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OBRA DA EXEGESE

Jacques Cazeaux, “Philon d'Alexandrie” (Cerf, 1984)

Em suma, o texto inicial é o que ditou não apenas o conteúdo, mas também o método do comentário. Como vemos, ele se torna totalizante, e isso a partir do paradoxo de uma “noite” que serve como “dia útil”… As associações das quatro noites não são fortuitas nem fantásticas; são ao mesmo tempo necessárias e suficientes, se levarmos em conta o princípio de sua produção e sua ordem. Há aqui um Código de interpretação de tal categoria que Fílon não teria descartado. De fato, para ele, a própria obra da exegese se representa desta maneira:

Não é assim que a linguagem, mais preciosa que o ouro, pode ser um bordado de mil formas, que uma vez terminado é uma obra admirável, e quando dividido em seus capítulos mais definidos que formam uma espécie de cadeia, recebe como uma trama de demonstrações apropriadas?

No contexto que citamos, é Jacó que serve de herói para a definição do raciocínio justo (Os sacrifícios de Caim e Abel, § 83). Mas não há dúvida de que, como se se tratasse de uma realidade oculta, infelizmente muitas vezes demasiado oculta, o princípio de uma complexidade natural define igualmente o artifício da lectio divina do próprio Fílon, e que essa leitura não se contenta, aos seus olhos, em chegar à complexidade, natural por essência, do logos:, que, sendo múltiplo quando se reflete na Escritura, é, no entanto, uno.

Entre os eixos centrais de seu esquema está sua representação das leis. Nessa palavra se concretiza todo o conjunto dos escritos bíblicos, ou pelo menos o Pentateuco. Bem, Fílon distingue, por assim dizer, um triplo registro: as leis primeiras, que não estão escritas e que correspondem aos destinos dos grandes patriarcas; seu reflexo que cai nas leis fundamentais, ou tábuas do Sinai; sua divisão — sem alterar o ouro de seus primórdios — nas leis particulares, igualmente dignas de respeito e prática. Por isso mesmo, graças à sua própria natureza, esse ouro (para continuar com a comparação), qualquer que seja o riacho que o arraste, derivado da liturgia ou das leis proibitivas, é um testemunho do logos: pelo mesmo título que uma partícula da vida de Abraão.

Afinal, o sistema de Fílon é muito próprio. Talvez seja difícil entrar nele. Mas as cartas de Paulo, se não em alguma passagem privilegiada, pelo menos em sua leitura contínua, não são menos difíceis, e pela mesma razão: nelas predominam a retórica e a alegoria, com seus códigos, suas regras de associação de ideias, de imagens, de referências bíblicas. São códigos e regras diferentes dos de Filo, e não se pode falar de um ambiente idêntico e muito menos de influência direta, mas têm em comum a ideia de usar a alegoria. Algumas semelhanças bastante naturais tornam possível encontrar nelas interesses comuns, pontos de referência comuns. É interessante observar como Filo e Paulo comentam as duas figuras do homem das origens, mesmo que a interpretação de Paulo se oriente em uma direção muito diferente da de Filo. Não é indiferente observar como a oposição entre Hagar e Sara, entre a escrava e a esposa de Abraão, serve muitas vezes a Fílon para opor as ciências preparatórias à Sabedoria, já que Paulo também separa por essa mesma oposição alegórica a primeira aliança, preparatória, nosso “pedagogo”, a lei do Sinai (que é Hagar), da segunda aliança, que se realiza na nova Jerusalém (que é Sara). Paulo tem todo um sistema retórico.

João também é testemunha, na sutil discussão rabínica que tem abundantes exemplos nos “discursos” de Jesus, de que a mensagem evangélica, e até mesmo a própria palavra de Jesus, passava por uma retórica semelhante e uma alegorização da Bíblia. Filo usa muitas vezes a figura de Isaac, que interpreta como a alegria da alma, já que seu nome significa “risada”; o final do capítulo 8 de João supõe uma alegorização semelhante, quando Jesus diz: “Abraão viu o meu dia e se alegrou”. Devemos compreender assim: ele viu que Isaac nascia e “riu”, diante do sinal do novo Isaac da promessa. Mais tarde, os pais, seguindo o prólogo de João e apoiando-se no logos:-verbo tão presente na obra de Filo, dirão como ele que a criação foi feita por Deus graças à intervenção ou por meio do verbo (ver as Leis particulares. I, § 81); e nas lutas contra as heresias trinitárias, Atanásio, Didimo e outros pais argumentarão muito formalmente a partir das preposições “por — através de — com”…

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