Orígenes — Tratado da Oração
XXIV Santificado seja o teu Nome
1 “Santificado seja o teu Nome”. Pelo que se depreende desta palavra, é bem claro, em Mateus e em Lucas que, mesmo se o orante não conseguiu o objeto de seu pedido ou teme que o bem recebido não dure, o texto dá a entender que o nome do Pai ainda não foi santificado. Como é isto possível? Pode-se pedir que seja santificado ou não?
Vejamos o que significa o nome do Pai, e o que significa ser santificado.
2 O nome é uma expressão em que se condensa e descreve a qualidade específica da coisa nomeada.
Por exemplo, o Apóstolo Paulo tem características especiais: da alma, pela qual é o que é; da mente, pela qual pode contemplar certas realidades; do corpo, pelo qual é indivíduo único.
O caráter particular destas propriedades é pessoal e não pode convir a outros (entre os seres não há nenhum que não difira de Paulo em algum aspecto). Isso é indicado pelo nome de Paulo.
Quando os homens mudam de algum modo as qualidades próprias, mudam também de nome, segundo as Escrituras. Assim, quando mudou a qualidade de “Abrão”, o mesmo se chamou “Abraão” (cf. Gn 17,5). Quando mudou “Simão”, foi chamado de “Pedro” (cf. Mc 3,16). Quando “Saulo” deixou de perseguir a Cristo, foi chamado “Paulo” (cf. At 13,9). Quanto a Deus, que é sempre invariável e imutável, não há senão um nome, dado no livro do Êxodo (3,14) : “Aquele-que-é”, e algum outro semelhante.
Todos nós imaginamos algo sobre Deus e formamos ideias sobre ele, mas não podemos entender o que ele é em si mesmo. Na realidade, são poucos e, se me é permitido dizer, são pouquíssimos entre os poucos, os que entendem as suas propriedades.
A justo título, aprendemos que existe em nós uma noção correta de Deus, se podemos perceber que ele é criador, providência, juiz, aquele que escolhe e que abandona, julga alguém digno de prêmio ou de castigo, segundo cada qual o mereça. Por estas e semelhantes atuações de Deus, caracteriza-se, por assim dizer, a qualidade própria de Deus que, a meu ver, se exprime na Sagrada Escritura com o nome de Deus. Assim, está no livro do Êxodo: “Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão” (20,7). E no Deuteronômio: “Como chuva se derrame a minha doutrina, caia como orvalho a minha palavra, como branda chuva sobre a erva verde e como um aguaceiro sobre a grama, porque é proclamado o nome do Senhor” (32,2-3).
Também nos salmos: “Lembrar-se-ão do teu nome, de geração em geração” (Sl 44,18). Aquele que une o seu conceito de Deus a coisas impróprias, toma o Nome de Deus em vão. Mas aquele que se acha em condição de proferir palavras semelhantes à chuva e aptas a produzir fruto na alma dos ouvintes, aquele que diz palavras consoladoras, semelhantes ao orvalho, produzindo chuva mansa ou fortes aguaceiros por meio de úteis palavras que edificam os ouvintes, tal pessoa atua em nome de Deus.
Ele sabe, com efeito, que precisa de Deus para que tudo chegue à perfeição, e o invoca a fim de que esteja a seu lado, porque é de Deus que propriamente vêm todos esses bens. Na verdade, todo aquele que entende mais profundamente as coisas divinas, como que se recorda do que experimentou, ainda que lhe pareça que alguém lhas ensina ou que ele mesmo as encontrou.
3 Cada orante deve saber tudo quanto é aqui explicado, a fim de que possa orar: “Santificado seja o teu Nome”. Assim também ele precisa daquilo que é dito nos salmos: “Exaltemos todos juntos o seu nome” (Sl 33,4). O Pai, portanto, ordena que, com total harmonia de mente e de coração, alcancemos a verdadeira e elevada noção das propriedades de Deus. É isto que quer dizer “exaltemos todos juntos o seu nome”: quando alguém se torna participante do influxo divino, é tomado sob a proteção de Deus, e prevalece sobre os seus inimigos, que não podem se alegrar da sua queda, pelo fato de que a força de Deus, da qual ele participa, o exalta, conforme o significado no Sl 29, com estas palavras: “Eu te exalto, Senhor, porque me protegeste e não consentiste que os meus inimigos se alegrassem por causa de mim” (Sl 29,2).
Exalta cada um a Deus quando no seu íntimo lhe dedica um templo, como se vê do título deste salmo: “Salmo para a Dedicação da casa de Davi”.
Ademais, com relação ao fato de que a fórmula “Santificado seja o teu Nome” e as petições seguintes estejam no imperativo, deve-se dizer que os tradutores da Bíblia empregaram muitas vezes esse modo em lugar do optativo. Por exemplo, nos salmos: “Tornem-se mudos os lábios mentirosos, que dizem iniquidade contra o justo” (Sl 30,19), em vez de dizer: “Possam tornar-se mudos” , etc.
O mesmo, no salmo 108: “O credor tome tudo que ele possui, e não haja ninguém que o ajude” (Sl 108,11-12), dito a respeito de Judas, porque nesse salmo se pede que tais coisas lhe sucedam.
Taciano, não compreendendo que a palavra “Faça-se” não significa sempre desejo, mas em certos casos indica também uma ordem, tirou conclusões muito ímpias sobre Deus, a propósito do versículo que diz: “Faça-se a luz” (Gn 1,3), como se Deus aí tivesse manifestado um desejo e não uma ordem. Segundo o seu modo ímpio de pensar, Deus estaria nas trevas! Convém ainda perguntar-lhe como interpretará também as seguintes passagens: “Brote da terra a erva verde” (Gn 1,11), e esta: “Juntem-se as águas de debaixo do céu numa só massa” (id. 1,9), “Produzam as águas répteis vivos” (id. 1,20), ou ainda, “Faça a terra saírem animais vivos” (id. 1,24). Será que é para poder pisar em base sólida, que Deus pede que se reúnam numa só massa as águas existentes debaixo do céu? Ou, quem sabe, será para fazer uso dos produtos da terra, que ele pede que a terra germine?
Que necessidade tem ele da luz, dos animais aquáticos, dos pássaros, dos animais terrestres, para desejar a sua criação? Se Taciano admite ser absurdo que Deus, em tais casos, tenha sentido alguma necessidade, como não valeria o mesmo critério para a frase: “Faça-se a luz”, a ser dita não em sentido optativo, mas imperativo, como nos outros casos? Pois que a oração é enunciada em verbos no imperativo, pareceu-me necessário lembrar aqui as falsas interpretações de Taciano, por causa daqueles que ele enganou e que receberam a sua ímpia doutrina, os quais nós mesmos conhecemos.