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Deus
Jean Daniélou. Philon d’Alexandrie, Paris: Librairie Arthème Fayard, 1958
A Incompreensibilidade de Deus
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A transcendência da natureza divina constitui o primeiro artigo da filosofia bíblica de Fílon, implicando a distinção radical entre criado e incriado, a diferença da natureza divina em relação a todas as outras naturezas, e a misteriosa incompreensibilidade da ousia divina — afirmações que a filosofia anterior a Fílon não havia formulado com clareza.
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Para Platão, o contraste se dá entre o mundo sensível e o mundo inteligível — divino por natureza —, sendo o conhecimento de Deus difícil, mas não impossível.
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Para Aristóteles, a simplicidade divina não exclui que o ser divino seja um gênero passível de definição clara.
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Para os estoicos, o mundo inteiro é divino e o homem encontra o conhecimento de Deus em si mesmo.
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A transcendência divina é antes de tudo a distinção radical entre Deus e a criação, fundamentada por Fílon na mensagem de Moisés, e implica a crítica de toda forma de idolatria.
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Em De Congressu, 133–34, lê-se: “Grande é realmente a profissão do fundador desta tribo. Ele tem a coragem de dizer: só a Deus devo honrar, não a nada que esteja abaixo de Deus — nem a terra nem o mar nem os rios, nem o domínio do ar, nem as mudanças dos ventos e das estações, nem os vários tipos de animais e plantas, nem o sol nem a lua nem o exército das estrelas… Uma alma grande e transcendente revela tal declaração, ao elevar-se acima do ser criado, ultrapassar seus limites, apegar-se somente ao Incriado, seguindo as sagradas admoestações… 'O próprio Senhor é sua porção' (Deuteronômio 10:9).”
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Em De Specialibus Legibus I, 13, critica-se os que supuseram que o sol, a lua e os outros astros eram deuses com poderes absolutos e lhes atribuíram a causalidade de todos os eventos.
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Em De Specialibus Legibus I, 30, afirma-se que Deus é uno, artífice e criador de todas as coisas, senhor dos seres criados, pois a estabilidade, a fixidez e o senhorio residem por natureza nele somente.
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Em Quis Heres, 97, a graça peculiar de Abraão é descrita como a passagem da astrologia caldeia — que ensinava que o mundo não era obra de Deus, mas ele próprio Deus — para a adoração do criador do céu.
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A afirmação da transcendência divina não implica separação entre Deus e o homem — ao contrário, o reconhecimento da transcendência é o caminho que introduz o homem à unidade com Deus, sendo a transcendência e a graça correlativas desde o início.
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A quem se consagra a Deus, Deus se dá em troca; a união com Deus não é resultado de uma conquista da mente, mas dom que Deus faz de si mesmo.
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Em De Cherubim, 77, lê-se: “Que inimigo mais mortal para a alma pode haver do que aquele que, em sua vaidade, reivindica para si o que pertence somente a Deus? Pois a Deus pertence agir, e isso não podemos atribuir a nenhum ser criado. O que pertence ao criado é sofrer.”
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A distinção entre criado e incriado implica a radical dessemelhança entre o homem e Deus — Deus é o completamente outro —, doutrina que Fílon afirma explicitamente e que não encontra equivalente preciso nos filósofos anteriores.
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Em In Genesim II, 54, lê-se: “Deus não é semelhante ao homem, nem ao sol, nem ao céu, nem ao mundo sensível, mas somente semelhante a Deus, se é que é certo dizer mesmo isso. Pois esse Ser abençoado e feliz não admite nenhuma semelhança ou comparação ou parábola; ele está além da própria bem-aventurança e da felicidade e de tudo o que é mais excelente e melhor que estas.”
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Em Legum Allegoriae II, 1, afirma-se: “Deus sendo uno e só e único, e semelhante a Deus não há nada.”
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Em De Somniis I, 184, lê-se: “O Ingênito não se assemelha a nada entre as coisas criadas, mas as transcende tão completamente que até o entendimento mais veloz fica muito aquém de apreendê-lo e reconhece seu fracasso.”
