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CONTRA CELSO IV

Orígenes — Contra Celso

A disputa mais vergonhosa segundo Celso

Afirma ele: “eis a pretensão de certos cristãos e dos Judeus: um Deus, ou Filho de Deus, conforme uns desceu, conforme outros descerá sobre a terra para JULGAR seus habitantes: um intento tão mesquinho que não são necessárias muitas palavras para refutá-lo”.

Ele parece falar com exatidão quando diz: não alguns judeus, mas todos, creem que alguém descerá sobre a terra; ao passo que apenas certos cristãos dizem já ter descido. Parece indicar os que estabelecem, por meio das Escrituras judaicas, a vinda de Cristo já realizada, e também parece conhecer a existência de Seitas que negam ser o Cristo Jesus a pessoa profetizada. Já deixei claro anteriormente, da melhor maneira possível, que o Cristo tinha sido profetizado; por isto não voltarei às inúmeras provas deste ponto, para evitar repetições. Vê, pois, que se ele tivesse querido, com lógica ao menos aparente, derrubar a fé nas profecias e na vinda futura ou passada do Cristo, deveria citar as profecias a que nós, cristãos ou judeus, recorremos nos debates. Poderia assim, ao menos aparentemente, afastar da adesão a elas e da fé em Jesus Cristo os que se sentissem atraídos per seu caráter supostamente enganoso. Mas de fato, seja por incapacidade de responder às profecias sobre o Cristo, seja por ignorância total quanto a elas, não cita uma só passagem profética, apesar de haver tantas. Pensa impugnar os textos proféticos sem mostrar o que ele chamaria c seu caráter enganoso. Ele ignora, em todo caso, não dizerem os judeus, simplesmente, que o Cristo Deus ou Filho de Deus descerá, conforme expliquei anteriormente.

Por que Deus desceu à terra?

Mal acaba de asseverar que, segundo nós, o Cristo desceu e, segundo os Judeus, descerá como Juiz, acha poder impugnar essa idéia como tão mesquinha que não mereceria refutação. Diz ele: “que intento teria Deus para tal descida?”

Não vê que, segundo nós, o intento da descida é principalmente o de converter “as ovelhas perdidas da casa de Israel”, e em segundo lugar, o de retirar aos antigos judeus, por causa de sua incredulidade, “o Reino de Deus”, e confiá-lo a outros vinhateiros, os cristãos, que “darão contas” a Deus, “no tempo oportuno, dos frutos do Reino de Deus”, sendo cada ação um fruto do Reino.

Apresentei estas razões, entre outras, para responder à questão de Celso: “que intuito teria Deus para tal descida?” Ele passa a inventar uma série de intuitos que não são dos judeus nem nossos. “Seria para vir aprender o que se passa entre os homens?” pergunta. Nenhum de nós disse que o Cristo tenha vindo para aprender o que se passa entre os homens! Depois, como se alguém tivesse concedido que foi para aprender o que se passa entre os homens, trata de responder por si mesmo à questão: “mas não conhece ele tudo?” Então, como se disséssemos que sim, formula nova pergunta: “ter-se-á pois que, conhecendo tudo, ele não reforma os homens, não pode reformá-los por seu poder Divino?” Quanto disparate nestas palavras! Incessantemente, por meio de seu Verbo que desce, nas sucessivas gerações, às almas pias e as faz amigas de Deus e profetas, Deus reforma os que ouvem suas palavras; e no tempo da vinda de Cristo, ele reforma pelo ensinamento do cristianismo, não os recalcitrantes, mas os que escolheram o melhor caminho, que agrada a Deus.

Não sei depois que reforma Celso desejaria realizada quando põe outra questão: “ser-lhe-ia impossível reformar (os homens) por seu poder divino, sem enviar alguém vetado, por natureza, para tal propósito?”

Será que Celso pensou numa reforma produzida em homens dotados de visões, por Deus, e que, retirando-lhes subitamente a malícia, implantasse a virtude? Poderíamos perguntar se isto seria conforme com a natureza ou até simplesmente possível. Diria eu: admitamos que seja possível; mas então que será de nossa liberdade? . . . Como seria louvável a adesão à verdade, como seria digna de aprovação a recusa do erro? Aliás, supondo a coisa possível e conveniente, por que não pôr imediatamente a questão, calcada sobre a afirmação de Celso: seria impossível a Deus criar, per sua onipotência uma humanidade desnecessitada de reforma, desde logo virtuosa e perfeita, sem a existência da menor malícia? Concepção capaz de seduzir a gente simples e ignorante, mas não quem examina a natureza das coisas! Pois destruir a liberdade da virtude é destruir sua própria essência. O assunto se prestaria a um estudo especial. Os gregos trataram dele em livros sobre a Providência. Jamais subscreveriam a proposição de Celso: “Ele conhece mas não reforma, e ser-lhe-ia impossível reformar por seu poder divino”. Eu mesmo diversas vezes tratei do assunto, da melhor maneira que pude. E as divinas Escrituras o têm demonstrado aos que podem compreendê-las.

