o mistério supremo que coroa o itinerário —, sendo o tipo do homem perfeito no qual não há progresso, mas plenitude originária.
    • Goodenough identificou corretamente Moisés como o grande herói e hierofante dos mistérios filônicos.
    • Em De Confusione Linguarum, 106, o berço onde Moisés é depositado é o corpo como a arca coberta de betume que envolve a alma: “A mente chamada Moisés, essa planta excelente, chamada de excelente em seu próprio nascimento… chora amargamente nos dias em que está aprisionada na arca do corpo manchada com 'asfalto-piche'… Chora por seu cativeiro, oprimida pelo anseio por uma natureza que não conhece o corpo.”
    • O conflito de Moisés com o egípcio é o conflito da verdadeira filosofia com o epicurismo; a fuga para o deserto é o recolhimento na solidão.
    • Moisés liberta as sete filhas de Jetro — os cinco sentidos, a fala e o instinto sexual — dos maus pastores; Gregório de Nissa, seguindo Fílon, comenta (Patrologia Graeca XLIV, col. 332 B): “Depois de haver expulsado os pastores, isto é, tendo convencido os mestres da iniquidade do mau uso que fazem da educação, levaremos a vida solitária, todos os movimentos de nossa alma sendo guiados como um rebanho pelo Lógos.”
    • O casamento de Moisés com Séfora é o grande mistério da união do espírito com a sabedoria (De Posteritate, 78); Séfora, como Rebeca, concebe pela ação de Deus (De Cherubim, 47).
    • Em De Cherubim, 48–49, lê-se: “Esses pensamentos, ó iniciados de ouvidos purificados, recebei em vossas almas como sagrados mistérios e não os murmurareis a nenhum dos profanos… Eu mesmo fui iniciado sob Moisés, mas quando vi o profeta Jeremias e soube que ele não era apenas iluminado, mas digno ministro dos sagrados segredos, não tardei em tornar-me seu discípulo.” O sentido desse mistério é que “Deus é uma casa, a morada incorpórea de ideias incorpóreas, que é o pai de todas as coisas, pois as gerou, e o Esposo da Sabedoria.”
    • A Páscoa significa a purificação da alma (De Specialibus Legibus II, 147): “Para os que costumam transformar fatos literais em alegoria, a festa da Travessia sugere a purificação da alma. Dizem que o amante da sabedoria está ocupado unicamente em cruzar para longe do corpo e das paixões, cada um dos quais o domina como uma torrente, a menos que a corrente impetuosa seja represada e contida pelos princípios da virtude.”
    • O cavaleiro e o cavalo lançados ao mar são as quatro paixões e o nous culpado (Legum Allegoriae II, 102); as doze fontes de Elim são os pequenos mistérios relativos ao mundo; as setenta palmeiras são figuras dos grandes mistérios e das virtudes perfeitas (De Fuga, 187).
    • O maná e a rocha de água viva são figuras do Lógos — o que antecipa estranhamente o Evangelho (Legum Allegoriae II, 86; II, 163).
    • A ascensão ao Sinai é o cume da iniciação; em De Posteritate, 14, lê-se: “Vede-o [Moisés] entrar na densa escuridão onde Deus estava (Êxodo 20:21), isto é, em concepções relativas ao Ser Existente que pertencem à região inacessível onde não há formas materiais.”
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