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A doutrina da incompreensibilidade divina — que a mente humana é impotente para apreender a essência divina — desempenhará papel muito grande nos Padres da Igreja, e sua formulação filosófica explícita deve ser atribuída a Fílon.
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Clemente de Alexandria, Gregório de Nissa e João Crisóstomo são os Padres que mais desenvolverão essa doutrina.
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A doutrina aparece também entre os gnósticos e nos escritos herméticos, mas essas obras são posteriores a Fílon.
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A posição de Norden, que encontra essa doutrina em Atos 17:23 — alusão ao “Deus desconhecido” venerado em Atenas —, foi corretamente contestada por Wolfson, que demonstra que a expressão não significa incompreensibilidade da essência, mas apenas ignorância do nome.
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Um texto de De Mutatione resume o pensamento de Fílon sobre a incompreensibilidade divina, fundando-a na experiência bíblica de Moisés que penetra na escuridão.
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Em De Mutatione, 7–8, lê-se: “Não suponhas que o Existente que verdadeiramente existe é apreendido por qualquer homem; pois não temos em nós nenhum órgão pelo qual possamos contemplá-lo, nem nos sentidos, pois não é perceptível pelos sentidos, nem tampouco na mente. Assim Moisés, explorador da natureza que está além de nossa visão, que, como nos dizem os oráculos divinos, entrou nas trevas (Êxodo 20:21)… buscou por toda parte e em tudo, em seu desejo de ver claramente Aquele que sozinho é bom. E quando não havia sinal de encontrar nada, nem mesmo qualquer aparência do que esperava, desesperando de aprender com outros, refugiou-se no próprio Objeto de sua busca e orou assim: 'Revela-te a mim para que eu te veja com conhecimento (Êxodo 33:13)'.”
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Wolfson observou que nenhum filósofo havia dito isso tão explicitamente.
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A doutrina da incompreensibilidade divina é fundamentada por Fílon tanto nas Escrituras quanto metafisicamente, com risco de orientar a alma para uma experiência intelectual da nudez dos conceitos em lugar da passividade diante da ação de um Deus pessoal.
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A instância específica de articulação bíblica é a nuvem na qual Moisés entra.
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Em De Posteritate, 13–15, lê-se: “Vede-o entrar na densa escuridão onde Deus estava (Êxodo 20:21), isto é, em concepções relativas ao Ser Existente que pertencem à região inacessível onde não há formas materiais. Pois a Causa de todas as coisas não está na densa escuridão, nem localmente em lugar algum, mas muito acima do lugar e do tempo… E dessa busca acumula-se para ele uma vasta bênção — a saber, apreender que o Deus do Ser real não é apreensível por ninguém e ver precisamente isso: que ele é incapaz de ser visto.”
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Se a inteligência humana não pode atingir a essência divina, é porque está encerrada nas categorias de espaço e tempo, enquanto Deus as transcende.
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A incompreensibilidade divina repousa sobre sua absoluta simplicidade, que exclui toda determinação — Deus é sem forma, não pode ser definido nem nomeado; o Ser é inefável, de modo que nem os poderes que o servem podem revelar seu nome (De Mutatione Nominum, 14).
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O que é inacessível para Fílon é o conhecimento compreensivo da essência divina, mas não todo conhecimento dessa essência — o avanço de Moisés pela nuvem pela fé é uma verdadeira apreensão do Deus sempre oculto.
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Wolfson reconheceu corretamente que pode haver progresso no conhecimento da essência divina, embora o tenha reduzido ao conhecimento de Deus por meio de sua obra.
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Henri-Charles Puech vê nesse progresso uma apreensão da essência divina em si mesma: “Nessa perseguição perpétua e indefinida de Deus, nessa aproximação sempre mais próxima mas sempre inacabada de um objeto inesgotável, faremos dela a experiência mais elevada e mais vívida que nos poderia ser concedida — a experiência do indefinido e do transcendente.”
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