Jesus Veio salvar a todos os homens

Retorquiríamos contra Celso o que ele mesmo nos objeta, a nós e aos Judeus: — Então, meu caro, o supremo Deus conhece, ou não, o que se passa entre os homens? Se admites que há um Deus e uma Providência, como teu tratado permite ver, necessariamente ele conhece. E se conhece, por que não reforma? Não será preciso explicar porque, conhecendo, ele não reforma? Tu que em tua obra não te mostras epicurista, pois indicas reconhecer a Providência, não te dás ao trabalho de dizer por que Deus, conhecendo tudo que se passa entre os homens, não os reforma e não os livra do mal por seu poder Divino. Nós, porém não nos acanhamos de dizer que ele envia incessantemente ministres que reformam os homens. (É por um dom de Deus que se acham na humanidade as doutrinas incitadoras das mais altas virtudes).

Ora, entre os ministros de Deus há diferenças: alguns pregam em toda a pureza a doutrina da verdade e realizam uma perfeita reforma: tais foram Moisés e os profetas. Mas, superior à obra de todos, está a reforma operada per Jesus, que quis curar não apenas os habitantes de um canto da terra, e sim, enquanto dele dependia, os do mundo inteiro, pois veio como “Salvador de todos os homens”.

"Deus não cabe no mundo", segundo Celso

Mas depois temos outra dificuldade do prezadíssimo Celso. Não sei per que razão, ele nos argui sobre o que diríamos: “Deus em pessoa descerá sobre os homens”. Seguir-se-ia, segundo ele, que “Deus abandona seu trono”. Ignora a potência de Deus, ignora que “o Espírito do Senhor enche o universo, e que, unindo todas as coisas, sabe tudo o que se diz!” Celso não consegue compreender a palavra: “porventura não preencho eu o céu e a terra?” Não vê que, segundo a doutrina dos cristãos, todos nós temos em Deus “a vida, o movimento, o ser”, segundo Paulo ensinou aos atenienses. Então, mesmo quando o Deus do universo desce por sua própria potência, cem Jesus, na existência humana; mesmo quando o Verbo, “no princípio com Deus” e Deus mesmo, vem até nós, não abandona seu lugar, não deixa seu trono, como se houvesse um lugar vazio, depois outro cheio com ele e que antes não o teria contido! Ao contrário, a potência e a Divindade de Deus vêm por aquele que ele quer e no qual acha um lugar, sem qualquer deslocamento, sem deixar um posto vazio para ocupar outro. Como também não falamos em sentido local, quando dizemos que ele deixa ou habita alguém. Dizemos que a alma do ímpio, imerso no vício, é abandonada por Deus, e explicamos que a alma do homem que deseja viver, vive e progride na virtude, é repleta ou se torna participante do Espírito Divino. Para Cristo descer aos homens, para Deus se voltar a eles, não se faz necessário pensar que abandone um elevado trono, ou que mude as coisas cá de baixo, conforme pensa Celso ao escrever: “mudar as coisas cá de baixo seria revolucionar e destruir o universo”. Se ocorresse dizer que se mudam coisas pela presença da potência de Deus e pela vinda do Verbo aos homens, diríamos sem hesitar: muda-se a perversidade em virtude, a licenciosidade em temperança, a superstição em piedade, tudo isto que significa abrir a alma à vinda do Verbo de Deus.

Deus, um novo rico?

Se desejas ter minha resposta a questões ainda mais ridículas de Celso, ouve mais esta: “Deus, sendo desconhecido pelos homens, e julgando-se assim diminuído, terá talvez querido fazer-se reconhecido, para deixar-se comprovado aos crentes e incrédulos, da mesma forma como os intrusos ávidos de ostentação? Que ambição excessiva e humana se iria atribuir a Deus!”

Minha resposta é que ele, desconhecido por causa da malícia dos homens, quis ser reconhecido, não por JULGAR-se diminuído, mas porque seu conhecimento (gnosis) liberta da infelicidade quem o conhece. Nem é para comprovar-se a si mesmo, humilhando crentes e incrédulos, que habita em alguns por sua misteriosa e divina potência ou lhes envia seu Cristo; é para afastar de toda infelicidade os crentes que acolhem sua Divindade e para tirar aos incrédulos ocasião de excusa pela falta de fé, a pretexto de não terem ouvido seu ensinamento.

Sendo assim, que argumento extrairia de nessa doutrina essa ideia de um Deus assemelhado a intrusos ávidos de ostentação? Ele está longe de ser ávido de ostentação para conosco quando deseja fazer-nos conhecer e compreender sua excelência. Deus quer implantar em nós a felicidade que nasce nas almas pelo fato de ser conhecido por nós; seu anseio é fazer-nos entrar em sua intimidade, por meio do Cristo e da incessante vinda do Verbo. A doutrina cristã não atribui a Deus, portanto, nenhuma ambição humana.

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